terça, 16 de julho de 2019
Educação
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A ‘sofrência’ da língua portuguesa

Bruna Vieira / 10 de junho de 2016
Foto: Nalva Figueiredo
Um passeio nas ruas, uma olhada rápida no Facebook e já dá pra ver a ‘sofrência’ do brasileiro para escrever corretamente. Na escola não é diferente, somente 13% dos alunos do 5º ao 9º ano demonstraram aprendizado adequado em língua portuguesa na Paraíba, conforme o QEdu. A ortografia é nova, mas os erros grosseiros são velhos. Para o professor de português, Manoel Brasileiro, eles tendem a permanecer, caso não haja hábito de leitura. Os exemplos são inúmeros e muitos estão relacionados à crase e ao hífen. Hoje, Dia da Língua Portuguesa, vale um lembrete: para se encaixar nas melhores oportunidades do mercado de trabalho, principalmente em tempos de crise, é essencial não só saber português, como ter uma segunda língua e quem tropeça no idioma materno, tem mais dificuldades para aprender outro.

Em uma loja de informática, o anúncio dos serviços “recagas de cartuchos” está lá há três anos, como explicou o funcionário. “O erro foi da empresa que fez o banner. O pessoal entende o que realmente quer dizer, ou então não lê. Ninguém repara, até eu demorei para ver”, contou Matheus Vinícius Domingos, técnico em informática.

Mas, os erros não se limitam aos letreiros informais. Na Avenida Epitácio Pessoa, a placa que indica a ciclofaixa utiliza acento agudo em vez do grave na crase. O professor de português Manoel Brasileiro associa os erros à falta de leitura. “É uma questão sutil, com o tempo vão absorver as novas regras. Os novos livros já têm, quem lê terá menos dificuldade”, disse.

“Acho que com as novas regras, vai ter mais erros porque as pessoas vão demorar a aprender e se confundem. Eu vi as mudanças por cima, mas não aprofundei. Passei a vida estudando de um jeito e mudou”Matheus Vinícius Domingos, técnico em informática.

0,6% das regras foram afetadas no Brasil. 

Lava a jato

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O erro mais visível é o lava-jato ou lava jato. Os estabelecimentos que lavam automóveis estampam na fachada expressões erradas. Até mesmo veículos de comunicação cometeram a gafe quando se referiam à operação “lava a jato” da Petrobrás. O termo correto usa três palavras separadas sem hífen e sem crase. “A jato” é a forma como a lavagem será feita, como o substantivo é masculino, não leva crase.

O professor explicou que a expressão é nova e por isso é escrita de várias formas erradas. Escrever correto é essencial para a formação educacional e profissional. “O jovem está descuidando da ortografia, vai trazer dificuldade ao acesso à universidade e emprego. “Em uma carta de apresentação ao trabalho isso é um diferencial, o domínio da língua é a boa apresentação”, ressaltou.

“Os erros continuam e são muitos. A maior dificuldade na língua hoje é o emprego do hífen, que gera mais complexidade. Mini-saia virou minissaia. Bem-vindo ainda tem hífen. Nessa proposta o aluno ainda está vacilando. Vamos observar mais erros com as mudanças. Elas não são significativas para o bom uso da língua, as escolas já estavam trabalhando. Isso é mais em Portugal”, comentou o professor.

“Duplicar as consoantes dificulta. A crase também, eles acham que usam quando quiserem, que não há regras. Não é coisa de inteligência, é um processo de assimilação, de treinamento da escrita”Manoel Brasileiro, professor de português.

Um pouco de tolerância

Brasileiro disse que há certa tolerância para os pequenos erros nas correções. “Não se penaliza muito, só quando são erros desastrosos como em palavras comuns, como, por exemplo, Brazil ou quando se repete muito o erro. Há um pouco de vista grossa. Nossa ortografia é a mais complexa. Há 36 anos em sala de aula vi que já havíamos feito muitas mudanças. Portugal é que está mais distante. Já abolimos muita coisa. O trema foi o mais fácil, porque os alunos nunca usaram”, revelou.

O professor acredita que as mudanças não vão acrescentar muito ao estudo. “Unificar a língua é bom para o governo, se escrevia um mesmo documento para Portugal e outro para o Brasil. Na língua inglesa a primeira preocupação é com a fonética, falarem correto. Aqui, a preocupação é em escrever. Há uma revolta incutida nos alunos que levaram puxão de orelha para aprender regras que deixaram de existir”, afirmou.

Ver como se escreve corretamente é a melhor maneira de aprender. “Exercitar, praticar, treinar. É mais técnico que raciocínio, porque não está no campo da sintaxe, da semântica, da organização da frase. O jovem de hoje não gosta de ler. A internet atrapalha porque é coisa muito simplificada, abreviada. O aluno está muito tecnológico e acaba levando isso para a sala de aula”, concluiu o professor.

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O que confunde:

Saiu a francesa (sem crase, foi a mulher francesa que saiu).

Saiu à francesa (com crase, à moda francesa).

O marinheiro voltará a terra (sem crase pois trata-se de chão firme).

Eu vou à terra dos meus sonhos (com crase, pois é um lugar específico)

Os postos (lê-se os póstos quando vai para o plural)

O aprendizado na rede pública na Paraíba

47.330 alunos até o 5º ano fizeram a Prova Brasil

11.531 (24%) aprenderam o adequado em leitura e interpretação de textos

44.419 alunos até o 9º ano fizeram a Prova Brasil

5.985 (13%) demonstraram o aprendizado adequado

Bilinguismo

Para conseguir as melhores oportunidades de emprego e estudo, quem não fala mais de um idioma fica para trás. O inglês é essencial. Segundo o gerente geral da International School, a melhor maneira de aprender é começando na infância. “Nessa faixa é que estão mais abertos a receber informações. É mais tranquilo, não tem bloqueio nem muita influência da língua materna. Desenvolvem a pronúncia mais próxima do nativo. Recebem de forma mais natural e espontânea”, explicou.

Para Rone, que é mestre em linguística, quem já é adulto e vai começar a estudar inglês, consegue aprender. Mas, para aqueles que tropeçam até no português, será mais difícil. “Conhecer o português facilita a precisão. São duas coisas distintas: a habilidade de comunicação, conseguir se comunicar e entender, quando há diálogo. E a precisão, que é um segundo momento, o inglês sem erros. Mas, é possível se comunicar”, disse o publicitário.

“Quem não domina o inglês perde oportunidades no mercado de trabalho. Começamos a trabalhar com o método Lego em Campina Grande. Ele é interdisciplinar, passa pela parte estrutural, idioma, gramática e vocabulário. Na aula de inglês é possível aprender matemática, geografia e até robótica e programação, é uma ferramenta. São 100 crianças no Infantil e Fundamental I. A Região Nordeste foi a de maior crescimento e interesse pelo programa”, ressaltou Rone, que acredita que a escassez de mão de obra qualificada restringe a disseminação do ensino bilíngue no Brasil.

O que mudou:

Alfabeto:

Tem 26 letras: acrescido do k, w, y.

Trema:

Deixa de existir em todas as palavras, com exceção para nomes próprios.

Hífen:

Deixa de existir nos seguintes casos:

Quando a primeira palavra termina em vogal e a segunda começa com vogal diferente. Ex.: extraescolar.

Quando a segunda palavra começar com R ou S, que deve ser duplicada. Ex.: antissemita.

Passa a ser usado nos casos:

Em que a primeira palavra finalizar com a mesma vogal da segunda. Ex.: micro-ondas.

Acento diferencial:

Não se usa mais em:

Péla (flexão do verbo pelar) e pela (por + a)

Pára (verbo) e para (preposição)

Pêlo (substantivo) e pelo (por + o)

Acento circunflexo:

Deixa de existir em:

Palavras que terminam com hiato. Ex.: voo/enjoo.

Terceira pessoa do plural do presente do presente do indicativo ou do subjuntivo. Ex.: leem, veem, creem, deem.

Acento agudo:

Foi abolido em:

Palavras terminadas em “eia” e “oia”. Ex.: ideia, jiboia.

Paroxítonas com “i” e “u” tônicos após um ditongo. Ex.: feiura.

Quando a forma verbal tem acento tônico na raiz, com “u” tônico depois de “g” ou “q” e antes de “e” ou “i”. ex.: averigue, apazigue.

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