sábado, 19 de setembro de 2020

Educação
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Luta pelo ensino de qualidade supera medo e cansaço

Wênia Bandeira / 10 de outubro de 2016
Foto: Chico Martins
Cansaço, medo de violência e incertezas. Os problemas enfrentados pelos alunos do ensino médio que estudam em Campina Grande, mas moram nas cidades vizinhas, são diversos, de acordo com a diretora da Escola Estadual Dr. Elpídio de Almeida, o Estadual da Prata, maior escola pública da cidade. Maria Priscila Porto disse que os estudantes passam pelo desgaste diário das viagens e em alguns dias não sabem se terão o transporte para a locomoção. Segundo estudantes, segurança privada está sendo disponibilizada devido aos assaltos ocorridos nos municípios de origem.

“Eles sempre pedem para sair da aula 15 ou 20 minutos antes de terminar porque senão não pegam o ônibus, os motoristas não esperam. Além disso, passam horas dentro do ônibus até chegar às escolas, o que cansa e tira a atenção”, disse a diretora. Para não prejudicar os estudantes, o Estadual da Prata passou a pedir uma declaração aos que moram fora da cidade.

Ela explicou que o ensino profissionalizante é integral, com aulas em dois turnos, mas a escola permite que estes alunos saiam mais cedo e cheguem mais tarde. Com esta flexibilização de horário, segundo Priscila, os estudantes de fora conseguem notas até mesmo melhores que os de Campina Grande. “Apesar de toda adversidade, o rendimento deles é muito bom, eles vêm focados, enquanto os daqui são mais dispersos”.

Além do ensino profissionalizante, que é integral e, por isso, dura manhã e tarde, a estudante do terceiro ano do ensino profissionalizante no Estadual da Prata, Paloma Felizardo, mora na cidade de Puxinanã, a oito quilômetros de distância de Campina Grande, mas o trajeto no ônibus escolar demora duas horas para ser percorrido. “Como são muitas paradas até lá, passando por outras cidades, o ônibus passa muito mais tempo para chegar em Puxinanã, o que aumenta o cansaço”.

A estudante ainda faz aulas em cursinho particular preparatório para o Enem a noite. “Eu acordo todos os dias às 4h30 e chego a casa às 11 horas da noite. Então é bem exaustivo, principalmente quem está no terceiro ano que pretende fazer um cursinho, pré-Enem. Eu ganhei a oportunidade, pela escola, para fazer um cursinho de graça que é particular, mas é à noite. Então eu estudo de manhã, de tarde e noite. E a noite eu volto para casa dormindo no ônibus, não tem nem como revisar a matéria”.

Pensando nesta dificuldade, o professor de história José Reneudo da Silva acredita que precisa sempre haver uma adequação da escola para com o aluno. “É mão e contramão, a escola e o aluno, os dois juntos conseguem resolver este problema e garantir que haja o aprendizado em mesmo nível dos demais. Precisam ser tratados de modo diferente, mas garantindo que a educação aconteça”.

Para ele, o trabalho com estes estudantes precisa ser com atividades contínuas para acompanhar os alunos ou mesmo unindo em trabalhos em dupla para colocar um aluno que tem mais deficiência com outro que tem mais desenvoltura. “Eles então podem se ajudar no aprendizado”.

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Escolas sem qualidade no interior

Paloma Felizardo diz que enfrenta a estrada todos os dias para fugir da falta de condição nas escolas de sua cidade. “É perceptível que o ensino de lá não é de qualidade. Por mais que o aluno tenha interesse, os professores não ajudam. Você não consegue ter uma boa base para fazer o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), por exemplo”, falou.

O secretário estadual de educação, Aléssio Trindade, confirmou que a qualidade nas escolas das cidades menores é menor em relação a cidades como Campina Grande e a capital, João Pessoa. De acordo com ele, não é possível oferecer da mesma forma para todos os municípios. “É claro que uma escola bem maior, como são as de centro de referência, não são todos os municípios que comportam, mas estamos fazendo o possível para que tenham uma qualidade compatível com a necessidade”. O ensino médio já está presente em todos os 223 municípios paraibanos com, segundo ele, laboratórios de robótica em todas as escolas da rede estadual.

Aléssio afirmou que, atualmente, 25 escolas estaduais ofertam o ensino técnico e oito escolas têm o ensino integral. Ele adiantou que o objetivo agora é expandir para 20 escolas com ensino integral, além de colégios com o chamado “integral intermediário de transição”, ou seja, que utilizam parte da forma de trabalho, sem algumas características, como tutoria para todos os estudantes e outras disciplinas.

Profissionais temporários e sem formação adequada

No entanto, o coordenador geral do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Educação do Estado da Paraíba (Sintep), Carlos Belarmino, falou que a reclamação da aluna tem razão de ser. De acordo com ele, as escolas existem, mas sem estrutura e sem profissionais qualificados. “Dos 18 mil professores trabalhando nas salas de aula, quase nove mil são prestadores de serviços terceirizados e alguns deles não têm curso superior, mas estão trabalhando. É contra esses absurdos que estamos trabalhando hoje, porque existe uma pressão por parte de deputados e prefeitos que empregam este pessoal, por isso que nós pedimos concurso público, para evitar ingerência política”, afirmou.

Carlos declarou que as escolas da rede estadual de ensino médio têm laboratórios de informática, mas os computadores não são usados por falta de condição para funcionamento. “Muitas vezes o computador está lá, mas o espaço físico não é adequado, tem goteiras ou outros problemas. E quando tem um espaço físico adequado não tem internet, o que impende a utilização”.

Reforma do ensino médio carece de debate

O Sintep-PB está pedindo um debate maior em relação a reforma do ensino médio, anuncia por meio da Medida Provisória 746, no dia 22 de setembro. Segundo Carlos, alguns pontos deixaram a desejar por os profissionais não terem sido ouvidos a respeito.

“A Medida Provisória diz que qualquer pessoa que tenha afinidade pode estar numa sala de aula, ou seja, pessoas que fizeram enfermagem poderiam dar aula de biologia, quem estudou contabilidade, poderia lecionar matemática. Então, graduados poderiam atuar como pessoas que fizeram uma licenciatura”, afirmou. Ele se referia ao artigo 44 da MP, o que, segundo ele, deixaria de valorizar o magistério.

Ele falou ainda que o único ponto positivo seria dar direito a escolha para o aluno referente a qual área quer seguir profissionalmente. De acordo com o MP, o aluno poderia escolher por área de conhecimento em humanas, linguagens, matemática, ciências da natureza, e formação técnica e profissional, ou seja, quem quer cursar uma faculdade na área de exatas não precisaria estudar geografia ou história.

Para o secretário, a mudança precisa acontecer com ênfase no ensino integral e técnico, mas o debate vai continuar. “Vem de uma discussão que iniciou em 2013 porque precisa ter melhores resultados e isso é um consenso nacional. Os dois aspectos é algo que já fazemos na Paraíba, Outros pontos vão carecer de ampla discussão e o Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação) está programando uma reunião para aprofundar o tema”.

Ele afirmou que dos estudantes que terminam o ensino médio na rede pública, em torno de 18% ingressam na universidade e 40% sequer faz o Enem. “Então dar uma opção de fazer o ensino técnico durante o ensino médio é melhorar a vida desses meninos”.

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Duas escolas municipais

O dever de oferecer o ensino médio no Brasil é, por lei, dos governos estaduais, mas duas cidades paraibanas mantêm o ensino municipalizado. Junco do Seridó, localizada no sertão, tem a Escola Municipal Santo Onofre, e Olivedos, no agreste, está com o Colégio Monsenhor Stanislau. Contudo, a primeira já informou que entregará a administração para o Estado, enquanto a segunda se orgulha de ter o ensino médio municipal.

A coordenadora pedagógica da escola Santo Onofre, Alília de Lima, disse que não há mais condição financeira para Junco do Seridó manter o lugar funcionando. “A gente tenta ofertar tudo que é de direito para os alunos, para que eles tenham um ensino de qualidade, mas como a gente sabe que o repasse das verbas são todos encaminhados para o Estado, vamos estadualizar a escola em 2017. Com isso, eles terão recursos financeiros e um prédio mais adequado para o estudo”.

De acordo com Alília, o ensino médio tem, atualmente, recursos apenas para a alimentação, já que os professores utilizados são do ensino fundamental, que também é oferecido pela escola. Ao todo, são 65 alunos cursando o ensino médio na cidade, com 27 professores lecionando, sendo um deles contratado, mas, de acordo com ela, graduado na área que está atuando, a disciplina de filosofia.

No Monsenhor Stanislau, Olivedos, segundo o prefeito de Olivedos, Grigório de Almeida, bons resultados estão sendo obtidos e, por este motivo, a prefeitura pretende continuar oferecendo o ensino médio, “Esse ano, dos 22 anos alunos que fizeram o Enem, 11 passaram para alguma universidade. Então a população rejeita a estadualização da escola porque sabe que o estado não tem a mesma qualidade que tem o município”.

Por ano, segundo o prefeito, são disponibilizados 400 mil reais em recursos para o ensino médio. A escola conta com 172 alunos e 11 professores, sendo três deles contratos. Ele explicou que um concurso público foi feito em 2014 para preencher estas três vagas, mas não houve aprovados. “Nós ainda estamos chamando os remanescentes deste concurso para então realizar um novo”, salientou.

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