terça, 01 de dezembro de 2020

Cidades
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Duplamente violentadas: estupro deixa marcas físicas e psicológicas nas vítimas

Fernanda Figueirêdo / 02 de março de 2016
Foto: Arquivo
Além da violência física sofrida por quem é vítima de abuso sexual, o que mais preocupa são as sequelas psicológicas. O medo, a insegurança e a sensação de impunidade são constantes. Além disso, boa parte das mulheres não denuncia os agressores por vergonha ou medo e, quando tentam, não conseguem concretizar a denúncia.

É o caso de uma jovem de 15 anos estuprada há pouco mais de um mês na zona rural de Campina Grande. Letícia Silva (nome fictício) foi violentada por dois homens às 13h em sua residência. Eles aproveitaram o momento em que os pais da vítima saíram de casa e a menina ficou só. “Eu estava do lado de fora, lavando a louça do almoço. Eles chegaram e mandaram eu entrar, me obrigaram a tirar a roupa e me violentaram por quase uma hora no sofá da sala”, disse.

Depois que os homens foram embora, Letícia ligou para a Polícia Militar através do telefone 190 e a atendente desligou duas vezes afirmando que se tratava de um trote. A menina ligou para os pais, que saíram desesperados para socorrer a filha. “Ainda procuramos por eles, mas já haviam ido embora. Duas horas depois fomos até o destacamento policial do Distrito e os dois policiais de plantão afirmaram que não sabiam do ocorrido”, disse a mãe da jovem, a quem chamaremos de Luiza.

Em seguida, a adolescente foi levada parao Instituto de Saúde Elpídio de Almeida (Isea) para realizar exames e ser medicada e depois para prestar queixa na Central de Polícia Civil, no bairro do Catolé. “Ainda tivemos que ouvir, na polícia, dizerem que só o exame médico constataria se o ato tinha sido realmente forçado”, disse a mãe.

“Nunca nos entregaram nem boletim de ocorrência nem o laudo da perícia médica, eu nem sei o que eles escreveram lá. Quanto aos homens, a delegada disse que se a gente tivesse alguma prova de quem teria praticado o estupro, procurasse por ela. Pensei que era a polícia que deveria ir atrás das provas”, disse Luiza.

Dificuldades. A família de Letícia mora em uma casa simples e vive com apenas R$ 120 de um programa federal. A menina tem dois irmãos mais novos que, no momento do crime, haviam ido até a mercearia. A polícia acredita que os homens estavam vigiando a rotina da casa. Com medo de represálias e sentindo que a justiça não seria feita, eles preferiram se mudar.

A menina diz que o único sentimento é o de medo constante. “Eu só tenho muito medo que eles voltem pra me matar, de que me encontrem quando eu for para a escola”, desabafou Letícia, que está no 6º ano do Ensino Fundamental e diz não ter passado por acompanhamento psicológico. “Não temos dinheiro nem pra comer, quem dirá pra pagar duas passagens de ida e volta por semana”, lamentou a mãe da jovem.

A delegada responsável pelo caso, Alba Tânia Abrantes, da Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Infância de Campina Grande, disse que não há pistas de suspeitos do estupro. “O crime ainda está sem identificação. Fizemos diligências, mas não conseguimos comprovar nenhuma suspeita”, disse.

Elas se calam

Segundo a psicóloga clínica Renata Oliveira, a subnotificação de casos de estupro ainda é uma realidade no Estado. As vítimas, por medo de represálias e até por vergonha, preferem não denunciar os abusos, principalmente quando os autores são pessoas conhecidas. “A verdade é que nos últimos 50 anos pouca coisa mudou. Em geral, a mulher tem que provar que foi estuprada, que é realmente vítima”, explicou.

Há 50 anos

Maria da Conceição Santos, de 64 anos, relembra com desgosto que aos 14 anos de idade, nos anos 60, foi estuprada e expulsa de casa pelos pais após ter ficado grávida do seu agressor. “Eu não sabia nem o que era estupro. Procurei o rapaz que era da alta sociedade e ele mandou eu tirar o bebê. Não foi o que eu fiz, tive minha filha e fui trabalhar em casa de família para sustentá-la”, disse Maria.

 

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