terça, 13 de novembro de 2018
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Dobra o número de moradores de rua em um ano na Capital

Ainoã Geminiano / 21 de outubro de 2018
Foto: Rafael Passos
O número de pessoas em situação de rua em João Pessoa quase dobrou, em um intervalo de um ano, considerando as duas últimas contagens feitas pela Prefeitura. Em maio de 2017 foram contabilizadas 136 pessoas dormindo nas calçadas. Em junho deste ano, o número subiu para 261, mas já pode estar maior. Apesar do crescimento, as políticas públicas disponíveis são apenas emergenciais, como algumas das refeições do dia ou um banho. Não existe nenhuma iniciativa que ofereça a essas pessoas uma oportunidade de trabalho ou de reestruturação familiar.

O Correio visitou locais onde os moradores de rua se concentram para dormir e ouviu relatos de pessoas que estão há vários anos sem abrigo. Também encontrou recém chegados às ruas da Capital, que estão fazendo aumentar as estatísticas. É o caso de André Sousa Cavalcanti, de 31 anos, ex-estudante universitário, que veio de Campina Grande procurar trabalho em João Pessoa, há cerca de três meses, mas acabou ficando nas ruas.

Com o desgaste na relação com a mãe, por conta das recaídas no uso de drogas, André diz que não tem mais para onde voltar e denuncia a falta de política pública que lhe dê outra oportunidade no mercado de trabalho.

"Perambulando pelas ruas encontrei essas pessoas daqui, fiz amizade com um camarada que esteve em uma clínica de recuperação, de Campina, na mesma época que eu estive. Já cursei quatro faculdades diferentes, não concluir nenhum curso. Mesmo assim sei de muita coisa. Mas a ajuda que recebemos é apenas o Centro POP, onde passamos o dia e temos almoço. Eu queria trabalhar, conseguir uma profissão, mas não existe oportunidade, um curso, um programa onde a gente vá aprender alguma coisa. Eu sei que tenho potencial, mas sair daqui por conta própria é impossível", desabafou.

André disse que estava esperando uma promessa de emprego feita por uma voluntária que entrega jantar, à noite. Enquanto isso não chega, ele segue sonhando em conseguir sair da rua.

"Estou juntando o dinheiro que posso. Trabalho com rodo lavando vidro de carro. O que consigo arrecadar deixou com uma assistente lá do Centro POP. Estou tentando juntar pelo menos o primeiro aluguel", contou.

PMJP só consegue ajudar 100 pessoas

A Prefeitura de João Pessoa (PMJP) só oferece aos moradores de rua os atendimentos de urgência em saúde, abrigo para até 60 pessoas e estadia diurna, com duas refeições para outras 40. Isso significa dizer que pelo menos 161 moradores de rua não recebem nenhum tipo de assistência do município. O serviço que faz o primeiro contato com os moradores de rua é o projeto Ruartes, oficialmente chamado de Serviço Especializado em Abordagem Social.

Em uma unidade móvel, técnicos do Ruartes visitam os locais onde há notificação da presença de morador de rua, além dos outros pontos já conhecidos de concentração deles. A partir da abordagem, é feita uma análise da situação da pessoa em situação de vulnerabilidade e, se necessário, encaminhamento para unidade de saúde. “A capacidade dos nossos abrigos não comporta a quantidade de pessoas que temos hoje nas ruas”, disse Maria do Amparo dos Santos, coordenadora do Ruartes. Ela, admitiu a ausência de um serviço que ofereça qualificação de mão de obra a esse público, mas disse que existem tratativas em andamento para uma parceria do Centro POP (casa de acolhida diurna) e a iniciativa privada, para capacitação dos moradores de rua que tiverem um nível mínimo de instrução, para que possa assimilar as instruções. “Estamos tentando ter um serviço que ofereça dignidade para a dormida.

Estamos um tanto ainda mais distante de conseguir iniciativas que sejam uma porta de saída das ruas”, acrescentou Amparo.

Viver na rua auxilia na renda famíliar

Nem todas as pessoas que dormem nas ruas da Capital são moradores de rua durante 24 horas. Wellington Gomes da Silva, 33 anos, tem uma casa no Colinas do Sul, onde mora com a mulher e quatro filhos, um deles recém-nascido.

“Eu trabalho aqui pelo Centro, olhando carros, lavando, fazendo um bico aqui e outro ali. A maior parte da semana eu durmo aqui na rua mesmo, pra não ter que gastar com transporte. Também aproveito a janta que as igrejas passam distribuindo, é mais uma economia. Quando junto algum dinheiro ligo para minha mulher, ela vem aqui no Centro e pega, pra comprar as coisas em casa”, contou.

A história de Wellington é dureza até nos dias em que resolve descansar. “Quando estou muito cansado não e quero dormir na rua vou pra casa. Saio daqui caminhando e em duas horas chegou em casa”, revelou. O detalhe é que do Centro para o Colinas do Sul, o percurso médio é de cerca de 15 quilômetros.

Tradicional morador de rua. Apesar das histórias curiosas, a maioria dos moradores de rua são mesmo as pessoas em total desestrutura, sem casa, sem parentes próximos e sem perspectiva. Edson Trajano Elenildo Alves, que não lembra a idade, é um exemplo do tradicional morador de rua. Chegou a ser preso por, segundo ele, se envolver em uma briga. “Quando eu tava preso mataram meu irmão. Depois que saí da cadeia, minha mãe morreu. Fiquei sem ninguém no mundo e vim para a rua”, disse.

A casa que a mãe morava não era própria. Hoje, Edson tem uma companheira, que conheceu na rua e com que divide vive a céu aberto. AG

Mãe e filhos: o dia na praça

Em outro ponto do Centro da Capital, na Praça Dom Adalto, as circunstâncias levaram mãe e filhos a passar o dia na rua. Vítima de violência doméstica, do desemprego e com medo da violência urbana no bairro onde morava, Ana Cristina, de 40 anos, decidiu que morar na rua era melhor do que no apartamento, no Colinas do Sul. “Eu apanhava muito do meu ex-companheiro, pai dos meus três filhos. Sem apoio da família e sem nenhuma expectativa de melhora, entreguei os meninos pra ele e decidi viver na rua. Com medo, entreguei o apartamento para minha irmã. Estou melhor vivendo assim do que antes”, disse.

Na rua, Ana fez amizade com outros moradores, que os considera parte de uma família. No entanto, ela recebe visita dos filhos, que chegam a passar o dia na rua acompanhando a mãe. “Durmo ali em baixo de uma marquise. Todo dia recebo um pouco de comida e outras ajudas do pessoal da Igreja do Carmo”, acrescentou.

Um dos amigos de Ana é Márcio Oliveira, de 36 anos, que vive nas ruas em consequência da dependência de drogas. “Tem a casa da minha mãe em Campina Grande, mas já me acostumei com as ruas e não consigo mais viver debaixo de regras. Já passei por duas casas de apoio a moradores de rua aqui em João Pessoa e uma em Santa Rita. Tentei tratamento para recuperação de viciados, mas sempre que saía das internações voltava a usar”, contou.

Apesar do relato, Márcio disse que gostaria de receber uma nova oportunidade de se tratar. Ele tem um ferimento inflamado em um dos pés, que disse ter ferido ao pisar em um prego.

 

 

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