segunda, 23 de novembro de 2020

Cidades
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Da brincadeira ao estupro: calouras desfilaram com placa que faz apologia a violência

Bruna Vieira / 19 de julho de 2016
Foto: Assuero Lima
Na última quarta-feira, uma caloura da Universidade Federal da Paraíba foi obrigada a desfilar com uma placa que faz apologia ao estupro, durante um evento cultural. Um ato de violência sexual, que não se resume ao ataque físico. Obrigar outra pessoa a utilizar de qualquer modo a sexualidade com qualquer intenção e assédio também se enquadram nesse grupo. Não é uma questão de escolaridade, pois perpassa os muros das instituições acadêmicas. Uma pesquisa que pretende mapear os casos dentro da instituição será lançada na próxima semana, através de uma plataforma on-line que receberá denúncias anônimas.

As festas na UFPB sofreram várias restrições após o Ato Normativo arregimentado pela reitora Margareth Diniz há pouco mais de um mês. Ficaram proibidas as festas com cobrança de ingresso, uso ou venda de bebida alcoólica e que ultrapassem o horário de funcionamento da instituição (22h). Isso não acabou com os problemas, mas, está reduzindo, conforme, o prefeito universitário substituto, Francisco Pereira. “Os problemas que vieram a gerar o ato estão diminuindo. Eram várias ocorrências, desde a sujeira que ficava no local, o horário, fora a violência entre alunos e desacato à segurança. Não era incomum ter registro de vandalismo, quebra de portas e placas de formatura. Alguns eventos deixaram de ser feitos”, informou.

Sindicância. Em relação ao caso da jovem no Centro de Comunicação, Turismo e Artes (CCTA), Francisco afirmou que uma sindicância está sendo aberta e a UFPB está apurando o caso. “Nesse caso específico, havia uma exposição de artes (mini galeria). Houve a ocorrência, mas, a pessoa que sofreu a violência não acionou a segurança, nem procurou nossos órgãos. No dia seguinte, o Diretório Acadêmico foi quem procurou a UFPB e fez abertura do registro na segurança, na direção do centro e a prefeitura foi notificada, com base no relato da garota. A gente entende, que a pessoa não quer se expor, mas, para as medidas penais, quem sofreu a violência tem que prestar queixa à Polícia Civil, pois é crime contra a pessoa. Nós só abrimos boletim de ocorrência se for dano ao patrimônio. À universidade cabe as medidas administrativas (se for alguém vinculado), que vão desde advertência, censura e até desligamento, tanto para professores, como estudantes”, explicou.

Violência silenciada. Segundo Margarete Almeida, coordenador do Grupo de Estudo e Pesquisa em Gênero e Mídia (GEM), a placa com a frase “Miss Estupra” e desenhos fálicos era colocada no pescoço das alunas novatas, que deveriam desfilar. Apenas uma delas denunciou. “Medo da violência simbólica e física. A mulher também faz parte da cultura machista, a gente é tão oprimida e tem medo de dizer não que se submete a esse tipo de situação. Pela banalização da violência, medo de retaliação e do sistema simbólico, de não pertencer a esse lugar. Ora são feras que estão chegando, é o ritual de passagem, pra ser aceito tem que seguir as regras”, contou.

Margarete revelou que as formas de violência relatadas na UFPB são assustadoras. “O que a gente pode ver é que, em menos de uma semana, tivemos dois casos noticiados no inicio das aulas. Uma menina de Relações Públicas estava esperando transporte no primeiro dia de aula e foi agarrada à força e ainda sofreu ameaça, o cara dizendo que ia pegá-la. Depois teve o caso do trote, que não identificamos ainda em qual curso das engenharias. As pessoas não denunciam, por medo de represália ou de serem culpadas”, declarou.

Para a professora de Jornalismo, é preciso mudar a cultura e melhorar a estrutura. “Não tem segurança, quem faz não tem tratamento humanizado, é escuridão à noite. São vários níveis de violência. A universidade não deixa de ser o reflexo da nossa sociedade. Mas, se espera que seja um lugar de esclarecimento e de empoderamento. Porém, há um crescente movimento retrógrado. Assédio moral, a mulher é desvalorizada, não é chamada para grupo, não assina artigo”, ressaltou.

Um grito por elas. O projeto 'Um grito por elas: mulheres da UFPB contra a violência' será lançado no próximo dia 27. Trata-se de uma plataforma on line em que estudantes, professoras ou funcionárias poderão fazer denúncia anônima de violência sofrida em qualquer campus, através do site www.gemufpb.com.br/umgritoporelas. As vítimas de violência também receberão assessoria jurídica da OAB, caso queiram seguir judicialmente com processo. “Ela só precisa colocar a idade e o centro ao qual está vinculada. A pesquisa vai durar até dezembro e pode ser renovada. A ideia é ter um mapa da violência contra a mulher na universidade. Não é só dar depoimento, é debater e ver que tipos de violência existem: moral, psicológica, simbólica, física, que se tornam naturalizadas pela cultura. As meninas são assediadas porque estão de short curto, dão mole, estão em trote, porque bebeu... Acontece sempre, só que não é falado”, afirmou a coordenadora Margarete Almeida.

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