sexta, 27 de novembro de 2020

Cidades
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Sem saneamento e com infestação de mosquito que mata

Bruna Vieira / 31 de julho de 2016
Foto: Rafael Passos
A relação entre o saneamento básico e a saúde da população não é novidade, mas, a preocupação dos especialistas não se limita mais às doenças de transmissão fecal ou veiculação hídrica. Segundo o IBGE, as doenças transmitidas por inseto vetor foram a segunda maior causa de internações por doenças relacionadas ao saneamento inadequado no ano passado. Pesquisas recentes revelaram que o Culex (muriçoca) também é capaz de transmitir dengue e zika, o que piora a situação, pois elas estão por toda parte, principalmente onde o saneamento é precário ou inexistente. Com isso, uma geração de crianças pode estar condenada a não ter desenvolvimento normal, por complicações de doenças que antes eram exclusivas do Aedes.

Hoje você vai conhecer os problemas dessa falta de saneamento na Paraíba e, amanhã, o Correio traz a continuação dessa reportagem contando a história de pessoas que vivem essa realidade e sabem como é estar diariamente convivendo com a falta de saneamento e as doenças provocadas por este descaso.

Se o país estivesse preparado com saneamento em todos os locais, os estragos causados pelas epidemias seriam bem menores, de acordo com o presidente do Instituto Trata Brasil. Prevenir sai mais barato. A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que para cada R$ 1 investido em saneamento, economiza-se R$ 4 em sistemas de saúde. Um dos 17 objetivos da Agenda 2030 da ONU é garantir que a água potável, saneamento e higiene chegue a todos em 15 anos. No Brasil, o prazo se estende por mais três anos.

O último Censo apontou que 184 municípios paraibanos não possuíam banheiro nem na metade dos seus domicílios. O desafio para os gestores é que essa realidade mude em 18 anos. O Plano Nacional de Saneamento Básico, iniciado em 2014 se estende até 2033. Segundo o presidente do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos, dificilmente se conseguirá atingir essa meta.

“Nesse ritmo não passa nem perto da meta. Os avanços continuam sendo onde os serviços são melhores. Apenas três estados detêm quase 50% dos investimentos: São Paulo, Minas Gerais e Paraná. o nível de investimento da Paraíba tem sido pequeno, se comparado com outros estados do Nordeste. Foram R$ 309 milhões entre 2012 e 2014. Ceará investiu R$ 681 milhões, Bahia e Pernambuco investiram R$ 1,9 bilhões cada”, destacou.

Édison informou que a água potável é o que mais avançou. As cidades menores têm mais dificuldade. “De forma geral está muito atrasado, precisa acelerar muito se quiser atingir a meta em 20 anos. Nas décadas de 1980 e 1990 não houve investimentos no Brasil. A zona rural é totalmente esquecida, avança muito mais lentamente do que na área urbana. E muitos mananciais saem de lá e já chegam na cidade poluídos. A Paraíba só tem 33% de coleta de esgoto e 91% de casas com água tratada, com dados do Sistema Nacional de Informações sobre o Saneamento (SNIS). É um desafio grande, precisa melhorar bastante. Saneamento é investir em prevenção. Reduziria bem as epidemias que temos hoje. Se tivesse água na torneira, não precisava armazenar. Se o esgoto fosse tratado, não jogava na rua. Se tivesse drenagem, não acumularia água da chuva. Se tivesse destinação adequada não haveria lixão”, elencou.

“A Fiocruz consolidou pesquisa que indica que o pernilongo também pode transmitir as doenças do Aedes. O mosquito se aproveita da água limpa e do esgoto para botar ovos. Isso é mais um motivo de preocupação. Além da perda material, é uma perda no futuro do país, não é só nesse momento. Você pode condenar toda uma geração, isso é muito grave. Crianças que aprendem menos na escola, crescem menos capacitadas” – Édison Carlos, presidente do ITB.



Arboviroses

As descobertas da Fiocruz apontam que novas medidas devem ser aplicadas para o controle da muriçoca. O diretor do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães (Fiocruz Pernambuco), Sinval Pinto Brandão, reafirma a relação das arboviroses com o saneamento.

“Estão direta e indiretamente associadas às condições inadequadas ou precárias de saneamento básico. Nosso grupo de Pesquisa em Entomologia médica, liderado pela colega Constância Ayres, comprovou que o Culex também transmite o vírus zika, tanto através de infecção experimental, como pelo encontro da infecção natural pelo vírus em espécimes coletadas no campo em áreas de Recife onde foram registrados casos comprovados de Zika. Não temos nenhuma evidência indicativa no momento em relação à transmissão de chikungunha pela muriçoca. A dimensão do controle passa ser bem mais complexa, pois as medidas adotadas para o Aedes aegypti devem ser mantidas e também ampliadas e redirecionadas para o controle de Culex, que ao contrário do Aedes, prefere a água suja, ou seja, mais do que nunca se impõe a implementação imediata da ações de saneamento básico nas várias regiões do Pais”, declarou o pesquisador em saúde pública.

Para Sinval Brandão, que também é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, se o país tivesse se preparado com saneamento, as epidemias de dengue, chikungunya, zika e suas complicações (dentre elas a microcefalia) seriam muito minimizadas.

“Sempre investir em saneamento reduz sobremaneira muito dos custos caros de tratar as doenças, a estimativa de custos da OMS é válida e ainda atual. Esta é uma dívida do poder público e da nação com o seu povo, que deve ser imediatamente resolvida, é a prioridade das prioridades. Diretamente, várias doenças transmissíveis infecciosas estão relacionadas à precariedade do saneamento, seja pela água que não é tratada adequadamente, seja pelo despejo de esgotos no entorno de domicílios. Por outro lado, no caso das arboviroses, devido à falta de oferta de água a população a armazena de forma precária e improvisada  em recipientes sem tampa, o que favorece de imediato a proliferação de criadouros para o Aedes aegypti, por exemplo, e do Culex quinquefaciatus, a famosa muriçoca, que prefere a água suja”, explicou.

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Tem que manter

O presidente da Companhia de Água e Esgoto da Paraíba (Cagepa), Marcos Vinícius Neves, lembrou que não basta fazer as obras de saneamento é preciso mantê-las e os custos são altos. “Saneamento deixou de ser só esgoto. Tem a dimensão do abastecimento, drenagem pluvial e resíduos sólidos. A Cagepa atua na zona urbana de 198 municípios. Nenhuma área irregular fica de fora. Atendemos São José, São Rafael, Tito Silva, por exemplo. A universalização é para todos. A zona rural é atendida por programas isolados. A água avançou mais rápido. Em João Pessoa é quase 100% e o esgoto é 72,3%. A maior cobertura das cidades está em Campina Grande, com 87,6% de esgoto”, explicou.

“Em 1920 quando Saturnino de Brito começou a fazer projetos na capital, praticamente toda a cidade tinha saneamento. A cidade foi crescendo e o poder público não teve a capacidade de acompanhar essa demanda. Uma solução individual (fossa, sumidouro) atendia aquela demanda e era autorizado. Já a água tinha que ser trazida via tubulação. Por isso houve avanço bem maior de água do que de esgotamento sanitário. Hoje, aquela fossa individual tem que dar lugar a uma série de apartamentos, causando poluição do solo. Em 1970 avançou. Em 1986 houve uma parada de investimento. Em 2003 retomou. Em 2006 mais ainda com o PAC. A Lei só foi criada em 2007 e só regulamentada em 2010”, contextualizou Marcos Vinícius.

O presidente explicou que em cidades pequenas a fossa é eficiente. Os municípios com mais problemas são maiores, como Patos. Ele disse que não é possível precisar quanto será investido, pois as obras esbarram na burocracia e dificuldade de captação de recursos. E também não sabe se a Paraíba conseguirá atingir a meta federal. Marcos Vinícius citou algumas obras.

“Em Patos, que terá mais duas mil ligações não atingirá nem 12% da cobertura de esgoto. Temos um projeto aprovado de R$ 169 milhões para deixar 100% da zona urbana pronto. Cabedelo também, aguarda R$ 38 milhões da União. Bayeux são R$ 37 milhões. Há também universalização de Conde e praia que a gente está terminando com R$ 19 milhões. Jandaia e Cacimba de Dentro estamos investindo R$ 10 milhões. Em Santa Rita, são R$ 190 milhões aguardando liberação de recursos”, enumerou.

Cagepa na Paraíba

1.184.000 ligações de água

400 mil ligações de esgoto

R$ 1 bilhão está sendo aplicado desde 2011 pela Cagepa.

Saneamento é saúde

Para a médica Joana D’Arc Morais, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia, o saneamento poderia melhorar consideravelmente a saúde da população, em especial dos mais pobres, mais atingidos pela falta dele. Porém, não acabaria com as doenças. Conforme vacinas sejam criadas, outras doenças vão aparecendo.

“O saneamento não acabaria completamente com as doenças, porque há outras questões como a urbanização e ocupação desordenada. As vacinas vão sendo criadas e outras doenças vão aparecendo, é a adaptação dos agentes transmissores, evolução biológica. Mas, certamente com o saneamento reduziria, melhoraria bastante. É de importância vital, pois, diminuiria muito a hospitalização e os custos com saúde. E os pobres são quem sofrem mais”, afirmou.

Para a infectologista, o entrave para a execução do saneamento são questões políticas. “O Brasil não tem tratado a questão como deveria. A Paraíba evoluiu bastante, mas, a gente sabe que tem áreas que ainda não tem. A própria questão do acesso à água torna difícil o saneamento. Os governos sabem que é mais barato investir em prevenção, mas, obras de saneamento não dão voto, não aparecem. São questões políticas, para eles é melhor investir em obras visíveis, como praças. É preciso que haja maior cobrança social, tanto das entidades médicas, quanto da sociedade civil”, ressaltou.

Internações relacionadas ao Saneamento (por 100 mil habitantes):

200,6 por transmissão feco-oral

24,3 por inseto vetor

0,3 transmitidas através do contato com a água

0,1 relacionadas com a higiene

0,4 geo-helmintos e teníases

*Fonte: Indicadores de Desenvolvimento Sustentável 2016 IBGE

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Muriçoca e zika

No último dia 21, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), anunciou o estudo inédito que mostra que o mosquito Culex quinquefasciatus (muriçoca ou pernilongo doméstico) é um potencial transmissor do zika vírus. Anteriormente, a pesquisadora Constância Ayres já havia apresentado pesquisa que revelava que o mosquito também poderia transmitir a dengue. Foram analisados 80 grupos de mosquitos pela Fiocruz Pernambuco, na Região Metropolitana de Recife, onde a população da muriçoca é 20 vezes maior que a do Aedes e pelo menos três amostras estavam infectadas. Em duas delas, os mosquitos não haviam se alimentado, o que indica que o vírus estava no organismo e não em um alimento recente de um hospedeiro infectado.

Joana D’Arc destaca que as pesquisas são relevantes, no entanto, ainda é cedo para tal afirmação. “É uma pesquisa muito importante. Há algumas coisas que nos fazem pensar nessa possibilidade de transmissão, mas, de qualquer forma, isso ainda é muito preliminar, em fase de suspeição. É muito cedo para fazer afirmações. Do ponto de vista de doenças infecciosas, a falta de saneamento afeta bastante a saúde, desde doenças diarréicas agudas (muito mais prevalente onde não tem saneamento) e causa importante de mortes em crianças menores de um ano, até a proliferação de mosquitos. O acúmulo de água e falta de esgoto encanado de forma geral favorece a transmissão. Na nossa região a leptospirose é mais frequente, além de hepatites virais, doenças de pele e dermatites”, enumerou a médica.

Culex em João Pessoa

Segundo o Levantamento de Índice Rápido de Infestação por Aedes aegypti (Liraa), o Índice de Infestação Predial (IIP) está em 0,8%, o que representa que a cada 100 imóveis apenas 0,8 apresentaram risco de reprodução do mosquito. Foram inspecionados mais de 13 mil imóveis, em 29 regiões. Foram identificados 0,1% da espécie Aedes albopictus, que segundo a literatura pode transmitir a Chikungunya, e 0,8% Aedes aegypti, transmissor da dengue, zika vírus e Chikungunya.

Infestação:

Aedes: Varadouro, Ilha do Bispo, Jardim Planalto, Bairro das Indústrias, Oitizeiro e Cruz das Armas (Oeste).

Muriçoca: Miramar, Treze de Maio, São José, Manaíra, Bessa (próximos ao Rio Jaguaribe)

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