quarta, 18 de setembro de 2019
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Beleza só para turista ver: cidades organizadas somente nos cartões-postais

Katiana Ramos / 26 de junho de 2016
Foto: Rafael Passos
 

A beleza das praias do Litoral paraibano, que atrai turistas brasileiros e de outros países, contrasta-se com ruas e estradas esburacadas, lixo espalhado em terrenos baldios e atendimentos de saúde precários. Dos 45 municípios que integram o Mapa Turístico da Paraíba 2016, nove estão no Litoral  e somam 39,32% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado, mas as imagens de cidades organizadas estão somente nos cartões-postais. Moradores reclamam que as riquezas produzidas nos municípios, a partir das atividades econômicas exploradas, não são aplicadas em infraestrutura básica e não refletem as condições de vida da população.

Projetos que proporcionem qualidade de vida aos moradores e também dos turistas. Este é o ponto de vista do arquiteto e urbanista, professor universitário e integrante da Secretaria Nacional da Habitação do Ministério das Cidades, Édson Leite. Ele aponta como um dos principais erros no processo de urbanização das cidades litorâneas a elaboração de projetos voltados somente para os visitantes. Um equívoco capaz de gerar impactos sociais, ambientais e econômicos.

"Projetos que valorizem a eficiência, o caráter multifinalitário, a inclusão social e a universalidade do uso e do acesso são os que mais chances de sucesso teriam na meta de proporcionar qualidade de vida à população residente e aos turistas. O urbanismo deve ter como meta a melhoria da qualidade de vida para seus habitantes, incluindo também seus visitantes". Édson Leite, arquiteto e urbanista



O professor destacou ainda que na elaboração de projetos de urbanização e de iniciativas voltadas para o desenvolvimento econômico através do turismo, como a construção de hotéis e restaurantes, é preciso o cuidado com o meio ambiente e também com a participação ativa da população, como as oportunidades de emprego e renda.

Para isso, ele destaca a adequação fisiográfica, bioclimática e paisagística natural, o tratamento adequado dos resíduos e efluentes, a gestão adequada da água no meio urbano. Além disso, deve-se priorizar nos sistemas de circulação os modos não motorizados e coletivos, além da boa sinalização e arborização das vias urbanas.

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57 é o total de praias na Paraíba

140 quilômetros é a extensão do Litoral paraibano

PIB dos municípios com praias

Cabedelo - R$2.078.719 bilhões

Conde - R$550.884 milhões

João Pessoa - R$14.841.805 bilhões

Pitimbu - R$128.954 milhões

Baía da Traição - R$59.150 milhões

Lucena - R$134.669 milhões

Marcação - R$60.773 milhões

Mataraca - R$169.699 milhões

Rio Tinto - R$194.550 milhões

PIB total da PB: R$46.325.355 bilhões / Total dos nove municípios: R$18.219.003 bilhões

6 meses para exame no Conde

No município do Conde, Litoral Sul do Estado, onde o PIB somou R$ 550.884 milhões, conforme o último dado divulgado pelo Instituto de Desenvolvimento Municipal e Estadual da Paraíba (Ideme), a população convive com ruas e estradas esburacadas e falta de serviços básicos de saúde e coleta de lixo. A comerciante Lúcia Pereira é um exemplo desse descaso. Há seis meses ela espera pela realização de um exame ginecológico. "A médica não vem todos os dias da semana e, quando vem, trabalha das 10h às 12h. Nem um exame básico de sangue a gente consegue fazer nesse posto e também não tem remédio", desabafou a comerciante que mora próximo a Unidade Básica de Saúde Jacumã II.

A precariedade na saúde pública do município está no discurso dos moradores e nas paredes mal acabadas de uma estrutura que seria, segundo eles, uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). A construção, situada na rua Professora Maria Amélia, em Jacumã, começou em 2014, mas nunca foi concluída. "Quando começaram a construir, o pessoal trabalhou uns três meses, depois parou. Está assim faz dois anos", relatou o pedreiro Glauco Monteiro.

A dona de casa Luciana Sena mora próximo ao posto de saúde e à construção abandonada. Além dos problemas na unidade de saúde, ela reclama ainda do funcionamento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). "Nem o posto médico, nem o Samu funcionam a noite. Se a gente precisar de uma urgência, tem que ir na Clínica da prefeitura, no Conde, ou então para João Pessoa", acrescentou.

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Crescimento do PIB do Conde

2010 - R$ 319.588 milhões / 2011 - R$396.006 / 2012 R$ 430.152 / 2013 - R$550.884

Acessos precários. Para quem visita o Litoral Sul do Estado, ao longo do percurso rumo às praias paradisíacas do Conde e às demais cidades da região, os condutores dos veículos enfrentam um verdadeiro rali para chegar aos pontos turísticos.

Os buracos estão presentes desde a avenida principal até os locais mais isolados, como os acessos às praias de Carapibus, Coqueirinho e Tabatinga. Cansados de esperar pelo poder público para melhorar as condições de acesso à praia de Carapibus, os integrantes da Associação dos Moradores e Amigos de Carapibús (Amac), arcaram com o aterro de pelo menos três ruas próximas ao local, compraram lâmpadas para iluminação dos postes e ainda fizeram duas rampas de acesso à praia.

Ao invés de serem ressarcidos por arcar com gastos que seriam de responsabilidade da prefeitura, os moradores de Jacumã foram surpreendidos com o aumento do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). "Houve casos que esse aumento chegou a 1000%. Alguns moradores entraram na Justiça, outros não pagaram o imposto", disse o presidente da Amac, Alex Maia.

"Do ano passado para este, nós gastamos cerca de R$10 mil para melhorar esses acessos até a praia de Carapibus. Se fôssemos esperar, estaria pior a situação. Tenho casa aqui há 25 anos e nunca vi tanto descaso". Sérgio Barbosa, engenheiro, integrante da Amac.



Outros problemas. Além das ruas mal conservadas, outro problema existentes nas ruas e estradas que ligam Jacumã ao Conde é a falta de sinalização e acostamento. Enquanto os condutores de veículos sofrem com o risco de acidentes, sobretudo no período noturno, aos pedestres só resta andar na via, já que o espaço reservado a eles não existe.

"Por conta dos buracos nas ruas de acesso à praia, o turismo praticamente acabou. E quem mora aqui corre o risco de ser atropelado quando anda na pista. Eu mesma já passei por isso", disse a comerciante Maria das Graças Silva.

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Falta de infraestrutura afasta turista

Após quase oito horas sob sol forte, o garçom Raimundo de Souza não conseguiu um cliente sequer para experimentar um dos pratos oferecidos no cardápio do bar onde trabalha, em Jacumã. Ele conta que, desde o fim do período carnavalesco, a situação é essa. Para Raimundo Souza, as estradas e vias mal sinalizadas e desgastadas que impedem a mobilidade dos moradores também afastam quem vem de fora a procura de lazer no distrito.

"Primeiro, para chegar até aqui o turista passa por dificuldades no acesso por conta dos buracos. Depois, quando ele chega, se depara com essa desorganização, quando o lixo não é recolhido. Quer dizer, é um descaso", reclamou o garçom.

Se faltam clientes para o garçom, o emprego dele e a sobrevivência dos estabelecimentos também estão em risco. Devido a ausência de consumidores, a maioria dos bares fecha as portas durante a semana e os que arriscam abrir ficam no prejuízo. Para o presidente da Associação dos Proprietários de Bares e Restaurantes de Jacumã, Mário dos Anjos, além de melhorias na infraestrutura, a praia precisa ser melhor divulgada como ponto turístico.

"Falta também divulgar melhor nossa praia, porque o turista passa por Jacumã para ir para Carapibus, Coqueirinho, Tambaba... Só que ele não utiliza nossos serviços". Mário dos Anjos, empresário.



Além dos bares e restaurantes, os pequenos hoteis e pousadas também têm sentido a ausência da clientela. Funcionária de um hotel, Eliane Albuquerque acredita que o aspecto de abandono na cidade afasta novos visitantes e dificilmente atrairá novamente o mesmo turista.

"Quando a gente pesquisa as avaliações nos sites de vendas de pacotes turísticos, o que o pessoal mais reclama é a questão dos buracos nas estradas, falta de iluminação e de sinalização", revelou.

Recursos transferidos do governo federal para o município do Conde

2015

R$39.797.954,07 - Total transferido

R$5.814.552,30 - Recursos destinados à Saúde, sendo R$2.227.147,58 para ações da Atenção Básica

R$634.095 - Recursos destinados ao desenvolvimento urbano. Deste total, R$388.245,00 foram transferidos em apoio a projetos de Infraestrutura Turística

2016*

R$13.195.053,65 - Total transferido

R$678.038,92 - Recursos destinados à Saúde

O que diz a prefeitura

O secretário de obras e urbanismo do Conde, Humberto Ramalho, informou que a prefeitura aguarda a liberação de recursos do governo federal para iniciar novas obras de pavimentação nas ruas de Jacumã. Quanto à obras calçamento de vias que estão paradas, o secretário alegou que o serviço foi interrompido por conta das chuvas ocorridas nos últimos meses no distrito.

"Como o nosso solo é arenoso não adianta começar obras de pavimentação nesse período. Mesmo assim, temos obras em andamento em Coqueirinho e próximo à colônia dos pescadores", disse.

Quanto aos problemas na rede de saúde, a reportagem tentou contato telefônico com o secretário de Saúde do município, Francimar Veloso. Mas as ligações não foram atendidas.

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Problemas da elite à periferia

Localizado em um ponto estratégico para o escoamento da produção de vários setores da economia paraibana e a apenas 17,5 quilômetros de João Pessoa, o município de Cabedelo deveria contar com estradas e ruas bem estruturadas para suportar o tráfego de veículos e, por conta dessa movimentação, a população deveria contar com os serviços básicos. No entanto, o descaso estende-se do bairro mais nobre à periferia.

Em Intermares, localidade com um dos metros quadrados mais caros da Região Metropolitana de João Pessoa, poucas são as ruas pavimentadas. O barro vermelho que vira lama nos períodos de chuva é o mesmo que tinge os muros das casas e condomínios. Enquanto isso, o zelador Douglas Silva trabalha em vão na tentativa de minimizar a entrada da poeira nas residências. "Varro aqui três vezes por dia, mas não tem jeito", disse.

O prédio onde o zelador trabalha está localizado na rua Oceano Índico. Paralelo a este endereço está a rua Oceano Pacífico, em comum, além da poeira, as duas ruas estariam contempladas com obras de drenagem e pavimentação, conforme informa uma placa instalada no trecho. A obra, orçada em R$ 2.309.110,14, deveria ter sido concluída em 2013. "Faz quatro anos que trabalho aqui e sempre foi assim. Quando chove é pior, só vejo reclamação dos moradores e dos turistas", disse o vigilante Luis José Santos.

O mesmo transtorno de Intermares se repete na periferia. No bairro do Jacaré e comunidade do Renascer, a falta de infraestrutura nas ruas é só um dos problemas. No local, os moradores lamentam o descaso com a educação. Exemplo disso é a Escola Municipal Professora Altamira de Alencar Pimentel, que foi interditada em agosto do ano passado por oferecer risco de vida aos alunos e funcionários.

"A prefeitura transferiu os alunos para outra escola, no Centro de Cabedelo, mas lá a estrutura também não é boa e nem todos os dias têm aula. A gente fica com o coração apertado por deixar crianças de 5 e 6 anos sozinhas em um ônibus", desabafou a dona de casa Edicleide da Silva.

Obra do parque está parada

Além de conviver com a poeira e falta de escolas, os moradores do Jacaré, sobretudo os que sobrevivem do turismo, denunciam a paralisação da obra que vai abrigar o Centro de Comercialização de Produtos Artesanais no Parque Municipal Turístico do parque. A placa afixada próximo a obra indica que a conclusão do projeto seria em maio deste ano. Mas, as paredes mal acabadas demonstram que a construção está longe de terminar.

"A União já deu um prazo para a gente sair daqui e esse prazo já foi ampliado, só que com a demora da obra não sabemos se vai dar tempo. Os pequenos artesãos estão prejudicados com isso. A gente vem para cá só abrir as barracas mesmo, porque o turista não entra na feirinha e essa obra inacabada espanta o pessoal", reclamou o comerciante Ernandes da Silva.



A artesã Adriana Viegas também lamentou o descaso e ainda apontou o abandono de estruturas já existentes no Parque do Jacaré. "Temos essa pracinha que está acabada. O turista vêm para cá, mas ficam somente lá nos bares. Os guias não trazem eles para a feirinha", criticou.

Recursos de Cabedelo

R$ 2.078.719 bilhões - 3º Maior PIB da PB

R$ 5.249.096,40 - repasse do governo federal em 2016 destinado à educação

R$ 585.000,00 - verba do Ministério do Turismo para a construção do Centro de Comercialização de Produtos Artesanais do Parque do Jacaré, da qual foi liberado o valor de R$ 292.500,00.

Prefeitura diz que obras continuam

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Quanto à falta de pavimentação nas ruas de Intermares e no Jacaré, a secretária de Infraestrutura de Cabedelo, Érica Gusmão, alegou que em Intermares pelo menos cinco ruas estão passando por obras e que está em conclusão o processo de drenagem e logo após será feita a pavimentação.

Com relação às ruas do Jacaré e Renascer, a secretária informou que ainda não há previsão para calçamento. "Fizemos um orçamento para calçar essas ruas do Jacaré, mas, no momento, a prefeitura não tem condições financeiras para arcar com a obra", disse.

Por sua vez, a secretária de Turismo do município, Jamili Queiroz, rebateu a denúncia dos comerciantes e afirmou que a obra do Centro de Comercialização do Jacaré não está parada. "No mais tardar, em julho, vamos entregar a obra", acrescentou. Já sobre a melhoria na infraestrutura das escolas municipais, a assessoria de comunicação do município alegou que algumas unidades de ensino serão reformadas.

Problemas atrapalham turismo, diz PBTur

Os problemas na infraestrutura denunciados pelos moradores de Jacumã, Carapibus e Cabedelo também preocupam a presidente da Empresa Paraibana de Turismo (PBTur), Ruth Avelino, no que se refere à expansão das atividades turísticas dessas cidades.

Ruth Avelino lembra que a falta de infraestrutura que afeta os municípios turísticos do litoral paraibano são antigos e, na opinião dela, falta iniciativa dos gestores em buscar a soluções desses problemas. "Quem conhece o destino se apaixona e até releva esses problemas, mas falta esse cuidado por parte das prefeituras", disse a presidente da PBTur.

Outra consideração feita pela gestora de turismo é a falta de conscientização de muitos moradores que vivem próximo às praias paraibanas. Para ela, o cuidado com a limpeza da orla deve partir também da população. "Não só as prefeituras, mas o moradores precisam cuidar de suas praias. São necessárias ações dos municípios também nesse sentido de conscientização e educação ambiental", frisou Ruth Avelino.

Outros projetos. João Pessoa - Construção de praças próximo a orla e padronização completa da calçadinha no trecho entre as praias de Tambaú ao Cabo Branco até o final do ano;

Lucena. Elaboração do 'Projeto Orla', conforme solicitado pela União, para a padronização da área de passeio público e comercial. Ainda sem previsão para execução;

 

 

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