sexta, 22 de fevereiro de 2019
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Casais homoafetivos se expõem no Facebook para ter direitos respeitados

Lucilene Meireles / 16 de junho de 2016
Foto: Álbum de família
Um beijo entre um homem e uma mulher é uma forma de carinho, mas o mesmo gesto de um casal homoafetivo é tachado de ‘pouca vergonha’ e achincalhado. O que muita gente não compreende é que, querendo ou não, aceitando ou não, os casais homoafetivos fazem parte da sociedade e têm os mesmos direitos que os héteros. O fotógrafo Ricardo Puppe e o jornalista Theo Borges criaram uma página no Facebook e uma campanha para o Dia dos Namorados, que continua rendendo até hoje, só para dizer: “Nosso amor existe”.

“Na luta contra a homofobia, a campanha usa um mecanismo simples: humanizar. Mostrar que aquela pessoa da foto ou do vídeo é tão gente quanto qualquer um. É humano, tem erros, falhas, sente dor, sofre e quer direitos, não privilégios. Demonstrar afeto em público é um direito que a sociedade garante a todos que nela contribui, e o afeto não pode afetar ninguém”, disse Theo.

Depois do Dia dos Namorados, os casais continuam contando na página suas histórias. Em menos de um mês, foram mais de 2 mil curtidas. “A iniciativa da campanha surgiu depois de vermos a necessidade de contar as histórias que recebíamos através do blog (http://www.nos2.co/). Eram histórias de superação, de dificuldades, muitos jovens sem esperança, sem saber como agir em casa, com a família, muitos relatos de preconceito. Fomos observando que a nossa história se identificava com tantas outras, e que, no final, há sempre esperança na luta por igualdade, e respeito”, declarou Theo Borges.

Para ele, está sendo gratificante ver a recepção das pessoas, héteros e homos. Inclusive, muitos relatos têm sido compartilhados. “A pessoa quer compartilhar porque acredita no amor, acredita que todo ser humano merece ser amado e ser feliz”, disse.

Sofrimento na infância. A homofobia não começa na idade adulta. “A gente sofre desde criança. Em casa, embora exista o amor dos pais, eles têm suas limitações. Quando crescemos, vem a escola e a situação fica mais delicada. Vai piorando. Depois que me assumi, se tornou recorrente e acontece o tempo todo”, relatou o professor João Dias Pacheco, que tem um relacionamento homoafetivo há pouco mais de um ano. Justamente por medo da violência e do preconceito, o companheiro preferiu não se identificar.

Entre as situações que já viveu, ele relatou que descia do ônibus, quando alguém o cuspiu porque estava com uma calça colorida. “Acontece muito. Até nas postagens nas redes sociais. São xingamentos quando estou com meu companheiro. Tem os olhares. Tem gente que se benze. Faz parte do nosso cotidiano e temos que lidar com isso, mas não é fácil. Em alguns casos, rebatemos. Em outros, ignoramos para não despertar a ira”, contou.

Apesar de nunca ter sofrido violência física, as ameaças acontecem, embora fossem mais frequentes na época da escola. Ainda assim, os colegas nunca chegaram às vias de fato. Hoje, o casal sai junto, mas evita carinhos em locais onde sabem que vão chamar a atenção. “Se pagamos os mesmos impostos, temos os mesmos deveres, temos também os mesmos direitos”, lembrou o professor João Dias Pacheco.

Homofobia mata todos os dias 

“Fiz questão de colocar o meu depoimento na página. Quanto mais se dá visibilidade ao amor, mais fortalece o segmento LGBT e se desconstrói a homofobia, que mata todos os dias, seja com arma ou apenas um olhar. A gente fica mal, se sente torturada. Já passei por várias situações e evito agredir ou revidar. A denúncia é o primeiro passo para diminuir o preconceito, mas acredito que não acaba, infelizmente. As pessoas não querem ver casais homoafetivos pegando na mão. Isso é grave, e eu tenho medo. Ainda assim, é importante publicizar o amor. Uma vez chegamos numa loja de roupas e quando fomos ao provador de mãos dadas, a vendedora correu para a outra e disse que éramos sapatões. Fingimos não ter ouvido, mas continuaram cochichando. Perguntei se nunca tinham visto um casal de mulheres. Elas desconversaram, disseram que não era preconceito, mas sentimos a lesbofobia e ficamos tristes com isso. Por dia, temos (Espaço LGBT do Estado , órgão que coordena) pelo menos uma denúncia de homofobia, discriminação, violação de direitos na família, nas instituições onde é velada. A gente traz essa dor todos os dias”.

Segurança

A socióloga Simone Carneiro Maldonado destacou que atitudes como esta contribuem para a que as pessoas vejam esses casais como pessoas comuns que se amam. “Vejo de maneira muito positiva. As redes sociais têm contribuído de várias maneiras e essa é uma delas, que está na crista da onda. Fala-se muito sobre o assunto e acho que divulgar é preciso”.

Em relação à derrubada do preconceito, ela afirmou que ainda é preciso esperar. “Vejo matarem essas pessoas absurdamente. Ao mesmo tempo, está se falando sobre o assunto, o que antes não acontecia e, na época colonial, já foi motivo para pena de morte. Hoje mata-se de outro jeito, mas alguma coisa mudou. Porém, precisa evoluir muito ainda”, completou.

“Não sei se publicizar vai ajudar a melhorar as coisas daqui a dois meses, um ano. Não tem como prever. Mas, acho que tem que sair do armário, e a sociedade tem que ver, respeitar, absorver essas pessoas. De qualquer forma, estão dando um passo positivo”. Simone Maldonado, socióloga.

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