sexta, 18 de agosto de 2017
Campina Grande
Compartilhar:

Um mosquito, muitas sequelas: conheça a história de quem sobreviveu à chikungunya

FERNANDA FIGUEIRÊDO / 19 de março de 2016
Foto: Chico Martins
O pedreiro João Batista do Nascimento, 53 anos, natural de Sumé, no Cariri paraibano, teve alta do Hospital de Emergência e Trauma de Campina Grande na manhã de ontem (18). Foram 33 dias de internação, destes, mais de 10 só na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) após ser diagnosticado com a síndrome de Guillain-barré. A doença evoluiu a partir de um quadro infeccioso de Chikungunya. A família acreditava que João não fosse sobreviver. A unidade hospitalar registrou mais um caso suspeito de Chikungunya esta semana. Dos sete pacientes, três estão em estado grave e pelo menos quatro apresentaram quadro atípico da doença.

João deu entrada no Hospital de Emergência e Trauma no dia 15 de fevereiro. Ele já havia passado uma semana em casa, sendo acompanhado por uma equipe hospitalar na cidade de Sumé com suspeita de chikungunya. Chegou em Campina Grande apresentando sintomas como fraqueza muscular nos membros inferiores e superiores que evoluiu para dificuldade respiratória.

“Veja uma foto de como eu era antes e olhe como estou agora, depois da doença. Eu quase morri”, disse João, segurando a cânula traqueal implantada em seu pescoço. O pedreiro recebeu alta, mas ainda não anda, fala com dificuldade, se alimenta por uma sonda e deve passar por sessões de fisioterapia e fonoaudiologia para ajudar na recuperação do seu quadro.

A família suspeita que João tenha contraído a doença em viagem que fez a São José do Egito, no Pernambuco. Além dele, a mãe, a esposa, um irmão e um filho tiveram sintomas semelhantes aos das doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegipty. “Ele mora em Sumé, mas havia ido visitar a mãe em São José do Egito. Lá quase todo mundo já ficou doente, só não esperávamos que isso pudesse matar”, disse Marina Nascimento de Souza, irmã de João Batista.

“É um milagre ele estar vivo. Meu irmão nasceu de novo e de agora em diante tudo vai mudar. Vamos levar um laudo do estado dele para o INSS para ver se conseguimos auxílio doença ou outro benefício, já que agora ele não pode mais trabalhar por conta das limitações conseqüentes da síndrome de Guillain-barré. Todos da família ainda estamos assustados”. Marina Nascimento de Souza, irmã de João Batista, que teve complicações em decorrência da chikungunya.

De acordo com a médica infectologista Priscilla Sá, a chikungunya clássica não deveria acometer o sistema nervoso central. No entanto, dos casos observados no Hospital de Trauma, em muitos tem se constatado esse problema. “O acometimento de outros sistemas ainda está sendo investigado e estudado, porque é uma coisa nova. Além disso, os pacientes que estiveram aqui, inclusive os três que vieram a óbito, apresentavam alterações laboratoriais diferentes”, ressaltou Priscilla.

Este ano, segundo o último boletim da Secretaria Estadual de Saúde, até o dia 9 de março foram notificados na Paraíba 11.657 casos suspeitos de dengue, 81 casos como suspeitos de zika e 107 casos suspeitos de Chikungunya. De acordo com Renata Nóbrega, chefe da Vigilância no Estado, dos 107 casos de chikungunya, apenas 13 foram confirmados laboratorialmente, mas nessa conta ainda não entra os óbitos ocorridos em Campina Grande.

Morte no Trauma

Um dos pacientes com chikungunya que veio a óbito no Hospital de Trauma apresentava suspeita de miosite, síndrome neurológica caracterizada por inflamação nos músculos e que causa fraqueza muscular. De acordo com a infectologista Priscilla Sá, o surgimento de novas doenças relacionadas à chikungunya preocupa os médicos da região.

“Não conseguimos provar a doença porque faltou esse paciente fazer um exame. Mas estamos preocupados, porque são sintomas muito distintos que causam comprometimento articular, muscular e neurológico. A respiração desses pacientes fica prejudicada porque o músculo diafragma fica comprometido, não é um problema no sistema respiratório em si”, explicou a médica.

Priscilla informou que já está se reunindo com pesquisadores de universidades paraibanas com o intuito de iniciar um estudo acerca dos novos quadros clínicos que têm sido registrados em pacientes portadores de chikungunya.

Relacionadas