segunda, 23 de novembro de 2020

Campina Grande
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Os superpais: o diagnóstico de microcefalia foi um baque, mas eles decidiram lutar juntos

Renata Fabrício / 26 de fevereiro de 2016
Foto: Antônio Ronaldo
A felicidade estampada no rosto é o cartão de visita da família de Alessandra Amorim, 34 anos, faxineira, e Alexandre Santiago, 38, servente de pedreiro.

Eles são os pais do pequeno Samuel de apenas 2 meses. O Casal e seus cinco filhos moram em uma casa pequena, no bairro do Pedregal, em Campina Grande. Samuel é o caçula e o único menino entre as quatro irmãs: Valéria, Vanessa, Vitória e Vivian. Aos cinco meses de gestação, veio a suspeita de uma alteração no cérebro e, aos sete, foi confirmada a microcefalia.

No cenário marcado por histórias de mulheres que abortam com medo da possibilidade de ter um bebê com a malformação ou que são abandonadas por seus companheiros por gerarem crianças ‘imperfeitas’, Alessandra e Samuel podem ser considerados superpais.

O quadro era novidade para eles. “Minha vida era chorar. Não queria ver televisão nem nada, e foi ele (o marido) que me deu força. Teve uma coisa que ele me disse, que não esqueço mais nunca: ‘Sandra, o nosso sonho não era ter um menino? Deus realizou esse sonho. Vamos aceita-lo do jeito que Deus quis’. Foi isso que me fortaleceu. Ele foi bem planejado. Eu parei os comprimidos, e pensei: agora tem que vir um homem de todo jeito, porque depois eu vou ligar. E Deus me deu meu sonho”, conta.

Paizão. Alexandre é meio tímido e é a mulher quem o descreve. “Ele não é só um pai, ele é um paizão”, diz. Todos os dias, ele sai às 6h20 para trabalhar na construção e o dia só termina às 17h, quando volta pra casa. “À noite Samuel aperreia muito. Ele desperta e quer ficar no braço. Então o pai se levanta e vai ficar com ele, até o menino dormir. Ele fica a noite toda se puder, mesmo tendo que trabalhar no outro dia, morto de sono. De vez em quando ele amanhece o dia acordado. A noite toda, e o final de semana é dele, enquanto eu fico dormindo”, diz Alessandra.

O amor de pai sempre foi uma característica forte de Alexandre, e às vezes causa espanto em outras mulheres. “O primeiro banho em Samuel quem deu fui eu, na maternidade. As mulheres que estavam com ela ficaram todas doidas. Mas eu sempre dei banho nos meus filhos, em todas, porque ela tinha medo”, lembra Alexandre, sorrindo, com Samuel nos braços.

Duas vezes por semana, Alessandra leva o filho para o acompanhamento no Hospital Pedro I. Como Alexandre não pode participar, porque está trabalhando, a esposa grava toda a fisioterapia do menino para mostrar ao pai, quando chega em casa. “Toda vez que eu vou tem que gravar que é pra ele ver como foi. A sessão de hoje já está ali gravada. Quando eu estou lá ele fica me ligando, querendo saber se já começou e o que a médica já disse. Ele não espera que eu chegue em casa para saber. Isso é muito importante para a mãe. Acho que se não fosse ele, não ficaria tão segura”, admite.

Casamento na infância. Alexandre tinha 13 anos e Alessandra tinha 11 quando se juntaram. Já são 25 anos de casados, o que os faz lembrar que já viveram mais tempo juntos do que sozinhos. “Acho que só a morte para separar nós dois”, diz ela.

 

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