sábado, 19 de junho de 2021

Cidades
Compartilhar:

Botão do pânico não é garantia para mulher vítima de violência doméstica

Lucilene Meireles / 09 de março de 2016
Foto: Nalva Figueiredo
Hoje, existem 9.980 processos tramitando na Vara de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da Capital. São 2.543 ações ativas, em Campina Grande.

“Estou desesperada. Ele vai me matar. Ele tem me ameaçado, mandado mensagens e disse que tem pessoas me seguindo. Quero uma garantia, porque não sei se vou escapar da próxima tentativa. Esta pode ser a última entrevista que estou dando”. A afirmação é de Josileide Marques, vítima de violência doméstica. Apesar de contar com o SOS Mulher, do Governo do Estado, ela denunciou que não teve a ajuda quando acionou o aplicativo. No mês passado, ela teve a casa invadida pelo ex-marido, foi espancada por ele e teve a clavícula quebrada.

O relato foi feito ontem, Dia Internacional da Mulher, que contou com várias ações no Estado. Josileide Marques pediu para ter a identidade revelada como uma tentativa de chamar a atenção das autoridades para o seu caso. Ela é uma das 150 mulheres no Estado que teriam acesso direto à Polícia Militar através do ‘botão do pânico’, das quais 100 em João Pessoa e 50 em Campina Grande.

“Quando acionei a polícia, não tinha viatura, porque os policiais estavam jantando e não puderam me ajudar. Sempre fui muito bem atendida, mas desta vez não funcionou. Não posso mais dizer que o celular vai me salvar 24h por dia”. Um vizinho, que ouviu os gritos da dona de casa, chamou um policial que fazia rondas no bairro. Ele a levou até a delegacia, onde foi feito o boletim de ocorrência. Ela mudou de residência novamente.

A delegada da Mulher, Maísa Félix, informou que não estava a par da ocorrência e prometeu investigar para saber o que, de fato, aconteceu. Ela ressaltou que os aparelhos são distribuídos para mulheres que tenham sofrido ameaças, registrado várias ocorrências, estejam sob medida protetiva e em situação de risco.

Ontem, durante evento do Governo do Estado alusivo à data, realizado na Central de Polícia de João Pessoa, foi anunciada a criação 12ª Delegacia da Mulher, em Picuí.

Despreparado. Josileide relatou ainda que participou do mutirão de audiências da Justiça, no Fórum de Mangabeira, esta semana, e a juíza que lhe atendeu parabenizou o ex-marido dela por ter comparecido. “Ela chegou a sugerir a nossa reconciliação, sem nem saber tudo que já passei”, reclamou.

Na Vara de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da Capital, conforme a juíza titular Rita de Cássia Andrade, que coordena o mutirão de audiências, nunca houve nenhum juiz que incentivasse uma vítima de violência a desistir do processo. Ela disse que a reclamação da vítima será investigada, mas ressaltou que esta não é uma prática da Justiça.

“Quero saber quem foi a pessoa, dentro do mutirão, que fez a proposta, porque não recomendamos impor nada à vítima. Ela está em situação de vulnerabilidade, sem condições de desistir de nada. Pode estar sob pressão do agressor. Ela não está obrigada a desistir e não apoiamos essa postura”, declarou.

Denúncia evita o pior

Segundo o Juizado de Violência Doméstica e a Delegacia da Mulher em Campina Grande, a maioria das denúncias registradas são de lesões corporais e ameaças. A delegada Herta França avalia que as estatísticas demonstram que as mulheres estão denunciando mais, o que tem reduzido o número de feminicídios, assassinatos de mulheres por sua condição.

No Hospital de Emergência e Trauma de Campina Grande não faltam casos de mulheres vítimas de violência. A agricultora Severina Pereira da Silva, 40 anos, está internada porque teve a orelha decepada no último domingo no município de Alagoa Grande, Brejo paraibano. O acusado é o homem com quem ela foi casada por 23 anos e está separada há 4 meses. Ele não aceita o fim do relacionamento e por ciúmes cometeu a violência.

Na última segunda-feira morreu na unidade a jovem Jessikaline Barbosa, 24 anos. Ela foi encontrada dentro do seu carro, na Rua Manoel Martins, no Bairro Bodocongó III, com dois tiros na cabeça. Inicialmente a polícia trabalhou com as hipóteses de latrocínio e crime passional, mas, para a delegada Tatiana Barros, Jessika pode ter sido vítima de ‘queima de arquivo’.

“Não podemos descartar nada. Mas ela ia ser testemunha num processo de crime de tráfico de drogas na Justiça Federal. Passou dois dias internada na UTI do Hospital de Trauma, mas não resistiu.

 

Relacionadas