domingo, 19 de maio de 2019
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Areia da praia de JP vira moradia de vendedores de artesanato

Ainoã Geminiano / 25 de janeiro de 2019
Foto: Rizemberg Felipe
Quem passeia pela orla de João Pessoa se depara facilmente com expositores de peças de artesanato, que vão desde pulseiras, colares, brincos, até objetos maiores como quadros e utensílios de decoração. Em alguns locais, esse cenário se completa com uma barraquinha de campo instalada na faixa de areia, em baixo de árvores, que servem de moradia para alguns desses artesãos. A ocupação com barracas, no entanto, tem dividido opiniões e já foi alvo de várias ações de órgãos da Prefeitura, com demolição dos acampamentos e apreensão de mercadorias. Os artesãos reclamam de perseguição e insistem que não causam danos à orla.

Na praia de Tambaú, por exemplo, existem três tipos de ambulantes, que se intitulam “artesãos nômades”: os que moram em João Pessoa, os viajantes que passam longas temporadas na Capital e os viajantes de apenas alguns dias. Alguns destes últimos são considerados problema até mesmo pelos próprios artesãos, que os acusam de não ter compromisso com a localidade e praticarem atos de vandalismo.

Onilon Pedro de Sousa herdou dos pais a arte de fazer bijuterias e objetos de decoração, com técnicas manuais, usando arames e outros materiais recicláveis. “Houve um momento da minha vida em que tentei uma profissão convencional. Trabalhei como mecânico durante uns seis anos, mas não deu certo. Não era o meu talento. É isso aqui que sei fazer bem. É isso aqui que gosto de fazer. No começo me virava pela praia, mas hoje já tenho minha casa, aqui mesmo em Tambaú. Passo o dia aqui na praia para vender minha arte, mas toda necessidade que tenho, banho ou outras coisas, vou em minha casa”, disse.

Pedro vende artesanato na orla há cerca de seis anos e disse que já perdeu a conta de quantas vezes teve a mercadoria apreendida pelos agentes da Prefeitura, que realizam fiscalizações constantes do comércio irregular no calçadão. “Só barracas de campo, quando eu ficava por aqui mesmo, perdi cinco. Eles dizem para irmos buscar a mercadoria na Prefeitura, mas a burocracia é grande”, reclamou, reforçando que, apesar das fiscalizações, ele sempre volta para vender seus artesanatos no local.

Ao lado do tabuleiro de Pedro estava a mercadoria de Jeferson Oliveira, conhecido por “Punk”. Ele é um viajante de longas temporadas, que já esteve em João Pessoa por várias temporadas. “Eu não queria nem uma casa ou estrutura parecida. Consigo me virar bem aqui na barraca mesmo. Quando preciso de banheiro vou ali na feirinha e pago um real para usar. Pago R$ 3 ao cara do fiteiro aqui para dar uma carga no celular e assim vou me virando. Eu só queria não ser perseguido. Somos vistos como marginais, vândalos, quando na verdade somos artesãos e queremos apenas o nosso sustento. Nas fiscalizações, dizem que nós estamos infringindo a Lei ambiental porque colocamos barracas. Mas os donos dos quiosques vivem desmatando, cortando árvores e nada acontece com eles”, disse.

Presença de artesãos divide opiniões



Entre as pessoas que passeiam pela orla, as opiniões são divididas sobre a presença dos artesãos. A estudante Rafaela Cristina gostou da oferta de bijuterias. “Acho legal andar por aqui e ter esse material ao nosso alcance. Às vezes queremos usar uma coisa simples e bonita como essas pulseiras e com essa aparência só achamos aqui”, disse após parar em um dos tabuleiros para conferir as peças.

Já o aposentado Odilon Batista Braz, que aproveitava a manhã de Sol com familiares, defendeu que deveria haver uma organização. “Acho que fica feio as barracas de todo jeito aí. Não sou contra eles venderem a mercadoria deles, mas a urbanização é necessário. Em tudo a organização é necessária”, disse.

Semam. A Secretaria de Meio Ambiente do município informou, através de nota, que “a Semam atua com rigor, notificando e autuando os crimes ambientais e que no caso dos quiosques não é diferente”. Ainda segundo a nota, quem desrespeitar a legislação ambiental será sim punido e com rigor. A Secretaria também informou que tem promovido oficinas de capacitação ambiental com os donos de barracas da praia, para que dêem o destino adequado aos resíduos. A capacitação também inclui preservação das áreas do entorno dos quiosques, para que proprietários e funcionários atuem como agentes de preservação.

Fiscalização intensa



O CORREIO falou com a assessoria de Comunicação da Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedurb), responsável pela fiscalização do comércio irregular. A assessoria disse que a atuação dos fiscais está sendo intensificada desde o início do mês, nos três turnos na orla. Quanto a fiscalização das areias da praia, ainda está em tramite o processo de transferência de responsabilidade da Superintendência do Patrimônio da União para a Prefeitura.

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