sábado, 16 de fevereiro de 2019
Cidades
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Áreas de plantio voltam a receber água depois de 2 anos

Fernanda Figueirêdo / 15 de julho de 2018
Foto: Antônio Ronaldo
A esperança retorna para os aagricultores que vivem no Perímetro Irrigado das Várzeas de Sousa (Dpivas), no Sertão paraibano.  Após dois anos de suspensão do fornecimento de água para o plantio do Complexo Coremas-Mãe D´Água, as lavouras começam a ser irrigadas novamente a partir deste domingo (15).

A gerência executiva do  Distrito de Irrigação das Várzeas de Sousa (Dpivas) informou que, a partir deste domingo (15), a Agência Nacional das Águas (ANA) passa a liberar 500 litros por segundo do complexo adutor até o Canal da Redenção, salvando todas essas famílias da seca e do abandono.

“A partir de domingo a água será liberada e essa retomada de irrigação deverá passar por uma semana de testes e adaptações, para sabermos se essa quantidade dá para dois ou três dias de irrigação por semana”, explicou  o gerente executivo do  Distrito de Irrigação das Várzeas de Sousa (Dpivas), Rogério Paganelli Junqueira.

Rogério Paganelli Junqueira se reuniu com representantes do Governo Estadual e da Agência Nacional das Águas (ANA) nas últimas semanas, em João Pessoa, na expectativa de que, com as últimas chuvas registradas no Sertão paraibano e o aumento do volume de água do Complexo Coremas-Mãe D’Água, que atualmente está com quase 30% de sua capacidade total, os agricultores pudessem voltar a ter pelo menos dois dias de abastecimento de água na região.

De acordo com o gerente executivo de Irrigação, da Secretaria de Estado do Desenvolvimento da Agropecuária e da Pesca (Sedap), Demilson Lemos de Araujo, o acumulado das chuvas neste ano na região das Várzeas de Sousa já permite que o Governo do Estado, por meio da Sedap e da Aesa, considere viável a proposta de fornecimento para o perímetro irrigado.

“Essa vazão possibilitará a retomada das atividades do perímetro ainda este ano, com a manutenção dos produtores nos lotes na perspectiva de que, em anos vindouros, a segurança hídrica possa ser ampliada tanto pelo aporte de chuvas como pela chegada das águas da transposição do Rio São Francisco pelo eixo Norte”, afirmou Demilson.

Nova cultura é aposta

A volta da água para irrigação no perímetro das Várzeas de  Sousa vem junto com a aposta em investir em uma nova cultura. O gerente executivo do Dpivas, que também é engenheiro agrônomo, explicou que, quando a ANA voltar a permitir a irrigação nas Várzeas de Sousa, a ideia é investir na cultura do gergelim. O produto é uma importante fonte de produção de óleo de excelente qualidade e de proteína de elevado valor biológico, tanto para o homem quanto para os animais domésticos. Além disso, o cultivo desta cultura é ideal para as condições de clima e solo no semiárido nordestino.

“Estamos tentando implantar a cultura do gergelim, porque é de custo baixo de produção e venda garantida para extração de óleo. Já tem um produtor que plantou depois que um pesquisador da Embrapa veio nos orientar. A ideia é que ele possa fornecer para os outros e assim multiplicar essa tendência. Pelo menos um hectare plantado de gergelim em cada lote produtor seria uma coisa boa”, disse Rogério.

Paganelli lembrou ainda da importância das culturas temporárias no perímetro irrigado, já que estas são propícias ao replantio após a colheita, possuindo período de vida curto, ou seja, ideal para localidades onde a irrigação é uma incerteza.

“O pessoal não vai poder apostar numa lavoura perene, porque a quantidade de água acumulada não é suficiente para garantir culturas de longo período. Então a nossa sugestão de cultivo é de, além do gergelim, culturas temporárias como a do milho, maracujá, abóbora, melancia, macaxeira, feijão e batata doce. A ideia é continuar irrigando o que sobrou e investir nas plantações que eu citei. O côco, se plantar hoje, demora três anos para produzir, então não é mais indicado”, pontuou.

Sofrimento de quem ficou na terra

O agricultor Aurélio Alves da Silva, 33 anos, proprietário e morador de um lote de cinco hectares no Setor 7 do Perímetro Público de Irrigação, conta que os poucos moradores que ainda restam no perímetro que há dois anos deixou de ser irrigado, sofrem com a falta de ajuda do Governo. Aurélio é casado e pai de uma filha, diz que mantém sua família com a venda de leite e ovos.

“Não está sendo fácil. Estou me virando com criação de galinha de capoeira e venda de leite. Tive que diminuir a pastagem e as vacas leiteiras, que agora só são cinco. O Estado ainda tem a gerência do canal, 50% da área de reforma agrária ainda pertence ao Governo com outorga da ANA. Deveriam ter políticas para os produtores. O agricultor que mora no pé da serra e perde tudo, tem o seguro safra, nós não podemos ter esse benefício porque alegam que essa é área de irrigação, mas nós sequer temos água”, explicou Aurélio.

Como ele, Geremias da Silva, 48 anos, resiste à seca aguando as plantações que restaram graças à água armazenada em um cacimbão. “A expectativa agora é que a ANA libere dois dias de água por semana para o perímetro das várzeas. Se isso não acontecer, o cacimbão vai secar e a plantação de coco vai morrer”, lamentou o agricultor.

Geremias da Silva conta que as plantações perenes (designação botânica dada às espécies de ciclo de vida superior a dois anos) de seu lote que resistiram à seca foram somente o coco e a bananeira, espalhados em dois hectares de terra. Os poucos agricultores que continuaram produzindo tiveram que tirar dinheiro do próprio bolso para furar poços artesianos ou cavar cacimbões em suas propriedades. Esses produtores não têm nenhum tipo de benefício federal de combate à seca, como direito à construção de cisternas ou ao seguro safra.

“A alegação é sempre a mesma. Nossos lotes estão em perímetro irrigado. E quem vai dar cisterna a agricultor que já tem irrigação garantida? Mas minha gente, isso tudo é uma grande mentira. Só nos sobraram dívidas. Todos os produtores das Várzeas de Sousa são inadimplentes com a taxa cobrada pela associação que gerencia o projeto. Se a gente não produz, se não existe água pra nada, a gente vai pagar pela manutenção de quê?”, indagou Geremias.

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