segunda, 24 de junho de 2019
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Altruísmo natalino precisa romper barreiras e ser rotina

Beto Pessoa / 23 de dezembro de 2018
Foto: Assuero Lima
A noite de Natal de Adeilda da Silva, 49 anos, mais conhecida como Dona Boneca, não terá mesa farta. Sua sala tampouco terá árvore ou luzes iluminando o lar. Os enfeites que faltam nos cômodos, no entanto, preenchem o coração da vendedora de pastel, que com seu trabalho altruísta tem dado mais beleza e oportunidades às crianças da comunidade do Iraque, em João Pessoa, hoje com aproximadamente 400 moradores.

Ela chegou ali três anos atrás. Não tinha onde viver e naquele espaço fez morada como pode. Juntou lona, madeira, tapumes e levantou abrigo. Poucos meses vivendo e observando a dinâmica local, sentiu que o poder público estava distante. Faltava saúde, educação, saneamento. Mas faltava também afeto, compreensão e cuidado.

Mesmo com tão pouco, mesmo não sabendo ler e mesmo a vida mostrando amargor e acidez para aqueles que sonham grande vivendo sob adversidades, ela abriu por conta própria uma escolinha de reforço. Primeiro espaço de resistência numa realidade que insiste em não ser justa para todos. “Quando cheguei vi que tinha muita criança necessitada, sem ter atividade nenhuma. Montei meu barraquinho, mas queria ajudar. Sempre gostei de ajudar as pessoas. E por isso decidi abrir a escolinha, na minha casa mesmo. Começou com cinco crianças, mas depois começaram a chegar outras, uma chamava a outra, e continuaram vindo”, lembra.

A princípio, Dona Boneca não tinha ajuda e bancava tudo do próprio bolso, com o lucro dos pastéis que todos os dias saía para vender no comércio. “Muitas vezes faltava comida na minha casa, mas o lanche deles eu nunca deixei faltar. Pedia a um e outro, aos amigos, vizinhos, para não faltar a comida deles”, disse.

Com o passar dos anos, Boneca foi conseguindo reforço aqui e ali. No início pagava R$ 100 a uma professora para ajudá-la nas aulas. Com o tempo, sem condições de bancar, ficou sozinha novamente. Sem saber ler, fingia entender os enunciados das atividades dos alunos, que em alguns momentos invertiam os papéis e passavam a ser professores da vendedora.

“Fiquei sozinha e disse: não vou desistir. Já que não tem professora, vou ser a professora deles. Às vezes eu escrevia algo no papel, porque via escrito no livro e copiava. Aí um deles chegava e dizia que eu tava escrevendo errado. Aí eu dizia ‘ah, ensina a tia como escreve. É porque tia perdeu os óculos e não está enxergando direito, por isso escreveu errado’. Fingia porque queria que eles continuassem motivados estudando”, conta.

Com dinheiro apertado, muitas vezes tirando de casa para dar às crianças, Boneca precisou se virar, sempre acreditando que o melhor poderia vir. E veio, quando um grupo de voluntários religiosos ofereceu ajuda. Primeiro com professores. Depois com uma reforma na sua casa, que ela prontamente recusou para que fosse reformada, no lugar, a escolinha de reforço da comunidade.

“Foram anjos na minha vida. Pedi que não reformassem minha casa, mas que reformassem no lugar a escolinha. Sempre sonhei em criar um espaço que eles pudessem estudar dentro da comunidade".



"Não é porque a gente mora em uma comunidade que eles têm que sentir que moram numa favela. Eu quero que tenham oportunidades”.





ONG ajuda comunidade





A ONG Menino buchudo (@meninobuchudo) foi um destes “anjos” a tentar melhorar o dia a dia de quem vive na comunidade do Iraque. Idealizada pelo universitário e cineasta Henrique Rouvier e a missionária e ativista do movimento negro, Aline Martinells, a organização criou uma campanha online, com objetivo de conseguir alimentos, fraldas e até material de construção para melhorar a estrutura das moradias de lá.

Henrique Rouvier explica como nasceu o projeto. “Estávamos na Praça da Paz, no bairro dos Bancários, quando vimos uma criança sendo expulsa de um restaurante. Ele estava esperando a comida que um cliente tinha pago para ele, mas foi colocado para fora e revistado pelo funcionário. Assim que colocado para fora ele colocou os braços para cima, chorando, para ser revistado. Aquilo nos deixou muito mexidos e no dia seguinte, quando encontramos o mesmo menino na rua, procuramos saber mais da sua história”, relembra.

Junto com os amigos, ele foi até a comunidade do Iraque, onde conheceu a família de Ivanildo, que passou a ser a inspiração para o nome da ONG Menino Buchudo.

A missionária Aline Martinells, que também auxilia na ONG, já trabalhava junto à população do Iraque, junto com sua igreja. “Quando os irmãos da nossa igreja conheceram a história de Dona Boneca, resolveram ajudar e começaram a construir a salinha. Formamos uma equipe de cerca de dez pessoas e a cada dia da semana, de segunda a sexta, vem uma dupla e faz a atividade de reforço escolar. Cada voluntário também arca com parte do lanche, que tem que ser comida de verdade, porque muitos deles só têm essa refeição no dia”, explica.

Aline Martinells acredita que o sentimento de caridade, tão forte no período natalino, precisa virar rotina no dia a dia das pessoas. “É interessante que a gente pegue esse momento, onde as pessoas param e pensam em virtude da data, e canalize isso para um projeto que é constante. Trabalhamos como voluntários, mas sabemos que essa realidade existe por uma omissão do Estado. A gente se solidariza e faz ações, mas sabemos que o que resolve os problemas é investimento em políticas públicas”, disse.

Participando do dia a dia de quem vive ali, a missionária consegue sentir os problemas estruturais daquelas pessoas. “Sobre políticas públicas, falta tudo. Imagine o que é você viver todos os dias com os pés sujos porque vive na lama e na terra o dia todo. As unhas das crianças chegam a cair. A fome é outra realidade. Há crianças pequenas que passam o dia inteiro com a mesma fralda e só tomam banho quando chegam na escola de Dona Boneca”.

Apesar de tudo, há naquelas crianças o desejo de um futuro outro, com mais igualdade de oportunidades. “Você percebe nas crianças uma carência afetiva muito grande, ao mesmo tempo que, no momento que você está ensinando a tarefa de casa, eles têm desejo enorme de aprender, de estar ali”, disse Aline Martinells.



"O que a gente pode a gente faz. Coloca no braço, acolhe, porque eles sentem tudo".





E neste contexto, a presença de Dona Boneca e sua escolinha de reforço se mostram ainda mais importantes. Na ausência de um Estado que cuide e ampare os futuros adultos daquela comunidade, é ela quem tem tomado a frente na luta por um amanhã com mais oportunidades. “Você veja que ela preferiu reformar a escola que sua própria casa. Muitos adolescentes morrem por conta da criminalidade por conta da situação que vivem e o desejo de Dona Boneca é tirá-los dessa realidade, dar outras oportunidades de vida para eles”, destaca Aline.

História de Sandra





Na comunidade do Iraque, quando se pensa em políticas públicas, se vê pouco. Maior parte das casas não tem banheiro, já que não há saneamento básico. Encanamento e energia elétrica regular também estão distantes. O posto de saúde mais próximo fica a aproximadamente 40 minutos andando a pé, mas muitas vezes, ao chegar no local, não há atendimento, seja porque falta médico, porque todas as fichas já foram entregues ou por simples recusa à quem vive em comunidade. Diante deste cenário, para idosos e pessoas com crianças a dificuldade de acesso é ainda maior.

É o caso de Sandra da Silva, que tem 34 anos e 7 filhos. Na noite de natal, ela estará reunida com a família. A mesa, porém, não estará farta, mas os desejos para o ano que se aproxima são imensos. “A gente sempre pede um ano novo, né? Melhor! Que a gente tenha mais saúde e oportunidade. É muito difícil viver aqui, todo ano a gente pede que façam alguma coisa por a gente, mas não temos muitas melhorias. A sorte é quando aparecem pessoas para nos ajudar”, lamenta.

Além de cestas básicas, fraldas e produtos de higiene pessoal, a ONG Menino Buchudo conseguiu telhas para melhorara a infraestrutura da moradia de Sandra, que todo ano enfrenta sérios problemas com alagamentos. “Tenho muitas crianças aqui. Mês de junho e julho a gente sempre se aperreia, porque ficamos dentro da lama, com rato e barata passando por cima da gente. Aqui vivemos uma peste de pulga que fica na terra e entra no pé da gente, das crianças”, disse.

Na falta de posto de saúde, com a distância de políticas públicas que a assistam, Sandra tenta sozinha resolver os problemas do dia a dia. “A gente vai sobrevivendo como pode. Estou com uma filha grávida que precisa de médico. A gente anda 30, 40 minutos para chegar no posto de saúde e muitas vezes não somos atendidas. Então a gente vai se virando como pode”.



"Eles têm preconceito porque a gente vive em comunidade. Os meninos ficam doentes, por causa da sujeira e dos bichos, e quando buscamos o posto é a mesma coisa".





O filho de Sandra, Ivanildo, é a inspiração para a ONG Menino Buchudo e é também um dos alunos da escolinha de Dona Boneca. Três histórias que se cruzam e materializam o espírito de bondade, empatia e amor ao próximo, valores defendidos nesta época natalina, mas que para dona Boneca são seguidos dia após dia.

“Aqui dentro da comunidade o Natal deles não vai ser farto. Ando de casa em casa, sei o sofrimento da minha comunidade. Tem casas com seis, sete crianças e a vida deles é muito sofrida e necessitada das coisas. Para o próximo ano eu queria que o Governo olhasse para a gente, desse um posto de saúde, se preocupasse e desse a moradia certinha. A gente não quer ficar indo de um lugar para o outro, quer ter água certinha, luz certinha, sem ficar precisando pegar de graça.”, disse.

Num mundo cada vez mais individualista, onde as conquistas pessoais muitas vezes se sobrepõem aos benefícios coletivos, a comunidade do Iraque e sobretudo dona Boneca mostram que outras dinâmicas cotidianas precisam ser adotadas na vida social, pequenos passos para se chegar a um futuro mais igualitário e justo, defende dona Boneca.

“Fui criada sem minha mãe. Não tive amor de família. Fui criada por uma avó alcoólatra, que bebia muito. Mas o mundo me ensinou ser uma pessoa melhor. Não sou uma pessoa de dar beijo, dar abraço, porque eu nunca tive isso. Mas eu tenho a vontade de ajudar as pessoas. Ajudando o próximo me sinto feliz”, disse.

 

 

 

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