terça, 19 de janeiro de 2021

Água
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Moradores de 19 cidades abastecidas por Boqueirão esperam ansiosos pela Transposição

ANTÔNIO RONALDO / 15 de abril de 2017
Foto: Fernanda Figueirêdo
Moradores das 19 cidades abastecidas pelo açude Epitácio Pessoa, conhecido como Boqueirão, esperam ansiosos pela água da transposição do Rio São Francisco que, segundo os órgãos de gestão hídrica da Paraíba e o Ministério da Integração Nacional, deverá chegar em breve ao reservatório.  O presidente da Agência Executiva de Gestão das Águas do Estado da Paraíba (Aesa), João Fernandes, lembrou que o trajeto percorrido pela água através da calha do Rio Paraíba possui obstáculos no percurso que tornam difícil precisar esta data.

Segundo técnicos da Aesa, ontem a água estava em um local conhecido como a Furquilha do Rio Paraíba, o local onde encontram-se as águas do Paraíba com o rio Taperoá.

Garantia: De acordo com o presidente João Fernandes, não se pode garantir que a água chegue ainda hoje, apesar de esta ser a grande expectativa dos moradores da região.

“Ninguém pode dizer isso. Estamos no Mirador, a 200 metros de onde está a água do Boqueirão. Já fui visitar a água no ponto em que ela estava por volta do meio dia . Ela está enchendo um grande lago que fica no encontro entre rio Paraíba e Taperoá. Estamos a 8 quilômetros da Furquilha do Rio (encontro do Paraíba com o Taperoá). Faltam cerca de 8,5 km para o rio Paraíba chegar até o Mirador. A água do São Francisco é uma cota permanente, quando vem água da chuva, o percurso anda mais rápido. De ontem pra hoje ela andou 8km em um dia e estava passando três dias para andar 4km. Desde quando ela chegou na Furquilha, começou a encher esse lago. Estamos atentos, acreditando que ela pode chegar entre sábado e domingo”, disse João Fernandes. “O importante é que, contra tudo que dizia os pessimistas, a água está chegando”, disse.

Em São Miguel, atraso de obra da adutora preocupa

O açude Epitácio Pessoa, segundo o especialista em Recursos Hídricos, Isnaldo Cândido, possui 25 km de extensão e está dividido em três municípios: Cabaceiras, Barra de São Miguel e Boqueirão.

No entanto, moradores de Barra de São Miguel reclamam que a cidade, que fica a poucos quilômetros deste reservatório, está em colapso e sem expectativa de ser abastecida nos próximos meses pela água da transposição do Rio São Francisco.

“É injusto que Pedra Lavrada, no Curimataú, que inclusive faz divisa com o Rio Grande do Norte, receba a água da transposição enquanto Barra de São Miguel, que também abriga o açude Boqueirão, fique de fora disso. Vamos morrer de sede com a água na porta de casa porque o Governo não entregou a obra da adutora iniciada em 2013”, disse o ex-prefeito e morador da cidade João Tarcísio Quirino.

“É uma bênção ver água”

Pessoas de Boqueirão e Campina Grande foram até a passagem molhada do Sítio Melo, em São Domingos do Cariri, confirmar a chegada da água à região.

“Vim com a família olhar a água em São Domingos pra ter certeza que ela vai chegar lá em Boqueirão. Moro no centro e a gente só tem água de terça-feira a sexta-feira. É uma bênção ver tanta água correndo em direção à minha cidade. Pode até não ser no dia que disseram, mas agora eu sei que a água vai chegar”, disse o motorista Geovani Paulino de Souza, residente no município de Boqueirão. Já Saulo Pereira da Silva, de, também morador de Boqueirão, levou as filhas para verem a água corrente do rio. “Acho que é um momento único e pelo menos a mais velha nunca vai esquecer que viu a água do Rio São Francisco de perto. Agora acredito que estamos chegando ao fim dessa seca”, pontuou.



Povo diz que Transposição é esperança contra colapso

O açude Epitácio Pessoa abastece, além de Campina Grande, Barra de Santana, Caturité, Queimadas, Pocinhos, Lagoa Seca, Matinhas, São Sebastião de Lagoa de Roça, Alagoa Nova, Boqueirão, Cabaceiras, Boa Vista, Soledade, Juazeirinho, Seridó, São Vicente do Seridó, Cubati, Pedra Lavrada e Olivedos. Nesses 19 municípios localizados em três regiões distintas – Agreste, Cariri e Curimataú paraibanos – as pessoas vivem uma única preocupação: a falta de água provocada pela seca, gerando racionamento e colapso hídrico. A única esperança é a transposição.

Em Lagoa Seca, no Agreste, a aposentada Maria das Neves do Nascimento, 60 anos, lembra que foi obrigada a deixar a zona rural porque a estiagem destruiu tudo que ela tinha. “Isso é uma seca triste, nunca vi desse tamanho. Eu, minha irmã e meu cunhado mudamos pra cidade porque ninguém tinha água nem capim pra dar aos bichos. Nós morávamos no Sítio Cumbe, onde só tem água de carro pipa. Na cidade tem água de quinta a sábado. Espero que a transposição amenize o racionamento”, disse.

Apesar do Projeto de Integração do Rio São Francisco estar se concretizando, dona Maria diz que para abastecer a terra na zona rural, só com chuva. “A água da transposição não vai até lá. Então tem que ser Deus pra encher as barragens e molhar a terra pra gente voltar a plantar milho, laranja, feijão e macaxeira”.

Em Alagoa Nova os moradores há oito meses vivem sem água nas torneiras. “Hoje a cidade só é abastecida de carro pipa. A gente compra 250 litros por R$ 6”, comentou Antônia da Silva.

Agricultores já fazem seus planos

No Poço de Matias, no sítio Ilha Grande, município de Barra de São Miguel, enquanto o nível da água avançava sobre o chão rachado do Cariri na última terça-feira, agricultores e pescadores, com lágrimas nos olhos, faziam planos do que fariam com a água do Rio São Francisco. “Vou voltar a irrigar por gotejamento. Além das plantações de feijão macassa, que eu consegui manter com água de poço, vou voltar a plantar pimenta, que só dá certo com água doce como essa. É uma bênção. Todo mundo tá abestalhado com tanta água chegando”, afirmou o agricultor Leandro de Oliveira, 30 anos, que tem uma propriedade no Sítio Floresta, onde a água do Projeto de Integração do Rio São Francisco também passa.



João Fernandes lembrou que prioritariamente a água do projeto é para o consumo humano e animal. AAesa fará um cadastro com os agricultores das regiões beneficiadas para que eles possam irrigar com moderação. “Precisamos, acima de tudo, de educação para o uso desta água que está chegando. Em segundo lugar, medição. Vamos autorizar a irrigação com base nisto. Em terceiro, cobrança. Os agricultores vão pagar por essa água e devem respeitar a taxa de uso”.

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