quarta, 20 de janeiro de 2021

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Agentes de investigação: o trabalho de colher peças do ‘quebra-cabeça’

Ainoã Geminiano / 24 de setembro de 2017
Foto: Rafael Passos
A Delegacia de Defraudações de João Pessoa tinha uma informação de que bandidos estavam clonando cartões de crédito de várias pessoas e estourando em compras, que já somavam mais de R$ 200 mil. Porém, como saber quem eram os bandidos? Em visita a alguns estabelecimentos, agentes de investigação conseguiram imagens dos suspeitos. Ainda faltava o principal: quem eram aqueles homens? Onde encontrá-los? Conversando com moradores do Valentina Figueiredo, onde uma das compras havia sido feita, um agente disfarçado de morador ouviu algo que dava uma pista sobre a possível identidade de um dos suspeitos. Alguns dias a mais, conversas com outros moradores, mais agentes envolvidos na mesma estratégia e o trio Matheus Dantas Xavier, Marcos Antônio Bezerra e Pacelli Ribeiro da Cunha estava preso, junto com todo o material do crime. Foi por causa do trabalho dos homens e mulheres que se camuflam no meio do povo para investigar, que a DDF fez uma das principais operações deste ano, conseguindo restituir parte do prejuízo das vítimas.

A Constituição Federal diz que segurança pública é dever dos Estados, por meio dos órgãos policiais. Na Paraíba, cabe à Polícia Civil (PCPB) a atividade de investigação criminal e apuração de infrações penais. Trabalhos que demandam tempo integral e dedicação exclusiva dos agentes de investigação e dos escrivães de polícia. Atualmente eles representam 63% do efetivo da PCPB e são responsáveis por produzir as informações que alimentam os inquéritos policiais, oferecendo argumentos para denúncias e pedidos de prisões.

A criação da Lei Orgânica, há 9 anos, trouxe uma evolução na qualidade da investigação e um aumento nas condenações de presos que são levados à Justiça pela PC.

O sabor de desvendar mistérios

Marcela (nome fictício), tem 37 anos, formada em Educação Física, funcionária efetiva do estado do Rio Grande do Norte, decidiu deixar tudo pra trás, para se tornar parte desse grupo de agentes, seduzida pelo encanto de fazer descobertas e desvendar mistérios. "Há um sentimento inexplicável, quando desenrolamos o novelo de informações, que inicialmente parece nada e chegamos aos criminosos. Quando a investigação produz o resultado esperado. Nada supera essa sensação", disse. Desde a adolescência tinha uma admiração pela carreira e sonhava em ser polícia, mesmo com o estranhamento do pai, que nunca teve ninguém da família nessa profissão. Em 2009, Marcela fez o concurso da Polícia Civil da Paraíba, foi nomeada seis anos depois e, há pouco mais de dois anos, largou tudo para ser agente de investigação. Até o marido foi embora, porque não suportou a carga de trabalho da mulher, que passava a viver mais na delegacia do que em casa.

Para ela, a transformação de informações em combate ao crime, em prestação de serviço à população e em fazer o bem é o principal combustível do investigador criminal. , disse.

Para não alertar os criminosos sobre os métodos usados pela polícia para pegá-los, Marcela não revela as técnicas que os investigadores utilizam para percorrer esse caminho. Mas garante que a investigação não é apenas instinto. "Claro que com o tempo a gente acaba criando uma espécie de sexto sentido investigativo, mas tudo que fazendo tem um fundamento técnico. É pensado e planejado para produzir os resultados", acrescentou.

Trabalho em equipe é fundamental

Mesmo orgulhosa dos resultados que tem conseguido, junto com os colegas, Marcela salientou que o resultado de uma investigação depende da ação de uma equipe ampla e não apenas de um ou de outro personagem. "O levantamento de informações que fazemos é fundamental para que cheguemos a um desfecho da denúncia ou da suspeita. Mas de nada adiantará se não houver o trabalho do escrivão para transformar as informações em documento e do delegado que preside a investigação e se responsabilizar juridicamente por tudo que é feito. Uma investigação bem sucedida não é feita apenas por essa ou aquela pessoa. Todos trabalham em igual importância", destacou.

Sigilo. O levantamento de informações, na maioria dos casos, só pode ser feito no local onde o crime está acontecendo ou aconteceu. Por isso, a figura do agente de investigação precisa está envolvida em um alto nível de sigilo. O bandido não pode conhecer o agente, para não comprometer o disfarce, quase sempre necessário. "Muitas vezes precisamos entrar e sair se sermos percebidos. Frequentar lugares sem sermos notados", disse Marcela. Para a população, o agente de investigação não tem nome nem rosto. E quando essa discrição não é mais possível, é necessário transferir o agente para outra função, outra delegacia e até mesmo outra cidade.

Agentes buscam valorização

"Você não nos vê, mas conhece nosso trabalho". O slogan ilustra uma campanha iniciada há cerca de dois anos, pela Associação dos Policiais Civis de Carreira da Paraíba (Aspol-PB), para iniciar o que a entidade chama de valorização dos investigadores. Segundo a presidente, Suana Melo, o reconhecimento do trabalho dos agentes de investigação não é uma questão de vaidade. "A questão é que o desconhecimento de nossa atuação tem provocado desvalorização da categoria, já que não se enxerga a importância do trabalho", explicou.

Uma das primeiras metas da entidade é conseguir mudar a nomenclatura dos agente de investigação, escrivães e motoristas policiais, para investigador criminal, reunindo as três funções em um só cargo. Mas a maior de todas as buscas é pela remuneração de nível superior, que os representantes entendem ser justa. Essas e outras questões estão sendo discutidas em uma reforma na Lei Orgânica da PC.

"Quando se fala em operação policial, a impressão que as pessoas têm é da figura do delegado ou da Polícia Militar, que faz prisões em flagrante ou cumpre mandados de prisão. Mas são os investigadores que fazem a parte mais longa do processo, que inclui o levantamento de informações, campanas, estudos sobre criminosos, sobre cenas de crime, entre outras coisas, até que se chegue aos criminosos", disse Suana Melo, presidente da Aspol-PB.

A insatisfação com a notoriedade do cargo não é uma questão de orgulho, segundo a presidente. Isso influencia diretamente em fatos importantes para os investigadores, como a remuneração, por exemplo. "Somos profissionais de nível superior mas ganhamos como profissionais de nível médio", disse Suana. A representante destacou que, mesmo sendo dois cargos de nível superior, o agente de investigação recebe no máximo R$ 4,2 mil, enquanto que esse valor equivale ao salário inicial de um delegado, que chega a receber valores próximo de R$ 20 mil.

 

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