terça, 13 de novembro de 2018
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A arte de viver o caos para ‘criar’ letras e ciência

Luiz Carlos Sousa / 18 de setembro de 2016
Foto: Rafael Passos
O professor Roberto Menezes vive entre o extremo de ser um cientista – é doutor em Física – e o escritor de ficção com vários livros publicados. Em um lado de sua vida, citações, referências teóricas, estudo e avaliações. No oposto, cenários comuns a qualquer ser humano e a preocupação de escrever para que sua mãe entenda. Nessa conversa com o Correio – um dos poucos momentos em que organiza a agenda, quando tem um compromisso – ele contou o caos criativo em que vive, a visão do físico sobre a Ecologia e a preservação do planeta e o jogo com as ideias fluindo a qualquer momento num cálculo de três, quatro páginas ou numa história narrada na forma de romance.

- Como o senhor conciliou uma ciência exata como a Física com a arte literária de escrever ficção?

- Não foi uma migração. Eu já fui um grande leitor – hoje leio menos que antigamente por falta de tempo, trabalho e outras coisas. Mas quando era adolescente tive oportunidade de ler muito. Meus pais, apesar de serem pobres, incentivavam. Fui frequentador assíduo de sebos culturais, o que me fez um leitor.

- Ávido?

- Um ávido leitor. Lia tudo, onívoro. Ao mesmo tempo, era bom em Matemática e sempre pensei em ter um futuro. Era menino pobre, em Tibiri, Santa Rita e havia sonhos de vida melhor para mim e para a família. Então, tentava associar as duas coisas, pensava em fazer um curso de Engenharia e fui aconselhado por professores a optar por Física.

- Algo especial na Física?

- Teria emprego. Como era bom em Matemática e gostava de Física, no auge de minha adolescência fui por impulso. Mas queria ser escritor. Imagine uma pessoa que mora no Tibiri, em Santa Rita, que não conhece ninguém que escreve, você escreve mal e fui deixando de lado. Mas estudando Física, conhecendo pessoas pela Internet e isso durou anos, até terminar o doutorado em 2007.

- Só então, a Literatura teve vez?

- Ficou pronto o primeiro romance, que foi publicado pela Funjope – Pirilampos cegos. Portanto não houve uma migração.

- Como o senhor encontrou o ponto de equilíbrio, então?

- A busca pela criatividade é o que une o simples fato ser leitor e não ficar satisfeito em só ler e querer dar sua contribuição. Quando me mostraram a Ciência eu queria fazer parte do grupo de pessoas que faz ciência. Da mesma forma ocorrida quando lia um livro. Eu dizia: quero fazer algo parecido com esses caras que são muito bons. Com a mesma dedicação com que fiz ciência, quando comecei a escrever pra valer me dediquei muito e me dedico muito.

- Leva a sério?

- Nunca trato a Literatura como hobby. Essa palavra é um pouco depreciativa. Acredito que se fosse professor de Literatura e escrevesse sobre Física seria a mesma coisa. prof-escritor_roberto-menezes_entrevlula_rafaelpassos-2

- Mas parou com a Física?

- Não, não interrompi. Sou pesquisador do CNPq. Tenho bolsa para publicar artigos e tenho 70 atualizados e publicados. Ano passado publiquei dez. A média de publicação para ganhar uma bolsa é de dois artigos por ano. Trabalho diariamente com pesquisa em Física.

- E como encontra tempo para se dedicar a duas coisas tão diferentes?

- Não tenho agenda. Sou uma pessoa muito bagunçada e acho que é nesse caos que consigo me organizar. Só tenho agenda certa quando marco um compromisso com alguém ou quando vou dar aula. No resto do tempo, não tenho horário para estudar, para dormir, para acordar.

- Como colocar alguma ordem nesse caos?

- Um dia desses cheguei da universidade tão cansado, mas tive uma ideia e só fui dormir às 2h da madrugada. Acordei cedo fui trabalhar e depois dormir. Essa luta que me faz fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Além disso, sou altamente hiperativo. Quem não me conhece pensa que tomo remédio ou sou drogado.

- Como, então, o senhor administra criar na ciência durante certo tempo e quase imediatamente passar a criar na arte?

- Se eu ficar fazendo uma coisa só durante 20 minutos, meia hora eu piro. Por exemplo, há poucos dias comecei a fazer um cálculo – duas, três páginas. Ao mesmo tempo surgiu uma frase, uma ideia, uma analogia, enfim algo sobre o que estou escrevendo. É “alt tab” imediatamente. Aí a minha mente começa a puxar para o cálculo, daí volto. E não é só um texto. São seis, sete ao mesmo tempo.

- E o resultado?

- Não sei se é bom. Alguns gostam, mas é desse jeito que funciona. E a literatura é um trabalho solitário, eu comigo mesmo, enquanto na ciência faço parte de um grupo e não é só fazer cálculo. Preciso discutir, analisar, tenho alunos de doutorado.

- Além do fato que a ciência obedece a um método, faz-se referência, cita-se...

- Sim, sim. O mais engraçado é isso. As pessoas falam que na literatura não faço muita menção a outros autores. A minha literatura não tem referência na própria literatura. Estou tão cansado de fazer isso na ciência que prefiro citar uma frase de um cabeleireiro do que citar um teórico. São coisas minhas, não estou criticando quem faz. Tento fazer esse diferencial. Quero escrever para que minha mãe entenda.

- Os cenários da criação também são simples?

- Quase tudo que escrevo se passa em João Pessoa e minha referência é citar o cara que vai da Torre para a Lagoa a pé do que situar a história em uma rua de Paris. Para mim é mais verdadeira, porque é minha verdade. É mais verdade do que citar um livro de Dostoievski. Isso é só uma escolha. Tenho capacidade de fazer o contrário de citar texto de Saramago, etc. É apenas uma opção minha.

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- O senhor ensina o quê na UFPB?

- Dou aula para duas turmas: Ecologia e Matemática. São aulas totalmente diferentes. Matemática é cálculo puro e tento ensinar como a Matemática que estudam serve para a Física. É cálculo o tempo todo, equações, integrais, derivadas. Em Ecologia, a aula é altamente teórica. Começo perguntando: vocês sabem há quanto tempo estamos aqui?

- Aqui onde?

- No planeta Terra. Os alunos vão estudar e respondem: 40 mil anos, a espécie homo sapiens. Há quanto tempo existe o planeta? 4 bilhões de anos. Então o planeta existe há três dias e nós estamos no último minuto e a gente se acha muito importante. É sobre isso que tento falar, sobre as grandezas.

- E quanto aos Insights que fazem as ideias surgirem?

- É muito engraçado. Houve uma época em que tinha medo de perder ideias. Está numa festa, está se divertindo e aí uma ideia surge assim do nada chega, você para. Depois chega em casa e não lembra de mais nada. Mas não ligo mais para isso, porque quando uma ideia morre é adubo para outra. Ela volta mais complexa.

- Mas onde elas surgem?

- Em todo lugar, dando aula, conversando. Tenho um conto, que publiquei há três meses sobre um cachorro louco que assombrava a cidade. Comecei e deixei, não gostei. Depois de seis anos terminei. A ideia era boa, mas não era “lembrável”. Alguém lê e diz: gostei, legal, mas não tem o diferencial que vai tornar aquele conto em único. Tenho um texto que falo sobre como surge a ideia: o último beijo. Fiquei tão imerso escrevendo o livro que quando terminei ficou o vazio existencial, me senti viúvo.

- Perdido?

-Terminei num domingo e li todinho em voz alta trancado no quarto, como me despedindo de uma pessoa que ia morrer. Depois foi o vazio, uma viuvez mesmo. Eu ia para a padaria e só pensava no livro, não tinha ideia, mas tem um momento em que o luto passa: é quando surge nova ideia. Às vezes, se compara: será que é uma ideia tão boa quanto a outra?

- O senhor é professor em Ecologia. Como o físico vê esse mundo tão agressivo com o meio ambiente, com a destruição mais rápida do que o planeta é capaz de reagir?

- Sou um cientista. Isso me dá uma visão muito niilista sobre a realidade. Nem todo cientista pensa assim. É um niilismo muito mais pesado que o de Nietzsche. Sempre que falamos, em cada detalhe, estamos falando sobre nós próprios. Quando a gente fala que está acabando com o planeta, não estamos acabando com o planeta, mas sobre o lugar onde é possível que o ser humano sobreviva.

- Onde o senhor quer chegar?

- Se a gente acabar com o planeta, poluição, aquecimento global, em alguns milhares de anos o planeta volta. Com o aquecimento global, as espécies que surgem são maiores que sem o aquecimento. Sempre quando se pensa que está destruindo o planeta a gente está pensando sobre a gente mesmo, sobre a perpetuação de nossa espécie. Se não existisse o ser humano, faria diferença porque não haveria essa pressão sobre as mudanças climáticas, mas o planeta já passou por fases muito piores sem a gente.

- Dá para ilustrar?

- Foram três eras do gelo com destruição, onde muitas espécies morreram e por um aquecimento global muito maior que o de agora. E a nossa preocupação hoje é porque isso põe em risco nossa própria existência.

- Mas não seria motivo suficiente para preocupação?

- Claro, mas o que estou dizendo é que temos que ser honestos em relação a isso. Quero salvar o planeta. Mas o planeta não está nem aí para nossa existência. O planeta é um pedaço de terra que está girando com um monte de espécies dentro dele. E o planeta já tem os seus dias marcados: daqui a alguns bilhões de anos, o sol vai ficar tão grande que não vai existir mais Terra.

- Mais um argumento para se preocupar...

- A gente sempre quer impor uma importância do ser humano sobre a existência, sobre a criação do mundo, como se o mundo fosse criado para que a gente existisse. Mas a gente é apenas uma espécie, que vai deixar de existir um dia. Esse é o niilismo que falo. Eu vejo o realismo sem pessimismo ou otimismo, simplesmente o que acontece.

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- De qualquer forma a interferência humana pode destruir o planeta mais rapidamente.

- Vamos preservar. Dou o exemplo da barreira do Cabo Branco. Por que as pessoas se preocupam tanto em preservar a barreira? Qual o impacto ambiental que a falésia vai provocar se recuar? Muito menor do que outros impactos que podem acontecer, mas a preservação da barreira do Cabo Branco é mais histórica, representa uma identidade.

- Uma referência cultural?

- Cultural, turística, histórica, não só ecológica. No mundo inteiro, o mar recua e avança e impedir que o mar avance é ir contra a natureza. Então, quando a gente pensa, todo pensamento está relacionado a nós próprios. Ah vamos salvar os macaquinhos. Não é por aí.

- Teremos que migrar para outro planeta?

- Não sei se conseguiremos. Eu não conseguirei. Um nosso herdeiro que tiver muito dinheiro vai conseguir pagar a passagem para ir.

- O senhor acredita que será possível sair da Terra para outro planeta?

- Acabaram de descobrir um planeta na estrela mais próxima da gente. Ela está a quatro anos luz daqui, ou seja, a luz da estrela passa quatro anos para chegar aqui. O veículo mais rápido que existe é o Voyager I e, hoje, ela levaria 16 mil anos para chegar lá.

- Isso, se tivermos que sair em um meio de transporte, em uma nave, mas quem sabe qual tecnologia será utilizada?

- Mas o tempo mínimo para ir para lá é de quatro anos, que é a velocidade da luz. Não há nada mais rápido do que a velocidade da luz. Até o teletransporte se vier terá que ser por aí. O bom disso é que se vive cada dia como se fosse o último.

- E no quê a literatura muda nesse entendimento?

- A literatura é fuga. É muito fuga da realidade. Ser pessimista tem a ver com a existência humana. O ser humano gosta de valorizar sua queda. E como se alguém pulasse de um prédio e estivesse tentando escrever as pressas o motivo de sua queda. Uma literatura que marca é aquela que mostra essa queda. Estou falando do ponto de vista mais metafórico. Acho que é uma maneira de compartilhar o que se vive com a sua espécie.

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