segunda, 24 de junho de 2019
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Igreja onde jesuítas catequizavam indígenas corre risco de desmoronar

Lucilene Meireles / 24 de julho de 2018
Foto: Assuero Lima
A Igreja de Nossa Senhora de Nazaré, localizada na praia de Ponta de Campina, município de Cabedelo, está abandonada. Tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan) há 80 anos, a igreja jesuíta promovia a cataquese dos índios na época de sua fundação e, por seu valor histórico, deveria ser cuidada e preservada. Porém, as ruínas de Almagre, como é mais conhecida, estão abandonadas e ameaçadas desaparecer, deixando para trás parte da história da Paraíba. Erguida em 1598, a construção recebeu escoramento dois anos atrás, mas as melhorias ficaram por aí. A promessa do Iphan, de reconstrução parcial do templo de 420 anos, foi esquecida.

Além de escorar as paredes que datam do século XVI, o Iphan iniciou, em 2016, serviços de limpeza, cercamento, drenagem e iluminação do local onde estão as ruínas de Almagre. As ações faziam parte das medidas de preservação do patrimônio cultural e arqueológico previstas nos processos de licenciamento ambiental. Na época, além destas melhorias, o Instituto anunciou a estabilização definitiva das ruínas. Mas, olhando de perto, o que se vê é muito mato crescendo ao redor e no interior do que um dia foi uma igreja.

A superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico da Paraíba (Iphaep), Cassandra Figueiredo, disse que o resguardo das ruínas de Almagre é feito pelo Iphan, por ser um patrimônio nacional, mas lamentou a situação em que o prédio histórico se encontra hoje.

Em relação ao que pode ser feito para evitar que as ruínas desapareçam, ela esclareceu que o Iphaep não pode interferir na área que é de responsabilidade do Iphan. “No caso, podemos dialogar, saber quais são as providências que estão sendo tomadas. Porém, o que está acontecendo pode ser por conta da redução dos investimentos para a cultura em geral, o que sempre acontece quando há uma crise no país”, observou.

Projeto inicial

A previsão do Iphan, no projeto inicial, era de fazer uma análise técnica e consulta popular para embasar os trabalhos que definiriam o uso correto e a destinação adequada para a igreja. Entre as manifestações populares, o desejo de reativar o local como espaço religioso e torná-lo rota de visitação turística. Procurador pela reportagem, o Iphan não se pronunciou sobre o projeto de recuperação da igreja.

Campanha

A situação de abandono das ruínas de Almagre levou o grupo Parque das Trilhas a iniciar a campanha SOS Almagre, nas redes sociais. O objetivo é despertar consciência e difundir informações sobre as ruínas, além de sensibilizar as autoridades para a necessidade de sua manutenção e atrair investimentos de infraestrutura turística e de conservação.

Falta consciência de sociedade

Abandonar um bem histórico é lamentável e, para a superintendente do Iphaep, Cassandra Figueiredo, existem outros problemas. “Um deles, é a falta consciência geral, não só dos órgãos públicos, mas também da sociedade, que não compreende, e começam as descaracterizações. Vejo muitas reclamações da população em relação a descaracterizar. Querem que coloque vidro, para tornar as construções mais requintadas, substituindo material que conta a história”, observou Cassandra Figueiredo.

Para ela, é preciso uma união, porque o órgão público só pode fazer a restauração sob fiscalização constante.

“E é difícil se não tiver a conscientização do proprietário. Os órgãos estão para fazer a orientação devida com relação ao valor que tem a arquitetura, ao valor de se manter as características originais, orientar nesse sentido, de que qualquer reforma, reestruturação tem que passar por um órgão responsável para que oriente”, acrescentou.

Cassandra ressaltou que os municípios têm uma importância grande nesse processo, mas se isentam.

“Para qualquer intervenção, o município tem que dar o alvará. Se for do patrimônio histórico, esse alvará só pode ser dado após ouvir os órgãos responsáveis. A da Constituição Federal diz que é responsabilidade do município a proteção do patrimônio histórico”.

História da igreja

A Igreja de Nossa Senhora de Nazaré pertenceu aos jesuítas que fundaram ao seu redor uma colônia de catequese indígena.

Como ruína, Almagre foi tombado em 1938 pelo antigo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), que existiu entre 1937 e 1946.

As políticas de tombamento vigentes buscavam identificar e registrar imóveis coloniais em todo o território nacional.

As ruínas de Almagre fazem parte do Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA).

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