quinta, 21 de janeiro de 2021

Carnaval
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O “assassinato” do Rei Momo em João Pessoa

Rammom Monte / 26 de fevereiro de 2017
Foto: Rammom Monte
Todo carnaval tem seu fim. Esta frase já foi muito repetida após várias quartas-feiras de cinza. Mas para o jornalista paraibano e estudioso do carnaval, Willys Leal, a festa do Rei Momo já acabou em João Pessoa há muitos anos. Para ele, a Capital paraibana pode ter tudo, menos o carnaval. E ele explica. O fim da festa se deu com o “assassinato” do Rei Momo há pelo menos três décadas.

“Eu pessoalmente sou muito crítico ao nosso carnaval como um todo. Eu acho que a gente se perdeu há 35, 40 anos atrás. Nós eliminamos o Rei Momo. Na hora que a gente elimina o Rei Momo, nós passamos a não ser súditos de sua Majestade, o Rei Momo, o monarca, o Rei da Folia. Aí nos não podemos ser folião. Não estamos vivendo no Reino da Paragolândia. A gente não tem mais a emoção de estar brincando sob o domínio de uma coisa sonhadora, mágica. A gente perde a unidade de folião. Porque o folião é uma persona, ele não é um indivíduo de carne e osso, ele é um ser que está em outro mundo, noutra alegria, em outro tempo e espaço", explicou.

Willys completa falando da história. "Historicamente tem que ser assim,  o carnaval é datado. Tem uma data. A data que antecede a chegada da quaresma. Eu tenho historicamente, quatro dias para fazer uma catarse, para eu me lavar, me expandir, brincar. Sob o domínio do Rei Momo. Então quando eu não tenho isto, eu tenho qualquer coisa, menos carnaval. Não importa se o ritmo é carnavalesco, se tem até uma serpentina, mas falta a unidade temática. Na hora que tirou o Rei Momo, você não tem nada. Porque você quebra o espírito. Eu não posso ir para um casamento sem padre, não posso beber uma dose de cana se não tiver o tira-gosto. Eu quero ver haver o Natal sem o Papai Noel. Por que ele está lá? Porque ele simboliza estes elementos”, disparou.

Mas não foi só a morte do Rei Momo que fez com que o carnaval pessoense deixasse de existir. Folião há pelo menos 60 anos, Willys listou três fatos que fizeram com que a identidade carnavalesca de João Pessoa fosse sendo extinta.

“A gente ficou em uma ilha, naufragou em não saber encarar o carnaval daquele período, final dos anos 70, começo dos anos 80, quando se registraram três grandes transformações em João Pessoa. A primeira foi o deslocamento da cidade de João Pessoa para a praia. Nós morávamos na cidade e viemos para a praia. A segunda foi a chegada triunfal da televisão. Consequentemente, trazendo novos ritmos, novas experiências. E a terceira, e avassaladora, o fim dos clubes sociais. Estes três elementos determinaram o vácuo, uma eliminação do próprio espírito carnavalesco da cidade. Quando se fecharam os clubes, a orquestra desapareceu, o dinheiro minguou. E aí ficaram migalhas carnavalescas nos bairros. Chegamos ao ponto de se proclamar, e eu aceitei o termo e divulguei, que nós tínhamos nos transformado na cidade túmulo do Carnaval”, explica.

Willys, que é autor do livro “Nos tempos do lança perfume”, explicou que o carnaval de João Pessoa se consolidou como tal, de fato, a partir de 1910 e que sofreu grande influência de três culturas distintas.

“O nosso carnaval tem três raízes. A primeira influência é a indígena, que foi muito marcante em nós. Teve ainda a influência do frevo do Recife. Nos anos 30, um dos grandes eventos daqui era a noite do Frevo, bancado pelo governo de Pernambuco. E obviamente a terceira influência, que é da escola de samba. Nosso carnaval sempre foi a junção destes três elementos. Os clube de elite, que basicamente eram o Cabo Branco e o Astrea, eles intercalavam noites de frevo e samba”, enumerou.



Políticas públicas podem ser a saída

Willys não apontou apenas os problemas do, segundo ele, extinto carnaval de João Pessoa. Para ele, uma possível solução seria criar políticas públicas voltadas para as festividades. A ideia é ter planejamento e se pensar o carnaval como um evento cultural, que pode inclusive ser tratado dentro das escolas.

“Carnaval tem começo, meio e fim. Ele não se fabrica de última hora. É inviável. Temos que fundamentar uma política. A gente tem que dar um jeito para definir os espaços. Onde serão os festejos carnavalescos. Na orla, no patrimônio histórico, no ponto de cem reis, onde é? Isto tem que ser equacionado dentro de inúmeros problemas. A gente não tem esta política. A gente tem que ter criatividade, porque Carnaval é antes de tudo criatividade. Envolve artes plásticas, musicas, arte, ‘n’ coisas. Temos que ter oficinas de trabalho. Eu estive anos atrás em New Orleans , passando de um carnaval que eles chama Madrigal. E tem oito escolas na cidade que têm  como matéria educativa o carnaval, para as crianças aprenderem e serem artesãs do próprio carnaval. O bloco dos índios, qual é o apoio que aquele povo tem? Nenhum! Chega perto, dá a quantia X para eles, como se fosse uma dádiva, mas não é assim. A coisa passa por toda uma reformulação. É preciso se parar e pensar. Se não fizer assim, vai continuar sendo isto que está ai. Um negócio que não é carnaval propriamente dito, não traz turista e o pior, leva o dinheiro da cidade”, fala.

E uma das sugestões que Willys dá é levar o Folia de Rua para a data do carnaval propriamente dita. Fazendo assim com que a cidade não fique abandonada durante os quatro dias de festejo.

“O que eu sempre defendi é remontar o folia de rua, readequar o tal do Tradição e datarmos o carnaval. Trazer o carnaval para a sua data. A quarta-feira de fogo quando sai o Muriçocas, abriria o carnaval. As Virgens, que é outro grande bloco, ao invés de ser no domingo anterior, deveria ser no domingo de carnaval. O governo, o poder público, só daria dinheiro a quem se apresentasse neste período. Quem quisesse brincar antes, brinque por sua conta e risco. Eu gostaria de ver. O carnaval de João  Pessoa sempre foi bancado pelo governo, isto historicamente. Se ele é quem banca, poderia determinar, vamos começar na quarta-feira de fogo e vai até a quarta feira de cinzas”, sugeriu.

Ligação de Willys com o carnaval

Aos 80 anos de idade, Willys já viveu muitos carnavais. Extremamente ligado à festividade, ele afirma que desde sempre foi um folião e relembra os momentos de folia.

“Eu em realidade, quando eu fiquei jovem, uns 16 anos eu já era ligado a carnaval. Eu sempre fui uma pessoa muito aberta, social. Eu diria que eu me evolui fisicamente, socialmente, espiritualmente como carnavalesco. Sempre gostei de carnaval, sempre brinquei o carnaval. Eu diria que há 60 anos eu acompanho na intimidade a evolução do carnaval. Porque eu fiz as coberturas jornalísticas. Me integrei diretamente ao fato carnavalesco. Eu morava a 100 metros do clube Astrea, consequentemente, praticamente dentro do foco da atividade carnavalesca. E mais ainda, o ambiente que eu vivia, social principalmente, eram pessoas diretamente ligadas, não só à atividade do clube, mas ao próprio ambiente do carnaval. Meus amigos, meus colegas de faculdade, eram pessoas que gostavam de carnaval”, relembra.

Mas com 80 anos, será que ainda há disposição para cair na folia? Willys garante que não perde um ano. Ou melhor, ano passado ficou de fora, mas por questões de saúde.

“Claro que com o passar da idade, essa presença vai ficando mais localizada, especificada. Eu já passo a participar de determinados blocos, a gente vai ficando mais maduro e eu fui sempre essa pessoa que estava no Carnaval. O ano passado infelizmente não participei porque me operei no dia de Carnaval. Eu nunca tive um divórcio com o carnaval, pelo contrário, sempre tive um casamento”, declarou.



E esta paixão tinha que render frutos. E foi assim que na década de 80, ele e mais outros amigos fundaram o bloco Banda de Tambaú, que Willys afirma que foi a primeira atividade carnavalesca organizada na orla de João Pessoa.

“Aqui em João Pessoa, mais diretamente nas últimas décadas, eu tive um engajamento direto. Com dois tipos de manifestação. A primeira foi a banda de Tambaú, que nós criamos em 1981, na orla, que é a primeira manifestação da orla carnavalesca de João Pessoa, organizada. Funcionou até durante quase 30 anos. E por que acabou? Porque as pessoas que participaram delas foram envelhecendo, foram casando, morrendo e nós resolvemos matá-la com sucesso, do que matá-la pela morte”, explicou.

O outro bloco que teve participação direta de Willys foi O Corso, que ele caracterizou como uma reativação de uma manifestação cultural que acontecia em João Pessoa no início do século passado.

“Posteriormente a gente fundou o Corso. Este Corso saiu durante 14 anos, com pleno sucesso. Foi uma revitalização dos antigos blocos carnavalescos. O Corso foi a primeira manifestação do Carnaval de Rua feito pela burguesia. Não era do povo. Enquanto o povo brincava o Carnaval ainda no intrudo, a manifestação pré-carnavalesca, a burguesia, que estava recebendo os automóveis no começo do século e muitos destes automóveis vinham sem a capota, esta burguesia desfilava com o carro aberto, serpentina, confete e obviamente o lança-perfume. Era o corso dos anos 20 e anos 30. O Corso acabou-se em João Pessoa em meados dos anos 70 com a crise da gasolina. A partir do final dos anos 80, com a gasolina em abundancia, nós revitalizamos o Corso e ele durou 14 anos. Foi um sucesso. Ele tinha todos os elementos característicos do original. Carro aberto, decoração, fantasia, tudo. E ele me parece que cumpriu exatamente o seu papel: papel revitalizador do Carnaval”.

Relação lança-perfume x Carnaval

Além das inúmeras características elencadas, Willys descreve três objetos que são a cara do carnaval, segundo ele: o confete, a serpentina e o lança-perfume. Proibido hoje em dia, o lança fez parte de muitas festas do Rei Momo e era usado com o objetivo de conquista.

“O lança-perfume surgiu na França. O carnaval brasileiro teve a influência muito grande de dois países: Itália e França. E com eles vieram o lança-perfume. Antes do lança, a gente teve a laranjinha, aqui em João Pessoa, no carnaval de 1910 por aí. Fabricava-se uma laranjinha, uma massa tipo um pão que colocava dentro o cheiro. Jogava, quando ela batia, vinha o cheiro. O lança-perfume no Brasil surgiu aproximadamente em 10. O principal no Brasil foi a Rodouro e este lança, tinha o objetivo de conquistar as damas e os cavalheiros. Passava uma dama e você borrifava o perfume nela e ela se voltava, se ela retribuir, é porque houve o flerte. Por que foi extinta? A partir dos anos 60 passou também a ser consumida para tomar o porre. É mais ou menos quando vem os Beatles, começam os anos 60, a revolução sexual, uma série de coisas e vem então o lança-perfume que passa a ser consumido violentamente e começam a morrer pessoas, inclusive aqui em João Pessoa morreram 3 pessoas, inclusive uma dentro do clube Astrea. Jânio Quadros então baixa um decreto fechando a fábrica do lança-perfume. Com o fim do lança-perfume, o carnaval perdeu muito, porque os ingredientes do charme eram a serpentina, o confete e o lança-perfume, na hora que a gente perdeu isto, a gente perdeu todo o encantamento, uma coisa mais amorosa, mais simpática, foi uma perda”, lamentou.



O que é o carnaval?

Mas o que é o carnaval para Willys? Ele mesmo responde. “Carnaval é uma lavagem, uma catarse, um devaneio, um deslumbramento. Ele me põe fora do meu lugar comum, me projeta em espaços siderais, me leva a emoções trans, como se eu saísse do meu lugar comum e me projetasse no horizonte bem distante onde as coisas ocorrem com beleza, charme, amor e alegria”, finalizou.

Então, como bem cantou Os Tribalistas, “Vamos pra avenida, desfilar a vida, carnavalizar”. E que venham carnavais e mais carnavais. E que ele sempre tenha seu fim, seguido de um reinício no ano seguinte.

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