segunda, 23 de abril de 2018
Abuso
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Feminicídio: a vítima nunca é culpada

Beto Pessoa / 08 de Março de 2018
Foto: Divulgação
Neste Dia 8 de Março, especialistas e coletivos dos direitos humanos defendem que, para além de presentear com rosas, o Dia da Mulher é uma data para denunciar os ‘espinhos’ que tornam ser mulher uma batalha diária no Brasil. Não bastassem as desigualdades salariais em relação aos homens, as cobranças sociais e o terceiro turno que muitas ainda exercem dentro de casa, elas precisam traçar estratégias para se proteger de um cotidiano de violências físicas e simbólicas que só crescem.

As agressões são variadas e acontecem até mesmo após a morte das vítimas, muitas vezes encaradas como culpadas pela violência sofrida. A roupa estava curta demais, o local era inadequado para uma mulher, foi assassinada porque era infiel: as justificativas não cessam e muitas vezes camuflam o machismo e a misoginia enraizados na sociedade, explica a psicóloga e professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Drª Juliana Sampaio, que faz parte do Fórum de Mulheres em Luta.

“As mulheres são culpabilizadas desde cedo. É comum que a mãe mande a filha usar short debaixo da saia, porque ela tem que se ‘proteger’ de um possível pedófilo, por exemplo, quando na verdade quem tem que ser combatido é o abusador. Ao invés de construirmos uma sociedade mais justa, estamos colocando as mulheres como objeto do olhar do outro, como se ela que tivesse que se defender de algo que é realizado pelo abusador, não por ela”, explicou a pesquisadora.

A grande questão, explica a Drª Juliana Veloso, é que essas ‘obrigações sociais’, como o short embaixo da saia, são processos de culpabilização disfarçados de boas condutas, que continuam por toda vida da mulher. “A criança tem que colocar um short, porque isso pode atrair um pedófilo. Mas na adolescência ela não poderá ir sozinha num bar, não poderá andar sozinha a noite, não poderá usar certas roupas, porque qualquer violência que ela sofrer será encarada como algo que ela provocou, que ela estava atrás”, destacou a pesquisadora.

Pesquisas que reforçam isto não faltam. Em 2016, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) ouviu 3.625 pessoas e apontou que um em cada três brasileiros acredita que, nos casos de estupro, a culpa é da mulher, foi o que disseram 33% dos entrevistados.

A afirmação é ainda maior entre os homens: 42% deles afirmaram que as mulheres que se ‘dão o respeito’ não são estupradas, argumento defendido por 32% das mulheres ouvidas. A pesquisa apontou ainda que 30% dos homens acreditam que a mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada, uma vez que isto estaria associado à promiscuidade, logo, aquele corpo pede por sexo.

Roupa da mulher não é motivação

A afirmação “É preciso se dar ao respeito” é a grande incógnita para quem lida com a violência contra as mulheres. Para a titular da Delegacia Especializada de Atendimento a Mulher (DEAM) da zona Norte de João Pessoa, Josenise Andrade, este pensamento, ao invés de denunciar o agressor, pune a vítima e esconde a motivação dos crimes contra a mulher, que em geral são movidos por machismo e ódio às mulheres, não pela roupa que elas usam.

“Essa culpabilização é muito comum nos crimes sexuais. Falam que a vítima estava com roupa curta, se insinuando. Mas sabemos que isso nem de longe é motivação. Atendemos uma idosa ano passado, por exemplo, que estava saindo para trabalhar, de manhã, com uma saia que passava do joelho, e o homem foi lá e a estuprou. O mesmo que acontece com crianças. Se a história está na roupa, essas pessoas estariam imunes a esse tipo de crime, mas não é o que temos visto”, explicou a delegada.

A titular da DEAM zona Norte reforça que o “respeito” cobrado às mulheres suaviza a intenção das violências e mascara a amarga situação de vulnerabilidade das vítimas. “Toda mulher tem medo. Eu tenho medo. Temos o direito de andar com a roupa que quisermos, sem que isso represente um perigo, mas na realidade não é assim. Você veja que muitos homens costumam andar só de bermuda nas ruas e nunca ouvi relato de uma mulher o atacando pelo fato dele estar sem camisa na rua. Então não é uma questão de vestimenta”.

Uma pesquisa rápida no Google aponta isso. Basta procurar pelas palavras-chaves “menina” e “estupro” para encontrar diversos casos por todo país: “menina estuprada dentro de escola”, “jovem violentada em casa pelo avô”, “adolescente é estuprada por trás da igreja” são algumas manchetes que corroboram a tese de que a violência está no comportamento do homem e não na roupa da mulher.

É o que coletivos de mulheres, como o Fórum de Mulheres da UFPB, criado para combater assédio e violência de gênero dentro da universidade, tem transformado em bandeira de luta, explica a Drª Juliana Sampaio, pesquisadora do movimento.

“Para você ver, dentro da universidade, que deveria ser um espaço seguro, temos casos de professor abusando aluna, professora sendo abusada, bem como servidoras. O que nos violenta é a ideia de que o homem tem poder sobre a mulher”, disse.

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