terça, 17 de julho de 2018
Saúde
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Zika ainda pode fazer novas vítimas, diz médica

Fernanda Figueiredo / 20 de maio de 2018
Pioneira na comprovação da relação do zika vírus com a microcefalia, a médica Adriana Melo conversou com a reportagem do Jornal Correio da Paraíba e falou sobre os principais desafios que surgem após dois anos do nascimento da geração de crianças com a síndrome zika no Nordeste. Em 1º de julho deste ano, após muita luta e desprendimento de projetos pessoais para ajudar uma causa pública, Adriana inaugurou a sede do Instituto de Pesquisa Joaquim Amorim Neto, em Campina Grande.

A instituição tem como objetivo fornecer tratamento às vítimas de microcefalia e síndrome congênita do zika vírus, além de prevenção, assistência e pesquisa sobre a doença. A médica, que tem doutorado pela Unicamp e há mais de 20 anos trabalha com Medicina Fetal, ainda luta para relacionar os motivos do surgimento da doença que, segundo ela, pode reaparecer a qualquer momento e fazer novas vítimas.

Entrevista

- Quais são as pesquisas que você está desenvolvendo?

- O Ipesq participa de várias pesquisas. Por a Síndrome Congênita do Zika Vírus ser uma doença nova, acompanhamos  diariamente ou mensalmente as crianças que atendemos, para ver como é o ganho de peso, qual o percentual das crianças que tem infecção urinária, que é um problema bem recorrente entre elas, como está o desenvolvimento e como vai ser a evolução da saúde dos órgãos dessas crianças, as doenças que vão aparecer. Outra coisa importante são as pesquisas relacionadas ao tratamento. Existem várias no sentido de entendermos como essas crianças estão evoluindo. O Ipesq oferece um tratamento que chamo intensivo, no qual utilizamos métodos internacionalmente conhecidos. Fizemos uma junção de métodos americanos e europeus. Condensamos em um protocolo e aplicamos diariamente para essas crianças, cinco vezes na semana, algumas duas horas por dia, outras uma hora.

- Qual o objetivo desses estudos?

- Nosso objetivo é comprovar se o tratamento realizado por profissionais qualificados e extremamente capacitados vai interferir na evolução e se podemos reduzir sequelas, essa é a principal pesquisa. Fora isso, fazemos pesquisas com outras instituições para avaliar também o risco das mulheres, estando grávidas e sendo portadoras de zika, passarem  a doença para os bebês que, posteriormente, podem até desenvolver a microcefalia. Também investigamos qual o risco de futuras mães que já tiveram zika antes.

- O que tem sido descoberto sobre essa doença?

- Em relação à doença temos descoberto novas coisas a cada dia. No começo vimos que são crianças que podem ter além do dano neurológico, o dano visual e dano auditivo. Problemas também na deglutição dessas crianças são recorrentes, até pelo dano neurológico. Elas têm problemas ortopédicos, alterações no quadril, na coluna, infecções urinárias de repetição por conta do dano neurológico na bexiga, entre outras dificuldades. Estamos descobrindo as sequelas nessas crianças a partir do momento que elas vão crescendo. Lembrar que essa é a primeira geração que teve microcefalia decorrente do zika vírus no mundo. Então, estamos descobrindo essa doença, e é de extrema importância que a gente possa intervir o mais cedo possível nas alterações que estamos detectando.

- Quem já teve zika, pode ter novamente?

- Parece que essa doença confere uma imunidade ao portador, ou seja, se você teve zika, a chance de você ter de novo é muita baixa, a não ser que exista uma mutação como na dengue, que existe quatro tipos. Mas, por enquanto, o que sabemos é que uma pessoa só pode ter o vírus uma vez. No organismo, esse vírus pode ficar por mais tempo, por mais de seis meses, principalmente no sêmen, por isso a orientação nos casos suspeitos é que se use preservativo, além do repelente. Temos orientado também que, se a mãe teve zika, deixe pra engravidar pelo menos seis meses depois. Outra pesquisa que o Ipesq está participando sugere que parece seguro engravidar depois de ter tido zika.

- O Brasil pode dizer que está livre desse problema? Por que não?

- Nem o Brasil nem outro país pode dizer que está livre do zika. Porque é um tipo de vírus que a gente chama de RNA Vírus, que pode reaparecer. Quando a gente tem um vírus que diz que ele se humanizou, é que ele estava ali quietinho, mas ganhou a propriedade de infectar seres humanos, então até que seja descoberta uma vacina, como foi o caso da paralisia infantil, ele pode voltar. Agora esta em fase de latência, em alguns reservatórios sem se multiplicar, mas pode voltar. Ele é muito parecido com a dengue, não sabemos se pode haver mutação e passar a haver mais de um tipo de zika.

- Quais cuidados ainda precisam ser tomados para que não aconteça um novo surto?

- Para evitar o novo surto temos que pensar na situação como um todo. Proteção pessoal com uso de preservativo e repelente,  e proteção a nível populacional. Qual o grande problema que trouxe a zika? Falta de controle do mosquito. Como controlar o mosquito? Quais as providências que a gente deve tomar? Temos que discutir saneamento básico, acesso à água de qualidade, destino do lixo, entre muitas outras questões.

- A Ciência descobriu por que a doença passou a se desenvolver principalmente nos Estados do Pernambuco e Paraíba?

- Até hoje procuramos fatores para explicar porque tivemos um número maior de casos na região Nordeste, nos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Bahia e Pernambuco. Podemos estar falando desde um fator genético quanto ambiental. O Ipesq participa de pesquisas avaliando tanto esse fator genético, quanto a presença de co-infecções. Ainda é muito cedo para chegarmos a conclusões.

- Qual a questão relacionada a essa luta contra o zika vírus que mais lhe preocupa?

O mais importante, além do esclarecimento da doença, é tratar essas 3 mil crianças que existem no Brasil.

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