quarta, 21 de fevereiro de 2018
Política
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Reuso de água já é realidade, mas faltam políticas públicas de incentivo

Luiz Carlos Sousa / 26 de junho de 2016
Foto: Assuero Lima
 

De cada cem litros de água distribuídos, 80 litros vão para o esgoto após utilização na indústria, comércio e residências e acabam nos mananciais que abastecem as cidades. Segundo professor Ivanildo Hespanhol, fundador e diretor do Centro Internacional de Referência em Reuso de Água, a solução mai viável é tratar a água após a utilização e reaproveitá-la. Para ele, há tecnologia disponível, inclusive mais barata do que a transposição de águas. Nessa conversa com o Correio, Ivanildo Hespanhol fala sobre a qualidade da água tratada no reuso, diz que ela é viável economicamente e mais segura do que a disponível hoje. Confira porque.

- O reuso da água é uma das alternativas para a gestão de recursos hídricos no futuro?

- O Brasil está muito atrasado na área de reuso. Os países em desenvolvimento e os industrializados já partiram há muito tempo para a prática de reuso de água.

- Nenhum Estado se interessou no Brasil?

-  Quem iniciou já algum tempo, fazendo, inclusive, grandes investimentos, foi a indústria, que está estabelecendo sistemas de tratamento para recuperar os resíduos delas tratados e reutilizar no processo industrial ou em outros processos na própria indústria.

- A reutilização pode ser feita indefinidamente?

- Depende do sistema de tratamento que se instala. Os sistemas mais convencionais de tratamento, por exemplo, não removem sais. Se a gente continuar indefinidamente reciclando num sistema convencional, vai acumulando sais e chega uma hora que não se pode mais utilizar aquela água.

- Isso para fins de consumo humano?

- Ou para algum outro processo. Por exemplo: posto de gasolina. Eles têm uma possibilidade de coletar água de lavagem de veículos e ir reciclando, mas depois de dois, três ciclos por causa do sabão – que é um sal – se acumula e a água, começa a ficar com mau cheiro e fica turva sem qualidade para lavar carro.

- Mas há possibilidade de reuso permanente?

- Para isso a gente tem que fazer uma mistura de processos. Trata uma parte reciclando e misturando água potável. Sabe-se quanto se deve por de cada uma para manter essa água circulando por determinado tempo.

- Não há alternativa?

- Há a opção de um tratamento avançado, que remova os sais de uma maneira total, com um dessalinizador ou com membranas de osmose reversa, que, teoricamente removem tudo. Só passa água. Temos membranas de micro-filtração, de ultrafiltração, de nanofiltração e de osmose.

- Qual a diferença entre elas?

- Uma membrana de ultrafiltração, que é a mais usada hoje, já remove vírus e bactérias, mas uma parte dos sais passa. Por exemplo, a cor que vem no esgoto não tem sólidos, é solúvel e grande parte da cor não é removida na ultrafiltração. Teria que passar po outro processo: a nanofiltração já remove um pouco de cor. Cálcio e magnésio que dão dureza à água já são removidos na nanofiltração. Agora sódio, cloro e flúor só são removidos com osmose. São barreiras que se vai pondo conforme a necessidade do material que se quer tratar e conforme a qualidade de água que se pretende obter.

- O custo?

- A técnica de membranas começou mais ou menos em 1950. As membranas de osmose eram de acetato de celulose, um plástico, rígidas que precisavam de grande pressão para serem atravessadas. Tinha um custo muito alto de energia. As atuais – de micro, ultra, nano e osmose – são poliméricas: você olha é como uma folha de papel.

- O que impede que o Brasil tenha uma política mais agressiva de reuso de água?

- Faltam basicamente duas coisas, uma delas vontade política. Não há hoje uma decisão, a nível federal, para implementar o reuso no Brasil.

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- Qual a segunda?

- A falta de um arcabouço legal realista. Falta uma estrutura de gestão e normatização do reuso. No Brasil há uma tendência – isso vem de São Paulo – de fazer normas extremamente restritivas, que têm, como única função, inibir a prática do reuso. Porque não se consegue obter a qualidade de água para reuso, mesmo não potável.

- O senhor acredita na viabilidade do reuso se a água que abastece algumas cidades sequer tem qualidade?

- De maneira geral, os mananciais nos grandes centros urbanos estão poluídos pelos resíduos tradicionais e pelos chamados poluentes emergentes. O cenário poluidor é muito diferente do que era há pouco tempo. Na realidade era a mesma coisa, só que hoje descobrimos mais e a magnitude é maior.

- O que o senhor destacaria?

- Hoje temos hormônios, fármacos – que até pouco tempo não eram no nível de hoje. Também temos cosméticos e nanopartículas, todos agressivos porque são usados e eliminados nas fezes, na urina e acabam no esgoto, que não é tratado, cai num manancial que é utilizado no abastecimento, então vai poluir.

- Os sistemas de tratamento não elimina esses poluentes?

- Os sistemas tradicionais utilizados não removem. A filtração, que é o processo tradicional usado no Brasil faz a coagulação, sedimentação, filtração e desinfecção com cloro, um processo que existe há mais de 200 anos, que foi enfocado para remover partículas sólidas. E hoje o problema não são mais os sólidos, mas os compostos que aparecem em concentração muito baixa na água e não são removidos pelos sistemas tradicionais de tratamento.

- Mas de potencial ofensivo à saúde humana...

- Muito grande. Por exemplo, hormônios, nós temos hoje uma série de hormônios naturais – o estradiol, que é gerado pela placenta e há hormônios sintéticos, que causam problemas maiores, como o etnilestradiol – principal componente estrogênico da pílula anticoncepcional que está em todo lugar hoje, já que o uso da pílula foi disseminado no mundo inteiro porque grande parte das mulheres utiliza isso.

- Mas ele chega à água?

- Quem tomou água hoje ingeriu algumas partículas desse hormônio. Esse hormônio já começou a mostrar problemas de saúde pública em geral: há lugares em que a concentração dele é tão alta que está promovendo problemas de infertilidade. Nos sistemas mais avançados de tratamento, nós conseguimos removê-los. Há processos capazes de produzir uma água segura.

- O que o senhor quer dizer com água segura?

- Que nós podemos partir, por exemplo, do esgoto e obter água potável. E podemos produzir água com qualidade muito superior a potável. A indústria farmacêutica exige uma água de qualidade melhor que a potável, por exemplo, para injetáveis. E podemos produzir essa água a partir de esgotos.



-Há algum processo que exige água mais pura ainda?

- Há na indústria eletrônica para lavar CDs, chips, etc. É praticamente só H2O. Tem que se tirar tudo dela. E nós podemos fazer isso. Evidentemente que o custo vai aumentando. Nós consideramos o reuso potável uma alternativa para as grandes áreas metropolitanas, como São Paulo.

- Por quê?

Porque o reuso potável tem o que chamamos de reuso potável indireto, que significaria tratar uma água num certo nível e jogar essa água num reservatório, onde uma estação de tratamento capta, trata e distribui como água potável. Indireto porque é diluído na natureza, quando tem um manancial que não seja tão poluído, senão não adianta. Agora o reuso potável direito é, além desse tratamento o que gente chama de sistema redundante: mais de uma barreira para eliminar o mesmo poluente.

- A falta de uma política de incentivo ao reuso também não tem a ver com a generosidade com que o Brasil foi beneficiado pela natureza com tanta água doce?

- Depende. São Paulo, por exemplo, está situado num planalto a 750m acima do nível do mar. E estamos na cabeceira do rio Tietê. Não há  água para 20 milhões de habitantes. O que se está fazendo hoje em São Paulo é totalmente errado: estão trazendo água de fora, de cada vez mais longe, de bacias adjacentes ou longínquas, a um alto custo e tirando água de bacias que já estão com problemas de estresse hídrico.

- E a que custo?

- Esses aquedutos custam muito caro, porque toda vez que é preciso renovar o sistema tem que se ir cada vez mais longe e, às vezes, com bombeamento de alturas muito grandes. Dois sistemas que trazem águas para São Paulo a um custo absurdo de R$ 5 bilhões. E há um bombeamento de 360m a uma vazão de 5mil litros por segundo. É um consumo de energia enorme.

- Se a tecnologia do reuso fosse utilizada se reduziria quanto?

- Para os mesmos metros cúbicos por segundo gastaríamos R$ 1 bilhão. A mesma quantidade e com uma grande vantagem: não se jogaria esgotos no rio. Se você traz 10m³/s de água externa gera 8m³/s de esgoto - 80% passam pela indústria, pelo comércio, pelas residências e viram esgoto. E aí é preciso tratar o esgoto.

- A interligação de bacias seria uma solução?

- Depende do custo. Por exemplo, no Nordeste, a transposição de águas do São Francisco é a única solução porque não tem outro jeito, não tem água. Mas o custo é enorme. Se tivesse água, fazer o reuso seria muito mais barato do que essa transposição. Agora o reuso que a gente tenta fazer em São Paulo seria salutar porque o custo seria bem menor. Teríamos água de altíssima qualidade com a chamada água de dentro, água que está lá, a prova de seca.

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- Qual o consumo de água de São Paulo hoje?

- Em torno de 80m³/s – 80 mil litros por segundo de água. Na seca o consumo caiu por causa da gestão da demanda, mas já está voltando aos níveis anteriores à crise. Se a seca voltar teremos problemas.

- Quais?

- Hoje o conceito de saneamento mudou. Antigamente considerava água, esgoto e lixo. Hoje o conceito foi ampliado para saneamento ambiental: água,esgoto, lixo, drenagem urbana, controle de transmissores de doenças, habitação salubre e poluição atmosférica.  E nós estamos pensando só em água? Temos que tratar o esgoto.

- E a solução?

- Saúde pública, meio ambiente e proteção do consumidor é o sistema de reuso com tratamento avançado. Temos tecnologia para sair desse tratamento convencional de filtração e usar essa tecnologia que desenvolvemos e a temos a custo compatível e em condições de oferecer uma água segura.

- E como resolver o problema do preconceito contra o reuso, por exemplo, a partir do esgoto?

- Existe esse preconceito, a chamada percepção popular contra o reuso. Fala-se: vou tomar água que era esgoto. Nos países que já fazem o reuso isso já foi superado: na Namíbia se faz o reuso potável direto há 40 anos -  África do Sul, Austrália, os Estados Unidos têm seis estações. Eu fiquei dez dias na Namíbia participando de um estudo e fiz questão de tomar água da rede. E sobrevivi e estou aqui contando a história.

- Será o futuro?

- O sistema é viável economicamente, porque o reuso potável indireto – se você trata para trazer a água para um reservatório, onde ela é captada, tratada de novo e distribuída – tem um custo altíssimo, porque se tem uma linha uma rede – numa cidade como São Paulo só de desapropriação se gasta uma fortuna para a rede. O reuso potável direto não tem rede. Você trata e põe na rede de distribuição existente. Então, o custo vai lá para baixo.

- E quanto à percepção popular negativa?

- Os países que fazem o reuso conseguiram superar, com campanhas, propaganda, jornal, educação. É transformar o preconceito em conceito. A Califórnia faz reuso potável há muito tempo. E 98% da população aprova. É viável tecnicamente, em termos econômicos, para saúde pública e o povo, sendo educado, aceita, porque sabe que vai tomar uma água de altíssima qualidade. E hoje sabe que não está tomando essa água. E sabe também que vai ter segurança no abastecimento.

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