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Entrevista: O médico da conversa final conta como prepara pacientes para a morte

Luiz Carlos Sousa / 23 de abril de 2017
Foto: Arquivo pessoal
 

O médico paulista Ricardo Caponero é especialista em um ramo da medicina pouco comum: o preparo do paciente para a hora da morte. Ele tem a conversa final, uma iniciativa que permite ao doente se preparar, uma espécie de prestação de contas emocionais, reatamento de relações, perdão, solução de dramas que não foram resgatados. E segundo ele, não é uma conversa para se ter nos momentos finais. Quanto mais cedo a gente começa a ter essa conversa sobre a vida e a morte, mais efetivo a gente é”, diz. Nessa entrevista ao Correio, Ricardo Caponero, que esteve em João Pessoa para participar de um evento no Hospital Padre Zé,  diz como esse processo deve ocorrer, fala do que importante como significado de vida e diz que o importante é morrer com a consciência tranquila com a sensação do dever cumprido.  “O que dá significado para a vida é o legado que você deixou não os bens que construiu” diz.

- O que vem a ser a conversa final com o paciente?

- É uma grande novidade num momento delicado. Na verdade ela é quanto mais efetiva quanto antes a gente começa. Se for uma conversa final no último dia de vida, será muito improdutiva, porque você pode mudar muito pouco de sua vida no último dia. Então quanto mais cedo a gente começa a ter essa conversa sobre a vida e a morte, mais efetivo a gente é.

- O momento então é o agora?

- O ideal para se começar é agora. Começar a pensar que somos mortais, isso é uma possibilidade concreta em nossa vida. É começar a refletir não só no jeito em que se vai morrer, mas na v ida que se está levando. É dá mais significado a vida para que a morte seja tranquila sossegada, que se possa ter a sensação de missão cumprida, dever cumprido. Deixar uma conversa dessa para o último momento de vida, a gente pode fazer muito pouco. Quanto mais cedo a gente começa a ter essa conversa, melhor é.

- De certa forma é preciso ter um pouco de humor...

- Parece engraçado: se não estou morrendo, para que falar isso agora? A gente está morrendo, a cada dia se tem um dia a menos de vida. A dificuldade está em as pessoas enfrentarem isso, aceitar que a morte é uma possibilidade e tentar adiar essa conversa para o último dia.

- Não é uma conversa difícil para o brasileiro entender?

- É muito difícil. Começa que brasileiro quase não faz seguro de vida, porque acha que não vai morrer. Faz seguro de vida quando está com 90 anos. É um problema da cultura brasileira, que precisa mudar. Não é uma questão de pragmatismo é uma cultura adequada para a realidade. Não pensar sobre isso é que não e adequado. Essa mudança cultural é parte do que a gente tem que fazer nesses cuidados paliativos sobre a vida e sobre a morte.

-Muita gente acredita que essa conversa só deve haver se o personagem em questão estiver com alguma doença grave?

- Pode-se ter uma doença, como o câncer que pode se arrastar por alguns meses, mas pode-se ter uma doença que pode abreviar sua vida em uma semana: um enfarte e morrer algumas semanas depois, uma pneumonia. Então, nem sempre se terá o tempo suficiente para conversar sobre isso. Então, deixar do meio para  o final, às vezes, não dá tempo para a conversa. A gente vê pessoas que deixaram grandes problemas da vida sem resolver e nos últimos momentos querem resolver o que não fez na vida inteira, esquecendo-se que a morte existe. É uma mudança cultural que tem que acontecer.

- Quais são esses problemas a que o senhor se refere?

- Não são referentes aos bens materiais, porque herança, testamento há meios para resolver. Se você não ganhou um milhão de dólares não será nos últimos dias de vida que irá ganhar. São mais os dramas emocionais, os vínculos que não confirmou as coisas que não construiu, coisas de relacionamento mesmo, de significado da vida. O que dá significado para a vida é o legado que você deixou não os bens que construiu.

- Às vezes, correção de rumos, reatamento de relações, perdão?

- É uma questão de legado mesmo. As pessoas lembram pelo que você foi. Ninguém lembra ah aquele que morreu é o que tinha uma Mercedes?  Não aquele cara que era malvado, que brigava com todo mundo. O lado material, a lei define bem como se resolver, quem é o herdeiro, como deve ser a partilha. Deixando ou não o testamento, a lei vai dividir. Mas os vínculos emocionais não há lei que divida. Então, o filho que você não viu crescer, a mãe que você não agradeceu pelo que ela fez, o irmão com quem estava brigado são vínculos que não se consegue resgatar facilmente.

- Mas esse tipo de conversa traz conforto no final da vida, de que vai adiantar essa correção?

- Traz muito conforto. Morre bem quem viveu bem. A pessoa que teve vida satisfatória, vínculos duradouros, profundos, que foi útil para os outros deixa o legado de sua existência. A pessoa não quer morrer, mas morre sabendo que fez muita coisa na vida. O cara que fica esperando, que foi acumulando bens materiais para tentar viver depois na hora que vai morrer não tem nada disso, não deixou nada. Na verdade, quando a gente fala sobre morte é construir esse significado da vida para que possa morrer com uma qualidade melhor. Tentar viver o máximo possível. Quem viveu bem está satisfeito.

- Algo como viva bem, viva o agora?

- Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta.

-Será que é possível aplicar essa filosofia nos dias atuais, onde se corre em busca de resultados o tempo todo, como se não houvesse algo importante afora conexões,  mensagens instantâneas e redes sociais?

- É o processo capitalista. Tem que consumir, consumir, consumir. Essa velocidade que a gente cria é uma velocidade artificial, porque o que de fato se precisa da vida é muito menos do que isso. Essa necessidade de poder e conquista acaba levando a uma corrida, que deixa coisas importantes de lado.

-Por exemplo...

- Eu tinha uma paciente que tinha três empregos. E aí ela me falou: cheguei em casa, meu filho estava comendo com colher e usando a expressão “oxente mãe”. Estava sendo mais filho da empregada do que meu. Se eu brigar com ele e ele chamar a empregada de mãe eu bato nele. Não tem tempo para o filho. Dá bem materiais, mas não convive. Outro paciente trabalhou conquistou bens materiais, carros, barcos, etc. e não viu o filho crescer, não conviveu com a mulher. Teve um câncer. Uma correria para ter  um monte de coisas que não é o mais significativo da vida.

- Mas a Medicina também está assim na velocidade da internet...

- Em São Paulo há um movimento “slow medicine”, uma medicina lenta, que conversa uma hora com o doente, cuidando da pessoa como um todo e não tratar a febre, o sintoma, a dor, que também está ligada a essa coisa de velocidade de produtividade – tem muita gente fazendo consulta hoje em sete minutos.

- Não dá nem para a entrevista com o paciente.

- Não dá para você saber da vida de alguém em sete minutos. Então, tem gente voltando com a medicina mais lenta, mais sossegada, de participar. Aquele médico de família de antigamente.

- Será que há compatibilidade?

- Tem que haver. A gente tem que mudar esse mundo capitalista. Alguma coisa deu errado. Contaram pra gente que se tivesse microondas, celular teria muito mais temo para o lazer. Você tem mais tempo para seu lazer? Alguma coisa está errada. A tecnologia foi criada para facilitar e está dificultando a vida. Hoje  se você não responde a um email imediatamente recebe uma ligação no celular perguntando: não viu meu email? A velocidade que se vive não levou a uma melhor qualidade. A gente precisava resolver tão rápido? No tempo que se mandava uma carta não resolvia? O certo é que WhatsApp, internet, redes sociais, velocidade não estão satisfazendo em termos de lazer, ócio, qualidade. É uma velocidade que nos dá uma falsa eficiência que não condiz com a realidade.



- Como o senhor viu a afirmação do ministro da Saúde, Ricardo Barros, que os exames que não confirmam uma patologia dão prejuízos ao SUS...

- Mas isso é verdade. Porque estão perdendo a anamnese. Os exames complementares foram feitos para confirmar ou não uma hipótese e não para substituir a geração da hipótese. É importante conhecer o doente, conhecer a história dele.

- Será que dá para conhecer o paciente em sete minutos como o senhor disse que é o tempo que alguns médicos estão levando para fazer a consulta?

- Aí pede um exame, faz uma volta, o paciente terá que se submeter a nova consulta. A pressa não leva a uma maior efetividade. Por isso o próprio Ministério da Saúde está mudando. A medicina integrativa do SUS nada mais é do que dá mais atenção ao paciente com acupuntura, relaxamento, ioga, fitoterapia. Já que o médico não vai dar atenção, esses métodos dão.

- Essa atenção pode ser decisiva para que o paciente não apenas resolva essas pendências da conversa final, mas melhore fisicamente?

- Ouvir o paciente é o melhor remédio. É o efeito do avental branco. O jeito de se dar o remédio faz ele funcionar. Isso é tão importante na medicina que o tamanho do comprimido e a cor importam. Você nunca verá um tranquilizante grande, porque o tranquilizante grande vai me matar – nunca vou acordar mais. Por outro lado, não se ver um antibiótico pequeno: curar uma pneumonia com algo desse tamanhinho? Tranquilizante 0,25mg. 0,5 mg. Antibiótico 500 mg, 850mg. O jeito de apresentar o remédio tem efeito subjetivo. É o lado psicológico que funciona. E funciona também pela atenção que se dá ao paciente. A medicina alternativa é muito eficiente porque dá muita atenção ao doente.  O contato humano é o maios importante e as pessoas sentem falta dele.

- Há também um resgate ético?

- O resgate da boa medicina e tirar um pouco o efeito do marketing. O paciente já chega pedindo um pet scan – exame sofisticado – sem necessidade alguma, porque viu num jornal que o exame pode ser feito em qualquer lugar. Faz o exame e tem que levar o resultado para o médico analisar. O exame não detecta nada, ou seja, não precisava ser feito. Gasta-se muito porque se viu a propaganda no jornal. E o diagnóstico poderia ser feito por um PSA, Papa Nicolau, etc. Tem que ter cuidado com a propaganda.

- E há a máxima: nada substitui a clínica médica...

- Ela é imperiosa. Conversar com o paciente ainda é o melhor remédio, é o mais eficiente.

- Conversar com o paciente exige lucidez, mas, às vezes, o paciente é sedado...

- A intenção da sedação é tirar a consciência quando não se consegue tirar o sintoma de outra forma. Não se consegue amenizar a dor, acabar com a falta de ar, aí tirar a percepção desse sofrimento vai ser a única opção que a gente tem. Não se consegue tirar o sofrimento, tira-se a percepção dele. É uma forma de produzir alívio. É usada raramente, quando é necessária. Não é para matar o paciente nem tirar a consciência. A intenção primária é aliviar do sofrimento.

- Eutanásia, ortotanásia e outros métodos de abreviação da vida. Como eles devem ser vistos diante da necessidade da conversa final?

- Eutanásia é abreviar a morte com essa intenção. Se faz o procedimento para causar a morte. Isso é proibido no Brasil, mas é aprovado na Suíça, na Bélgica e em outros países. Cabe uma discussão filosófica a respeito disso? Cabe. A ortotanásia é a morte que acontece na hora certa, sem interferência. Nosso problema é a distanásia, que é uma pessoa que quer morrer e está adiando o processo, muitas vezes com sofrimento – aquele paciente que está na UTI há três meses em coma, dependendo de aparelhos e morre. Se ele sair da UTI nossa que bom, ele reagiu, valeu o esforço. Aí ele morre depois, de que adiantou o esforço dos três meses? Isso foi distanásia: tentar prolongar a vida de forma artificial, com sofrimento, sem nenhuma qualidade. Isso tem que ser evitado.

 

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