quinta, 20 de setembro de 2018
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Vida de presas é o tema de exposição fotográfica na Usina Cultural

André Luiz Maia / 17 de janeiro de 2018
Foto: Reprodução
Mulheres cerceadas de sua liberdade por cometerem delitos convivem diariamente com diversos estigmas e sofrem por outros fatores que se diferem dos detentos masculinos. Curiosa a respeito deste universo, a fotógrafa pernambucana Priscila Urpia decidiu adentrá-lo com o projeto Ovelhas.

Nessa quinta-feira (18), o público pessoense poderá conferir uma parte dessa imersão na exposição homônima, realizada na Usina Cultural Energisa. Ao todo, são 24 fotografias que revelam a intimidade das reeducandas.

“Acho importante utilizar a fotografia porque ela consegue chegar a lugares que as palavras às vezes não alcançam. É preciso usá-la para entendermos nossa realidade”, pontua a fotógrafa, em entrevista ao Correio.

O local escolhido foi a Colônia Penal Feminina do Recife. Foram anos visitando frequentemente o local, entrando em contato com o cotidiano das detentas, suas histórias e sonhos. “Eu fiz esse trabalho inicialmente em 2014, um projeto de conclusão do meu curso. Retornei em 2017 e encontrei apenas três das mulheres que havia contatado na época, o que de certa forma me deixou feliz, já que boa parte delas estava em liberdade e com suas famílias”, conta Urpia.

A curadoria da mostra fica por conta do fotógrafo Elvio Luiz dos Santos e conta com conta com incentivo do Funcultura/Fundarpe, Secretaria de Cultura do Governo do Estado de Pernambuco e com o apoio institucional da Secretaria de Ressocialização do Estado de Pernambuco (Seres), Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Governo de Pernambuco e da Usina Cultural Energisa (Grupo Energisa).

Detalhes reveladores

Urpia afirma que se sentiu motivada a trabalhar a temática da privação de liberdade do gênero feminino por entender que há diferenças essenciais entre os crimes cometidos por mulheres e por homens. "As motivações são diferentes, o tratamento que a sociedade e até mesmo as famílias dão a essas mulheres são diferentes", pontua a fotógrafa.

Visitar a Colônia Penal Feminina do Recife regularmente fez com que ela atestasse algo que já tinha noção através de pesquisas e estudos estatísticos, mas que só ganhou seu verdadeiro peso ao ver de perto essa situação.

“São coisas que parecem pequenas, mas são muito reveladoras. Os homens, quando presos, têm um índice de visitas de parentes e companheiras de aproximadamente 90%. Nas unidades prisionais femininas isso cai para menos de 10%. As mulheres, quando cometem algum tipo de delito, são abandonadas, os companheiros rompem os laços e encontram novos pares. Há um estigma muito grande imputado à mulher que é presa”, afirma.

Priscila entende que a questão prisional e da criminalidade brasileira é complexa. “Infelizmente, não vemos um espaço saudável e que realmente tenha recursos suficientes para reeducar e reinserir essas pessoas na sociedade. Tem homicidas e estelionatárias, mas a maioria dos casos das detentas são por conta do tráfico de drogas, a maioria implicada por ajudarem seus companheiros em crimes do gênero. Às vezes são anos de espera por um julgamento, um alvará de soltura. Até lá, resta esperar”, pontua.

Com a exposição, ela espera poder mostrar essa realidade a quem não tem sua liberdade privada: “Também quero fazer um livro com os relatos que colhi ao longo dos anos. São histórias incríveis”.

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