segunda, 19 de fevereiro de 2018
Geral
Compartilhar:

Sucesso na internet, integrantes do Carreta Furação travam ‘guerra civil’ pela dignidade

Érico Fabres / 29 de Abril de 2016
Foto: Divulgação
Alerta de spoiler! Não, não é sobre o novo filme da Guerra Civil, mas sim sobre os antigos dançarinos da formação original do vídeo do Carreta Furacão (que é de 2010/2011), que abandonaram os trenzinhos há pelo menos três anos, e agora desejam voltar. O tempo e a falta de valorização derrotaram o Capitão América, ‘o primeiro vingador’. O sucesso no youtube e que agora toma conta de toda a internet e até em games veio tardiamente e não pôde impedir ‘Pretin Black’ de virar um vidraceiro quase comum, pois se passa incólume no meio da população nacional. O mesmo não acontece em Ribeirão Preto, onde é reconhecido por onde anda.

Agora, o #TeamCap pretende travar uma batalha não contra Tony Stark, mas sim contra o esquecimento e a favor da valorização, além da dignidade. Além dele, Fofão, Popeye e o palhaço já disseram sim, falta Mickey se unir a eles. O primeiro passo seria uma página na internet, que já está sendo elaborada.

Enquanto isso, Pretin Black, o Capitão América do vídeo, diz que vai ficar na torcida para que seu homônimo vença o Homem de Ferro nas telas do cinema, onde o confronto começou na quinta-feira, 28. Hoje, ele assiste aos novos capitães e sente saudade, afinal desde os 13 anos dançava.

“Eu sinto falta, sempre foi a minha vida, já terminei até com namorada por conta disso, mas o dançarino não é valorizado, ele vai fazer festas ou em escolinhas e ganha RS 5 por hora, não tem como sobreviver só disso”, conta ele, que hoje possui 24 anos. Ele conta que fora de onde mora, poucos sabem que eles já pararam, mas estranha quando vê o seu personagem quando a pessoa que veste o traje é branca. “Eu sou negro, não tenho como ter virado branco”, conta em áudio pelo Whatsapp, aos risos.

Personagens buscam investidor para o retorno

13023529_1168227083212088_154950121_n

O Mickey original do Carreta Furacão, que preferiu não se identificar, hoje trabalha com instalação de ar condicionado. É dele o canal do Youtube onde foi publicado o vídeo do “Siga em frente, olhe para o lado, se liga no mestiço na batida do cavaco”, que hoje faz sucesso no Brasil. Ele abandonou a dança em 2012, pois não se sentia valorizado ganhando, muitas vezes, R$ 4 por apresentação de uma hora. “Hoje quando vejo na rua o pessoal dançando, vejo com tristeza, porque apesar de ser algo que fazíamos e gostávamos, não havia como se sustentar com o que é pago”, conta ele.

De acordo com o Fofão do grupo, o que impede o retorno da formação original do grupo é a falta de um investidor, já que nem as fantasias eles possuem mais. O que restou mesmo foram as lembranças junto ao sentimento de tristeza por saber que não fazem mais parte de algo que ajudaram a construir. “Nós somos parte disso e não estamos colhendo nada dos frutos, precisamos voltar”, diz ele, que reafirma o que Pretin já havia revelado, que a filmadora utilizada para gravar a música do youtube foi emprestada pela namorada de um segurança do trenzinho.

O vídeo original no youtube:

https://www.youtube.com/watch?v=tmJ0tzAZ4aM

O trailer do filme sobre os dançarinos de trenzinhos:

https://www.youtube.com/watch?v=FOekZNGG5ws

Falta de valorização e filme contando história

Para Gustavo Alves, 21 anos, que presenciou a história de Pretin e companhia e que também atua como dançarino até hoje, os ‘bichinhos’ como eles falam não são valorizados. Chegam a trabalhar quase 50 horas somente de festas e apresentações em escolinhas por semana, fora o tempo de deslocamento, ganhando menos de R$ 10 por hora.

Por trabalhar, ele dança aos finais de semana e por hobby, como muitos ainda fazem. Ele conta que desde pequenos, todos em Ribeirão Preto querem fazer parte de alguma forma dos trenzinhos e considera isso bom, já que tira muitas crianças do mundo das drogas e da violência, mas que não é uma profissão, pois a remuneração é quase insignificante, apesar da alegria que o trabalho devolve.

Os trenzinhos, que existem desde 1940 na região e que agora podem ser conhecidos também fora de São Paulo e Minas Gerais, renderam até mesmo um filme, que deve ser lançado em breve: “Rebolão, mas sua irmã gosta”. O universitário Gabriel Mendes Dias, 25 anos, é o idealizador e diretor do filme, um documentário que retrata a rotina dos trenzinhos e carretas de Ribeirão Preto mostrando a dimensão e importância que eles têm para os jovens da cidade.

“É um trabalho, mas nem os próprios meninos enxergam como uma profissão, o foco deles não é ganhar dinheiro e sim chamar atenção através da animação, mesmo com o preconceito que eles sofrem, eles optam por descarregar as angústias da vida fazendo a alegria dos outros, escalam, pulam, correm ganhando quase nada”, finaliza.




 

 

Relacionadas