quarta, 18 de outubro de 2017
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Professor Trindade retrata ‘cenas da infância’ em sua coluna deste domingo

João Trindade / 18 de junho de 2017
Foto: Rafael Passos
Cenas da infância

Cena 1 – Cédulas de cigarro

Nos meus dias de criança, houve uma época em que brincávamos com cédulas de notas de cigarro. E, no nosso mundo, aquele dinheiro valia, de verdade! Às vezes, na imaginação; outras, nem tanto.

Os valores eram fixados de acordo com a dificuldade de se achar; de modo que uma carteira de Eldorado valia menos que a do Continental; e esta menos que a do Holliwood.

As que valiam mais eram as de Minister e Carlton; na ordem respectiva.

Na época, a Souza Cruz distribuía cigarro entre os funcionários. As carteiras eram diferenciadas com a estrela da empresa, na parte de trás. Essas valiam o dobro das notas normais.

Um dia, numa busca num monturo que havia por trás da Souza Cruz, encontrei várias carteiras com a estrela.

Fiquei rico!...

Às vezes, a fantasia virava realidade e as notas passavam a COMPRAR bens, de verdade: brinquedos, figurinhas...

Uma vez, um pirralho me ofereceu, em troca de uma nota de Minister, o bem maior que tinha. Recusei. Primeiro, porque minha preferência nunca foi aquela; e depois porque aquele bem, para os padrões da época, custar-lhe-ia a honra.

Cena 2Facadas

A ponta da faca-peixeira bateu com força, duas vezes, na portinha de madeira de nossa casa, na rua Irineu Jófily, em Patos. Quase não dava tempo de minha mãe fechar. Uma mulher entrou, apavorada, aos prantos: “Me acudam! Meu marido vai me matar; me pegou com outro e vai me matar”. Minha mãe arrematou: “Minha senhora, aqui a senhora não fica; não quero confusão na minha casa”.

Do lado de fora, o homem, bêbado, gritava:

- Abram essa porta, que eu sei que aquela r....... tá aí.

Uma das minhas irmãs achou a solução para a mulher: a senhora em questão sairia pela porta dos fundos, que dava para um bequinho, perto da Rua da Baixa. Não daria tempo o marido dela pegá-la.

Solução praticada, minha mãe abre a porta, e entra o homem, furioso:

- Cadê aquela r.......?

- Meu senhor, não tem ninguém aqui (era a fala da minha mãe).

Ela entrou aqui, que eu vi.

- O senhor tá enganado.

- Tô avisando à senhora. Vi ela entrar aqui; a senhora está mentindo. Se pegar ela aqui dentro, eu mato todo mundo; a começar por aquele menino ali (eu, junto à janela, tremia feito vara verde).

- Meu senhor, não sou mulher de mentir. O senhor pode entrar e revistar todos os cômodos da casa; se encontrar sua mulher, pode fazer o que jurou.

Diante da segurança e dos fortes argumentos de minha mãe, o homem sai, descendo a ladeira. Da janela, vi que dobrou à direita, na esquina da Rua da Baixa.

Cena 3 O Cego mamão

Vizinho à nossa casinha da Irineu Jófily morava, parede e meia, o cego Mamão. Era muito conhecido em Patos. Tinha esse apelido porque praguejava contra quem colocasse na sacola dele mamão. Muita gente tinha raiva, porque achava que Mamão só queria ser “as pregas”, e não dava esmola.

O que só a gente lá de casa sabia é que o cego apanhava pra valer das irmãs. O pobre chorava, gritava, pedia, pelo amor de Deus, que não dessem nele.

- Se trouxer pouco dinheiro, vai apanhar mais. E cada mamão que trouxer é uma surra.

Quantos pedintes não vivem o drama de mamão e são julgados mal por quem não lhes conhece a história.

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