Acesso

Paraíba
Compartilhar:

Sem ideologias, partidos sofrem por pautarem debates com picuinhas

André Gomes / 20 de julho de 2015
Os partidos, à exceção de pequenas agremiações, não desenvolvem mais suas atividades orientadas por ideologias. Essa é uma realidade reconhecida pela população e pelos próprios políticos e que tem levado às siglas ao descrédito. Houve um tempo, que os partidos políticos brasileiros defendiam arduamente suas ideologias, de forma a promover mudanças que beneficiassem a sociedade. Conseguir promover estas mudanças já foi mais importante que o cargo, salário, status ou demais fatores individuais.

O professor da Universidade Federal de Campina Grande e cientista político, Fábio Machado, explicou que os partidos hoje sequer desenvolvem suas atividades considerando os conteúdos programáticos. Os maiores responsáveis, segundo o professor, são seus dirigentes, e, naturalmente, seus filiados. “Hoje, a maioria dos partidos políticos são agrupamentos políticos orientados por motivos paroquiais, fisiológicos e pessoais”, disse.

Apesar de reconhecer que o fisiologismo hoje está presente nos partidos, Fábio Machado disse que essa realidade não acabou com as siglas partidárias, mas desconfigurou. “O fisiologismo partidário contribuiu enormemente para a crise de representatividade que as instituições partidárias amargam em nosso tempo, especialmente no Brasil”, afirmou.

Para Machado, os partidos caíram em descrédito devido ao fisiologismo, ao paroquialismo, aos interesses privados e pessoais das lideranças e afiliados. “É bom lembrar que os partidos políticos modernos emergiram no cenário ocidental caracterizados fundamentalmente, por apresentarem princípios ideológicos e programáticos. Hoje falar disso aqui no Brasil é uma piada!”, destacou.

O descrédito partidário e a falta de ideologia são problemas reconhecidos até mesmo pelos políticos. Muitos deles ingressam nas legendas em busca de acomodação sem sequer reconhecer o projeto ideológico, ou ao menos, se o partido faz parte da esquerda ou se é mais ligado a direita, por exemplo.

Outro problema apontado pelo cientista político é que na Paraíba o esquecimento ideológico e o descrédito acontecem por conta dos controles partidários, em muitos casos, estarem nas mãos de famílias. “Os grandes partidos políticos na Paraíba são comandados pelos clãs familiares. Isto faz parte da nossa história política e tem se refletido em uma falta de confiança por parte da população”, disse.

População não acredita em princípios

Os acordos políticos firmados por partidos na Paraíba durante os processos eleitorais de 2014 fizeram com que muitos paraibanos deixassem de acreditar nas ideologias e princípios partidários. A união do PSDB com o PSB nas eleições de 2010 e do PT com o PSB nas eleições de 2014 são alguns dos exemplos citados.

A imagem do atual governador Ricardo Coutinho (PSB) ao lado de Cássio Cunha Lima (PSDB) nos palanques durante as eleições de 2010 ainda é lembrado, por muitos, como uma cena que mostra a falta de ideologia partidária das duas legendas e dos seus candidatos.

Para o administrador Eduardo Bastos, os partidos estão desacreditados por culpa dos políticos. Ele diz que as legendas têm seus princípios, mas em muitos casos não são conhecidos pelos filiados.

“Hoje muita gente se filia a um partido por conveniência, seja para se candidatar ou para conseguir algum cargo público. Não existe mais essa história de se filiar a uma legenda porque acredita em seus princípios”, destacou o administrador.

A dona de casa Amanda Costa também anda decepcionada com a postura dos partidos e dos seus integrantes. Para ela, as legendas deveriam estar mais próximas da população todo o tempo e não apenas em ano eleitoral. “Nunca vemos nenhum ação partidária que beneficie o povo. Eles só aparecem nas eleições para brigar nas formações de coligações. Isso só desgasta ainda mais os partidos”, disse.

Políticos atestam problema

Até mesmo os políticos reconhecem que os partidos deixaram de lado ou ‘esqueceram’ a ideologia política. O deputado estadual Frei Anastácio (PT) chegou a dizer que a questão ideológica nos partidos políticos é “muito pífia”. Mas a opinião do deputado é questionada por um colega de parlamento. O deputado Zé Paulo disse que nem todos os partidos se incluem nessa prática.

“Não acredito que os partidos pequenos não tenham ideologia, como muitos alegam. Muitos deles, como o meu, se pauta pela ideologia, principalmente aqui na Paraíba. Eu acredito que muitos partidos se mantém fieis as suas ideologias”, destacou Zé Paulo.

O deputado Frei Anastácio voltou a reafirmar sua opinião e disse que exemplos existem até mesmo dentro do PT. “Vemos essas grandes alianças pensando simplesmente em eleições, em cargos, e assim o Partido dos Trabalhadores entrou na onda dos tradicionais. Hoje não se discute a questão ideológica e a classe política não tem a credibilidade da população. O Senado e a Câmara não têm a credibilidade do povo e a Assembleia Legislativa é a mesma coisa, com raras exceções”, observou.

Relacionadas