terça, 17 de julho de 2018
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Filme ‘A forma da água’ testa espectador e equilibra estranheza com fascínio

Renato Félix / 17 de fevereiro de 2018
Foto: Divulgação
Guillermo del Toro é conhecido por amar monstros, mas ele ama, sobretudo, algumas facetas do cinema do passado, que ele vai revisitando em seus filmes. Ele salpica de referências seu A Forma da Água, que ganhou o Festival de Veneza e ostenta 13 indicações ao Oscar. A mais óbvia, claro, é que seu homem-anfíbio remete diretamente a O Monstro da Lagoa Negra (1954), filme B com status de cult.

A criatura desperta a empatia da faxineira muda vivida pela excelente Sally Hawkins, funcionária do laboratório secreto que o aprisiona, um tipo entre Chaplin e Amélie Poulain. O envolvimento cresce até que ela decide salvá-lo.

Em uma relação que remete a King Kong, Del Toro busca um equilíbrio difícil. Por um lado, decide criar um amor romântico correspondido, com tudo o que tem direito. Por outro, decide também não facilitar para o público até onde pode. Romances entre seres humanos e seres não humanos não são novidade no cinema – desde que o não humano seja, basicamente, uma figura humana.

Aqui, o anfíbio ainda é uma forma humanoide, mas as semelhanças parecem parar por aí. O filme vai mostrando que há sentimentos e inteligência ali, mas impedi-lo de emitir palavras pela voz é outro elemento para o filme sustentar a estranheza da plateia, enquanto vai tentando vencê-la mesmo assim, pelo lirismo.

Assim, o filme não é tanto uma ficção científica ou um filme de monstro tradicionais. Chega a incluir um número musical aos moldes dos anos 1930, outra referência cinéfila usada pelo diretor – mas, mais uma vez provocando o espectador, colocando seu monstro como um Fred Astaire.

Testado em suas intolerâncias, cabe ao espectador embarcar ou não nessa fantasia romântica, com uma dose forte de nostalgia (boa parte da trama se passa sobre um cinema exibindo A História de Ruth (1960) e As Noites de Mardi Gras (1958).

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