segunda, 25 de setembro de 2017
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Fabien Toulmé fala sobre HQ que trata sobre vinda da sua filha com trissomia

Audaci Junior / 21 de março de 2017
Foto: Divulgação
“Eu achei que era uma história linda e universal: na verdade, o filho – ou a filha – que temos nunca será ‘do jeito que a gente espera’”, aponta o quadrinista francês Fabien Toulmé, que está lançando no Brasil seu primeiro álbum, Não Era Você que Eu Esperava (Nemo, 256 páginas, R$ 59,80), um recorte autobiográfico onde o autor relata sobre ser pai de um bebê portador de Síndrome de Down.

Nesta terça-feira, data marcada pela conscientização mundial em virtude do Dia Internacional da Síndrome de Down, Julia – filha de Toulmé – está com oito anos de idade. Na obra, que conta o seu nascimento e a consequente descoberta da trissomia, ele não teve pudores de se expor por completo, inclusive no processo de aceitação.

“Resolvi contar essa historia quando realizei o percurso que tínhamos feito para passar da desilusão a um amor intenso pela Julia”, relembra. “Escrevi para contar uma história que achava linda, não para divulgar uma mensagem, uma informação ou alguma coisa desse tipo. Acho que, quando você faz uma obra com esse tipo de intenção, você pode se ‘desviar’ do seu objetivo, que é a base de um livro: contar uma história”.

Tanto que as informações e mensagens que acompanham naturalmente nas entrelinhas do álbum geraram um grande feedback dos leitores com o autor após a publicação na França, em 2014.

“Comecei a receber um monte de cartas e e-mails de leitores me dizendo que esse livro tinha sido importante para eles, seja para entender essa situação ou para ajudar a ficar mais sossegado depois de ter vivido as mesmas experiências”, conta. “Recebi também muitos recados de profissionais da área de saúde – como psicólogos e médicos – me dizendo que era um testemunho muito importante para entender melhor a reação das famílias depois do nascimento de um filho com deficiência. Muitos me disseram que iam usar o meu livro como ‘ferramenta’ para ajudar os pais na mesma situação”.

Durante o processo de produção, quando o quadrinista estava debruçado na sua prancheta desenhando as páginas do álbum, em 2012, as únicas pessoas que sabiam do projeto, além do seu editor, eram sua esposa Patrícia e a sua primeira filha, Louise, que tinha apenas seis anos, mas que o acompanhou observando em cada etapa, segundo Toulmé.

“Patrícia acompanhou o processo de escritura sem interferir. Ela simplesmente foi a minha primeira leitora. Eu mesmo sabia o que poderia dizer ou não. Queria contar tudo, desde o nascimento até o processo de aceitação e amor: nada mais. E Patrícia achou bacana esse ponto de vista, essa honestidade”.

Para o resto da família, Fabien quis fazer uma surpresa, revelando apenas quando a HQ fosse publicada. “(No álbum) eu falo da minha família francesa, pois os meus familiares brasileiros ainda não leram, apesar de saber sobre o assunto”, revela, afirmando que os parentes gostaram e se emocionaram com Não Era Você que Eu Esperava.

Francês paraibano. Fabien Toulmé fala fluentemente o português e a sua ligação brasileira vem direto daqui, da Paraíba.

Para ele mesmo se considerar “o francês mais paraibano”, Fabien veio à João Pessoa no seu último ano de Engenharia Civil, através de um convênio de intercâmbio da sua faculdade na Europa com a Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

“Na época eu não falava nada de português e fui aprendendo a língua ‘na marra’, aos poucos. Durante esse primeiro ano, encontrei minha esposa, que também estudou na UFPB”.

Depois de morar juntos fora do Brasil, o casal retornou para residir em Natal (RN) e depois em Fortaleza (CE) por causa da empresa francesa de engenharia na qual o quadrinista trabalhava. Neste período, veio a sua primogênita Louise, nascida na capital paraibana.

“Durante a nossa moradia em Fortaleza, conheci Daniel Brandão, um autor de HQ cearense. Ele foi muito inspirador para mim, pois tinha deixado o ‘projeto’ de se tornar advogado para viver da sua paixão, os quadrinhos”, conta. “Isso me influenciou bastante para deixar a engenharia e voltar para a França e tentar a aventura dos quadrinhos. Acredito que seja mais ‘fácil’ viver de HQ na França do que no Brasil”.

Atualmente na França, Fabien e família voltam de tempos em tempos para cá. Seu objetivo, daqui a alguns anos, é conseguir dividir mais o tempo entre os países.

Traduzido também para Alemanha e Coreia do Sul, o álbum foi um sucesso inesperado para o autor, pois tocou muita gente. Um exemplo foi o casal francês que estava em processo de adoção e, depois de ler Não Era Você que Eu Esperava, resolveu adotar uma criança com Síndrome de Down. “Eles se deram conta que muitas crianças podiam ser abandonadas e que elas mereciam ter uma família. Esses pais sentiram a vontade de viver essa ‘aventura’ de vida”

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