sábado, 18 de novembro de 2017
Entrevista
Compartilhar:

Catarata não assusta mais e tratamento cirúrgico é a solução

Luiz Carlos Sousa / 20 de agosto de 2017
Foto: Rafael Passos
Um dos problemas mais comuns da visão nos dias de hoje pode ser corrigido facilmente através de uma cirurgia. Trata-se da catarata, que ocorre quando o cristalino – uma lente natural do olho – fica opaco. O oftalmologista Daniel Montenegro diz que mais dia menos dia todos terão catarata por que é uma doença que vem com o envelhecimento. No entanto, ele destaca que em regiões como o Nordeste o aparecimento do problema ocorre mais precocemente por causa do sol. Nessa conversa no Correio Entrevista, Daniel Montenegro explica também os problemas causados pelo glaucoma e fala das expectativas em relação ao desenvolvimento de tratamentos com células-tronco.

- A catarata hoje é um problema de visão bem comum, mas facilmente tratável?

- A catarata é o problema mais freqüente, depois da vista cansada, que ocorre após os 40 anos de idade e que alguns autores dizem que é o início da catarata, na população. É a cirurgia mais realizada no mundo, porque quem viver o suficiente vai ter catarata. Então todos nós teremos catarata a não ser que morramos antes do surgimento dela.

- Geralmente ocorre em que período da vida?

- Geralmente, aparece provocando os seus sintomas, após os 60 anos de idade. É tratada como uma doença da terceira idade. Porém, em algumas regiões, como aqui no Nordeste, onde a incidência da radiação solar é muito freqüente e forte, ela pode aparecer antes e existem alguns pacientes que podem ter precocemente a catarata, a exemplo dos fumantes, daqueles pacientes que fizeram uso de medicações como corticoides por tempo prolongado e os pacientes que tiveram trauma oculares.

- E o caso dos diabéticos?

- Os diabéticos integram o grupo de pacientes que podem também desenvolver a catarata precocemente, especialmente naqueles que não têm o controle metabólico adequado. Os picos de hiperglicemia, que eles vão tendo ao longo da vida, geralmente culminam com o surgimento mais precoce da catarata.

-O que é a catarata?

- A catarata é o cristalino - a lente natural que temos em nossos olhos -, que vai ficando opaca com o passar dos anos. O cristalino quando vai ficando opaco, fica com catarata. A cirurgia da catarata consiste exatamente em substituir o cristalino por uma lente transparente.

- Como o senhor classifica essa cirurgia?

- Ela é sofisticada. Torna-se aparentemente simples por ser sofisticada. Uma das áreas da Medicina, que mais se desenvolveu nos últimos anos foi a Oftalmologia e os incrementos tecnológicos vieram favorecer melhores resultados da cirurgia de catarata.

- Os resultados são promissores?

- Hoje você consegue reabilitar o paciente, mesmo na terceira idade, para que ele tenha uma visão para longe e perto de forma plena através da cirurgia.

- Uma cirurgia de catarata dura quanto tempo?

- Não há um tempo estimado. Se pode fazer uma cirurgia de catarata muito bem feita em uma hora ou em 20 minutos. O que importa é que a cirurgia fique bem feita ao término do procedimento. Há várias formas de se operar a catarata, dependendo da técnica e da habilidade do cirurgião, mas, em média, por conta desses avanços tecnológicos, o tempo cirúrgico foi bastante reduzido.

- Quando o senhor se refere aos avanços tecnológicos diz respeito aos instrumentos, aos fármacos?

- Temos avanços tanto na área da medicação, como no caso da profilaxia contra infecções pós-operatórias com o uso de antibióticos de última geração, o que reduziu o risco a praticamente zero nos grandes centros cirúrgicos. Na área dos equipamentos também houve avanços muito grandes, com instrumentos cada vez mais precisos, que entregam os resultados que oferecem. E temos avanços tecnológicos na área de implantes das lentes intraoculares, onde a tecnologia agregada às lentes permite a correção dos erros oculares de refração, que são a miopia, a hipermetropia, o astigmatismo e a vista cansada.



- Há possibilidade da catarata surgir por causa de um trauma?

- Tanto os traumas contusos como os induzidos por choque elétrico podem provocar a catarata. O cristalino é uma estrutura que não é feita para levar pancada. Uma vez que sofra algum tipo de trauma pode ter sua estrutura físico-química modificada e aquele cristalino que era transparente ficar opaco com o passar do tempo.

- E o tratamento nesse caso?

- O tratamento é o mesmo, agora em uma catarata traumática, a gente costuma dizer que existe tática e não técnica. Então o médico tem que entrar sabendo que pode haver alguma intercorrência que não acontece na cirurgia de catarata não traumática. Então, o cirurgião tem que estar apto para resolver questões que podem ocorrer no transoperatório, de modo que se consiga, ao término da cirurgia, reabilitar a visão do paciente.

- Há possibilidade de algum paciente ter catarata antes dos 60 por uma questão genética?

- Sim. Há paciente que podem ter algum tipo de gene que provoca a catarata de forma mais precoce. Outros porque usaram medicações – como corticoide – por tempo prolongado, o que induziu à catarata.

- Há alternativa ao tratamento cirúrgico da catarata?

- O tratamento da catarata hoje é cirúrgico. Se me perguntar se daqui a cinco, dez, 15 anos se o tratamento vai continuar sendo cirúrgico, não tenho como responder. Mas o tratamento efetivo na atualidade é o cirúrgico.

- Seja qual for o grau em que ela se encontrar – se no início ou mais madura?

- Hoje em dia costuma-se operar a catarata o quanto antes, porque os resultados são tão melhores quanto mais cedo de opera. Não se recomenda que se deixe a catarata amadurecer a ponto de poder provocar outras doenças associadas, como, por exemplo, o glaucoma.

- A cirurgia uma vez efetuada é para sempre?

- A cirurgia de catarata é única para cada olho. Não se opera um olho de catarata duas vezes. Isso não quer dizer que seu olho não terá problemas pelo resto de sua vida. Outros problemas poderão vir a surgir, mas a catarata no olho operado, não.

- Não surgirá, por exemplo, a necessidade de se trocar a lente?

- Desde que a lente colocada seja de boa qualidade, não. Não se recomenda colocar lente de qualidade duvidosa, porque a retirada de uma lente para colocação de uma nova lente geralmente provoca traumas adicionais aos olhos, que podem ser totalmente evitáveis uma vez que se coloque a lente de qualidade boa.

- O que difere as lentes e faz com que uma tenha melhor qualidade?

- O tipo de material. Há materiais que não são recomendáveis para se colocar dentro do olho, mas que, infelizmente, ainda são implantados por aí. Os médicos especialistas conhecem bem os materiais que podem ser implantados e os que não podem para que se evite problemas por conta do implante de uma lente inadequada nos olhos.



- Por que o tabagismo antecipa a catarata?

- Justamente por conta da liberação excessiva de radicais livres que vão provocando a oxidação e o envelhecimento do organismo mais rapidamente. Quem é fumante envelhece mais rápido do que quem fuma. E o olho acompanha esse envelhecimento.

- E não há escapatória: mais dia menos dia todos teremos catara?

- Exatamente. O que se verifica é que aqueles pacientes que tiveram hábitos de vida mais saudáveis, que não precisaram se expor ao uso de corticoide, ao sol de forma agressiva, desenvolvem a catarata numa fase mais tardia da vida.

- Outro problema na visão que atinge muitas pessoas hoje é o glaucoma?

- O glaucoma é um nome que sempre assustou, porque é uma doença crônica e as doenças crônicas não têm cura. Têm controle. O grande problema do glaucoma é que muitas vezes ele não provoca sintoma algum: não dói, não fica vermelho, não há perda de visão e o paciente vive muitos anos de forma assintomática e quando vai procurar uma assistência oftalmológica geralmente é numa fase bem tardia quando não há muito o que fazer no sentido de recuperar a visão.

- Quais as estatísticas em relação ao glaucoma no Brasil?

- O que se sabe é que aproximadamente 4% da população brasileira é portadora de glaucoma, mas que o acesso ao tratamento é difícil. É importante que os médicos e as instituições governamentais se sensibilizem nesse projeto porque o custo para o Estado de uma cegueira por glaucoma é muito alto, uma vez que ela, diferentemente da cegueira pela catarata é irreversível.

- Apesar de toda sensibilidade que envolve o sentido da visão, há charlatões se apresentando como médicos especialistas em oftalmologia?

- Eu costumo dizer que todo mundo pode ser um oftalmologista desde que se submeta às provas para se tornar um. Hoje essa prova começa pelo Enem. Após a faculdade de Medicina, uma residência médica, uma pós-graduação até passar na prova do título de especialista em oftalmologia do Conselho Brasileiro de Oftalmologia. Há pessoas que atuam principalmente nos bolsões de pobreza agindo como médicos, mas que são charlatões. Não têm noção do que é o corpo humano, do que é o globo ocular. Travestidos de médicos prescrevem óculos e recitam remédios sem conseguir detectar os problemas porque não os conhecem. É um problema grave que, inclusive foi motivo de prisão em João Pessoa recentemente.

- Qual a expectativa do senhor em relação ao desenvolvimento de tratamentos com células-tronco?

- O futuro é muito promissor no aspecto científico, principalmente em relação ao cenário internacional, onde há pesquisas sendo feitas de forma mais efetiva. Não é que no Brasil não estão sendo feitas pesquisas. É que no Brasil é mais difícil porque os incentivos não são tão evidentes. Mas há muitas promessas nas pesquisas principalmente em relação às células-tronco. Há pesquisas em desenvolvimento para todas as partes do olho e acredito que em curto espaço de tempo tenhamos como promover aplicações práticas desses conhecimentos.

Relacionadas