segunda, 20 de novembro de 2017
Entrevista ao Correio
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Educação não tem valor social no Brasil, diz professor Timothy Ireland

Luiz Carlos Sousa / 10 de abril de 2016
Foto: Rafael Passos
Para o brasileiro, a Educação é importante para os outros e não para si. O diagnóstico é do professor da UFPB Timothy Ireland, especialista em Educação. O analfabetismo ainda é um desafio para o País, que tem 12 milhões de pessoas que não sabem ler e escrever. Ele destaca também o analfabetismo funcional daqueles que dominam a leitura e a escrita, mas não sabem interpretar criticamente um texto. O número chega a 60 milhões. Nessa conversa com o Correio, o professor Timothy Ireland analisa os programas para educação de crianças, jovens e adultos, defende a escola integral e fala do fim do Zé Peão, um projeto da UFPB com o Sindicato dos Operários da Construção Civil que em 25 anos alfabetizou cerca de seis mil trabalhadores e que terá em 2016 sua última edição.

- A alfabetização de adultos ainda é um problema no Brasil?

- É um desafio a ser superado. Estamos em pleno Século XXI e o Brasil com pretensões de ser um País de primeiro mundo, quarta, quinta economia do planeta e ainda temos em torno 12 milhões de pessoas que não sabem ler e escrever.

-É o maior problema a ser enfrentado?

- O pior não são os que realmente são analfabetos, que não sabem ler e escrever. O mais desafiante é o número de pessoas que chamamos de analfabetos funcionais – pessoas que dominam a leitura e a escrita, mas não o suficiente para interpretar criticamente um texto e usar materiais em seu dia a dia. São mais 60 milhões de pessoas nessa situação.

- Por que esse perfil ainda persiste no Brasil? Falta de política pública, deficiências sociais, carências econômicas?

- De um lado, tudo misturado, uma série de fatores que combinam, mas, ao mesmo tempo, acho que a Educação no Brasil, no fundo, não tem valor social para a sociedade. A Educação não é uma questão prioritária.

-Em que sentido?

- Se a gente comparar, por exemplo, alguns países asiáticos, tratam a Educação, a própria China, Coreia do Sul ou a Malásia como um valor muito importante. A gente no Brasil não dá importância não. A Educação é algo que as pessoas acham importante para os outros, mas nunca para si.

- A prioridade é outra...

- A gente precisa quebrar isso. A Educação faz a Nação. Quando falamos em desenvolvimento, não é só crescimento econômico. É a identidade da Nação como povo. É muito mais do que ter as ferramentas básicas para crescer a economia do País. É fazer as instituições crescerem juntas para fortalecer a democracia, etc.

- Alguma explicação para essa constatação?

- Não sei por quais motivos nunca dedicamos a importância que a Educação merece. Houve várias tentativas. A História do Brasil é um cemitério de campanhas fracassadas. Nas décadas de 40, 50 e depois na década de 70. Quando tivemos a possibilidade de um processo de alfabetização e educação básica ter mais sucesso veio o golpe.

- Com Paulo Freire?

- Exato. Aquilo tinha, realmente, a possibilidade de ser um programa nacional de peso. Mas veio o golpe e veio o Mobral e vários outros. Agora estamos com o Programa Brasil Alfabetizado que é um esforço grande, mas que não avançou como se esperava.

-Quer dizer que há um componente na índole do brasileiro que não elege a Educação como fundamental?

- Talvez nunca investimos tanto quanto precisamos. Nunca fizemos o sacrifício de colocar a Educação entre as prioridades nacionais. Entender que a Educação de crianças, jovens e adultos – acho muito importante não separar, não dizer que a educação de crianças é mais importante que a de jovens, que é mais importante que a de adultos.

- Não há uma hierarquia?

- São todos importantes. Eu compartilho da ideia que a Educação é ao longo da vida. Educação como um processo que começa quando a gente nasce e não tem fim. A gente sempre aprende e sempre precisa aprender mais e não há obstáculos. Precisamos investir mais na educação de crianças, cada vez mais na educação de jovens e em todo o processo.

- O que lhe chama atenção no processo educacional hoje?

- Por exemplo, mais uma vez seremos pegos de surpresa. O envelhecimento da população brasileira. Muito rapidamente o número de pessoas idosas está crescendo e as pessoas estão vivendo mais tempo e muito melhor. E começam a querer usar esse tempo para atividades de aprendizagem. Não querem ficar em casa assistindo televisão. Querem aprender ou se socializar. A demanda das pessoas idosas para poder continuar exercendo o direito à Educação será algo muito forte e o Brasil não está preparado para receber essa demanda.

- Há anos há programas de alfabetização de adultos, garantia de matrícula para todas as crianças e cursos profissionalizantes. No entanto, não se consegue dar o salto qualitativo assegurando valores a que o senhor já se referiu. Um impasse?

- Em parte, porque temos um investimento em programas e projetos e não em políticas. As mudanças na Educação levam tempo, não é uma coisa de dois, três anos. Temos que pensar no mínimo em uma geração. E a maioria dos programas não teve tempo para se firmar, amadurecer e se tornar uma política.

- Por exemplo...

- Me lembro de vários programas na área de formação de jovens, de adultos de qualificação para o trabalho começam e muitos são de curta duração, três, seis meses. O mais recente deles é o Pronatec. Não sei se o Pronatec vai ter o impacto esperado.

- Por quê?

- Porque alguns programas são maiores com um, dois anos, mas a grande maioria tem três, quatro meses. Não é formação. É capacitação, é treinar uma pessoa para alguma coisa. O que precisamos é qualificar pessoas para o trabalho, ter a noção do trabalho, ter as habilidades que são necessárias para o trabalho, que são qualidades de fundo, premissas básicas. Depois disso as pessoas têm condições de aprender uma profissão com mais facilidade. Mas têm que ter a base.

- Atualmente o senhor está trabalhando em algum projeto específico?

- Coordeno a Cátedra. A Unesco cria cátedras específicas que fazem parte de sua programação. A nossa é sobre educação de jovens e adultos. É a única no Brasil. Temos olhado para as questões locais, estamos envolvidos nas questões nacionais e internacionais.

- O que está sendo feito na Paraíba?

- Estamos assessorando a UEPB – Universidade Estadual da Paraíba – nesse projeto de campus avançado no presídio do Serrotão, em Campina Grande. É uma experiência muito interessante. Há poucas universidades com um campus avançado dentro de um complexo prisional.

- Isso em relação ao mundo?

- Não é comum, não só no Brasil. A ideia é muito boa, agora, a dificuldade – a Universidade tem feito pesquisa, extensão, tem oferecido projetos de todos os tipos na área de lazer, de Odontologia, na assistência jurídica - está sendo cobrado o oferecimento de um curso de graduação dentro do presídio.

- Qual seria o curso?

- É a grande discussão. A dificuldade é que não dá para oferecer vários, porque o número de pessoas aptas é pequeno. É preciso ter passado no Enem, por exemplo. A ideia é escolher um curso de graduação para ver se interessa a maioria.

- E qual seria o indicado?

- O que nos temos pensado muito é um curso de Tecnólogo em Gastronomia, porque precisamos pensar também na reinserção do detento na sociedade após o cumprimento da sentença. E essa reintegração é muito complicada, especialmente no campo profissional.

- O que justifica a Gastronomia?

- Uma das áreas, com crise, sem crise, que sempre se mantém é a gastronômica. As pessoas têm que comer. O reitor ainda não bateu o martelo, mas é o que estamos pensando.

- Como seria o curso?

- Teria a duração de dois anos. É uma formação boa na preparação de alimentação com teoria, prática, história. Então, a pessoa sai bem informada e as perspectivas de emprego são muito melhores. Às vezes, pessoas privadas de liberdade querem fazer curso de Literatura, História, Direito, que são interessantes, mas com perspectivas de emprego complicadas.

- E quais seriam as possibilidades de emprego na Gastronomia?

- O emprego formal em hotéis, bares e restaurantes resorts e a possibilidade de montar o próprio negócio. Eu vi uma experiência muito interessante na Inglaterra: um grupo que se chama “clink” (gíria que significa presídio). Eles criaram em três presídios um restaurante aberto ao público, que serve de formação para todas as funções de um restaurante; para garçom, cozinheiro, compras, finanças.

- Qual o resultado?

- Esses restaurantes têm feito um sucesso muito grande, tanto pela qualidade como pela questão social. É algo que a gente pode pensar e adaptar para nossa realidade. E o Serrotão tem um espaço interno grande, que pode ser aproveitado para a produção de hortaliças básicas para uma cozinha. E poderia produzir isso de forma orgânica.

- Em termos nacionais, qual o projeto?

- Estamos envolvidos em ajudar o Ministério da Educação na produção de um evento que vai haver de 25 a 27 de abril em Brasília, que se chama Confitea Brasil + 6. São conferências internacionais que acontecem no mundo a cada dez, 12 anos.  Entre uma conferência e a próxima se faz um tipo de balanço porque cada uma termina com uma declaração e uma agenda a ser cumprida. Teremos a participação de 16, 17 países da América Latina, virão pessoas da Europa e teremos delegados do Brasil inteiro.

- E o Projeto Zé Peão?

- Zé Peão está no 25º ano. Começamos a elaborar o projeto em 1990 e no canteiro de obras em 1991. É um projeto no qual tenho aprendido mais e que tem me dado mais satisfação. Primeiro, porque já faz muito tempo. Eu sempre dizia que o desafio do Zé Peão é que não havia dois anos iguais. Todo ano, canteiros novos, conjuntura nova, professores novos, alunos novos. Sempre desafios distintos.

- Qual o próximo desafio do projeto?

- Tomamos a decisão que 2016 é o último ano. Ele sempre foi pensado como um projeto de apoio à falta de políticas na área de educação de adultos e alfabetização. E decidimos que, pelo menos no formato atual não vai continuar.

- Como funciona o Zé Peão?

- São dois programas: o que chamamos de Alfabetização na Primeira Laje para os operários que não têm domínio da leitura e da escrita e o Tijolo sobre Tijolo para os alunos que já têm o domínio do básico, mas querem dar continuidade aos estudos. Esses sempre foram os programas básicos, mas, além disso, temos programas voltados para a saúde do operário, para a arte, para a leitura, vídeos e documentários.

- Alguma incursão na área digital?

- Nos últimos três anos estamos desenvolvendo o Programa de Aprendizagem Móvel no Canteiro de Obras. Existe um aplicativo chamado Palma, que se pode baixar em smartphone. É um complemento para o processo de alfabetização. Ele é estruturado em quatro, cinco níveis e cada nível tem uma série de exercícios, de atividades e jogos. Então, o operário começa e passa de uma atividade para outra e depois de muda de nível.

- Tem interatividade?

- Sim. Uma voz, quando o operário acerta o exercício, o parabeniza e se não acerta, aconselha a fazer de novo. É um programa interessante para o reforço. No primeiro ano fizemos de força experimental em duas salas de aula e no segundo ano com todos os alunos. Conseguimos smartphones para todos. No terceiro ano, mudamos de smartphones para tablets.

- O que justificou a mudança, se o smartphone é, digamos, mais móvel?

- O tablet tem mais recursos, vantagens, por exemplo, por ter uma tela maior e é mais fácil de manipular. Começamos no ano passado com o tablet.

- Essas etapas também serão encerradas?

- Provavelmente sim. Estamos pensando numa forma. Esse programa Palma é possível conseguir comercialmente. Temos uma parceria com uma empresa em Campinas, São Paulo, que nos forneceu com os smartphones e testamos o programa. Achamos que o smartphone tinha um potencial grande para ajudar as pessoas na Educação. Fizemos uma pesquisa sobre impacto do smartphone na aprendizagem do operário da construção civil. Pensamos em não parar completamente.

- O Zé Peão é da UFPB?

- Sim. É uma parceria entre o Sindicato dos Operários da Construção Civil e a UFPB. Um dos pouquíssimos convênios assinados entre um sindicato de trabalhadores e a Universidade.

- O Zé Peão é um programa que deu certo, que teve duração, amadurecimento. Por que está chegando ao fim?

- Porque a conjuntura na indústria da construção civil está começando a mudar. Quando começamos, 90%, 95% dos operários moravam na obra, eram alojados no canteiro. E no começo, os alojamentos eram um horror e era uma das lutas do Sindicato por condições dignas para o operário. A construção civil não quer mais operários alojados. Ou aluga casa para o operário morar fora da obra ou o operário tem que se virar. E a grande maioria dos operários é do interior. Isso cria uma dificuldade grande.

- A ideia inicial do programa era a escola no canteiro de obras?

- Exatamente. Se o operário tivesse que sair da obra para ir a escola, não daria certo. Seria muito mais difícil. Por isso levamos a escola para o canteiro. É uma realidade que está começando a aparecer, mas eu acredito que e o sindicato também acredita que, em poucos anos, isso vai se tornar uma prática. A obra vai ser como uma indústria, com horário de entrada e saída dos funcionários. A ideia de uma escola no canteiro de obras não vai existir mais.

- Quais são os números do Zé Peão?

- São, aproximadamente, seis mil operários que passaram pelo projeto. Temos duas dimensões. Uma, a mais importante, a alfabetização, a educação básica para o operário da construção civil. E a outra sobre os professores, que eram todos alunos dos cursos de da UFPB que foram, nesse período, profissionalizados. Receberam uma formação como professores alfabetizadores. É o outro lado da moeda.

-Foi o diferencial na formação de muitos profissionais?

-Teve um impacto muito importante. Muitos de nossos ex-professores são agora professores qualificados em educação de jovens e adultos, ou são professores universitários, pesquisadores. Já tivemos secretário Municipal de Educação que foi do Zé Peão. São muitas pessoas que ocuparam posição de influência na área de Educação que passaram pelo Zé Peão.

- Depois de todas essas experiências, desse contato de tantos anos com a realidade brasileira, o senhor é otimista?

- Eu sou. Temos que ser otimistas. É uma das exigências para ser professor é ter esperança no futuro. Há um potencial, que não é desenvolvido, enorme. Sou um otimista frustrado, porque vejo o potencial que existe e a falta de uso que se faz disso, a falta de oportunidade que as pessoas têm para crescer. Precisamos garantir a educação básica gratuita.

- Alguma sugestão?

- Educação integral. A educação resumida a três, quatro horas, um turno é muito pouco tempo. Quando é integral, há a possibilidade da criança desenvolver atividades esportivas, artísticas, culturais, de informática isso é Educação. Talvez o que mais precisamos entender é que Educação não é só escola. Educação extrapola, é muito maior que a escola. Não é só ensinar a ler e a escrever. Isso é fundamental, mas é preciso ter prazer na música, na arte, no cordel. Uma das críticas que eu faria é que somos uma sociedade muito preconceituosa. A gente tem desprezo pela cultura popular.

- Que é riquíssima...

- Pois é. Por que achar que o que conta é a formação clássica, erudita? São importantes, mas vamos valorizar o que é produzido pela Nação. Isso daria o sentido de Nação. Uma das coisas que a extensão universitária mostra é a riqueza da cultura popular. Trabalhamos muito com o Cordel no Zé Peão e as pessoas se sentem confortáveis, é algo conhecido, familiar.

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