domingo, 16 de junho de 2019
Entrevista ao Correio
Compartilhar:

Entrevista: o mundo dos quadrinhos desbravado pelo paraibano Mike Deodato

Luís Carlos Souza / 14 de fevereiro de 2016
Foto: Arquivo
 

Um verdadeiro desbravador do mercado norte-americano da revista em quadrinhos. Se tivesse como definir o paraibano Mike Deodato em uma frase, essa seria com certeza a mais adequada. O desenhista conversou com o Correio e contou sua história. Como conseguiu se fazer reconhecido no mundo e fazer parte do meganegócio da Star Wars. Aos 52 anos de idade, Mike falou dos desafios de seu trabalho, de família e do orgulho que sente em ter desenhado a Mulher-Maravilha.

- Qual é sua participação na revista em quadrinhos mais vendida nos Estados Unidos?

- Eu sou desenhista e arte finalista, o que significa que eu faço o desenho a lápis e também cubro com tinta nanquim. Como eu faço a maioria de meus trabalhos digitalmente, esse lápis e nanquim são virtuais.

- Você entrou no meganegócio de Star Wars?

- Como eu entrei? Foi a convite do editor chefe que achou que seria algo desafiador para mim e ele tinha razão, foi muito instigante desenhar personagens tão marcantes da cultura pop.

- Hoje em que projeto você está trabalhando?

- Invincible Iron Man, com o meu amigo, o escritor Brian Bendis. É um marco da história que serve como introdução ao próximo grande evento da Marvel que se chamará Civil War 2

- Todos os projetos são com a Marvel?

-Sou contratado exclusivo da Marvel até 2019. A Marvel é quase como uma família para mim, já que estou com eles desde 1995

- Que características específicas um personagem como o Homem de Ferro ganha quando sai das telas para os quadrinhos?

- Na verdade o caminho é inverso, já que o personagem é originário dos quadrinhos. O cinema deve procurar transpor aquele mundo fantástico dos quadrinhos para a tela, o que não é tarefa fácil. Felizmente os efeitos especiais estão em um estágio que torna isso possível.

- Interessante esse direcionamento para os super heróis. Seu trabalho sempre teve essa característica?

Nem sempre. Comecei fazendo terror, ficção cientifica, suspense, mas super-heróis fizeram parte de minha infância como leitor e era algo que sempre quis fazer

- Quando foi que você percebeu esse dom para o desenho de personagens?

- Por volta dos treze anos eu percebi que tinha o talento para o desenho. Venho desde então tentando melhorar e evoluir, sem nunca parar de estudar e praticar.

- Você também os cria ou se restringe a dar forma nos quadrinhos a “seres” já criados?

Criei vários personagens pra Marvel e outras companhias, sem falar nos meus próprios

- Como é sua relação com os americanos?

Normal, trabalho com pessoas extremamente profissionais e que respeitam meu trabalho

- Você vive numa ponte aérea com os EUA ou essa ponte é apenas digital?

- Viajo bastante, mas a maioria é para convenções de quadrinhos. O trabalho propriamente dito é feito através da internet.

- Quanto tempo em média você leva para entregar um trabalho?

- Cerca de 28 Dias, 20 páginas desenhadas e finalizadas mais uma capa.

- É um trabalho solitário?

Era antes da internet, hoje em dia eu trabalho conectado, então posso falar com amigos enquanto trabalho

- Você consegue limitar seu tempo dedicado ao trabalho ou chega a virar o dia quando se entusiasma?

- Estou sempre entusiasmado com meu trabalho, mas aprendi a separar um tempo para recarregar as energias. Meu corpo e minha arte precisam desta pausa

- Algum trabalho autoral em vista após o lançamento do primeiro que você fez no Brasil no ano passado?

- Quadros foi lançado ano passado pela editora Mino e eu fiquei muito feliz pela calorosa recepção tanto de público quanto de crítica. Isso me motivou a fazer mais um, que já está a caminho.

-Como você chegou ao mercado norte-americano?

-Não foi da noite para o dia. Eu vim de uma época pré-internet aonde a comunicação com os editores no exterior era difícil. A Art &Comics, uma agencia de São Paulo criada em 1990 serviu como uma ponte representando desenhistas Brasileiros no exterior e eu fui um deles.

- Começou no desenho a mão ou já foi direto com o computador?

- Comecei a mão. Só passei desenhar digitalmente em 2011.

- Você trabalha só ou tem a ajuda de mais profissionais?

-  Sozinho. Gosto assim porque tenho completo controle sobre minha arte e o resultado final.

- Como é a relação trabalhista de um profissional trabalhando no Brasil para um cliente nos Estados Unidos, quando a discussão gira em torno, por exemplo, de assistência médica, previdência, etc.?

- Tudo tem que ser discutido diretamente com a companhia. Não existe uma legislação especifica protegendo os direitos do artista ou coisa que o valha no mercado em quadrinho americano.

- Como você avalia o sucesso de seus desenhos num mercado tão exigente como o norte-americano? Profissionalismo em primeiro lugar e muita dedicação. Talento vem por último. Acredito que é possível com foco, determinação, estudo, você vencer em uma área com pessoas que só tenham o talento e nada mais.

-Os quadrinhos podem ajudar na escola como ferramenta de educação? Acredito que sim. É uma ferramenta já utilizada há muitos anos e tem se provado bem eficiente para atrair a atenção do estudante.

 -Há alguma experiência para destacar como sucesso do uso da ferramenta?

- Muitos dos meus livros da época de escola continham várias histórias em quadrinhos e eu me lembro que me ajudavam a fixar e me prender ao assunto.

- Os quadrinhos têm mercado para se expandir no Brasil?

- Muito espaço e já está se expandindo. O mercado tem crescido muito nos últimos anos, o número de eventos de quadrinhos serve como um termômetro disso. Convenções se multiplicam, bem como o número de lançamentos e editoras.

- Há algum tempo, as revistas em quadrinhos, especialmente com personagens da Disney faziam muito sucesso no Brasil. Houve uma queda na preferência ou outros personagens ganharam força junto ao público?

- Acho que a própria companhia deixou de investir nos quadrinhos deles, preferindo focar em outras mídias como filmes, desenhos animados, games etc.

 - Quando o você se senta diante do papel em branco qual a primeira indagação que vem a sua mente? Por onde começar?

- Eu começo pela distribuição dos quadros, pela diagramação da página. Qual a melhor maneira de contar a história é minha primeira indagação.

- O processo de criação lhe causa alguma aflição ou é só uma questão de disciplina, sentar e trabalhar?

- Eu amo o que faço. Desenhar é um prazer para mim acima de tudo. Os prazos muito apertados, às vezes, tiram um pouco disso, mas nada que disciplina e foco não possam sobrepor.

- Algum personagem preferido, algum que marcou seu trabalho?

- A Mulher-Maravilha foi o personagem que me introduziu a uma audiência maior e meu nome sempre estará conectado a ele, o que é motivo de orgulho para mim.

 - Alguém lhe ajudou nesse caminho rumo ao sucesso?

-Minha família, principalmente. Não fosse o apoio de meus pais e a paciência de minha esposa e minhas filhas pelas minhas longas horas de trabalho, minha jornada teria sido muito mais difícil.

-Há algum personagem que você acredita possa se identificar com o brasileiro e ser transformado em uma grande história?

- Existem incontáveis histórias fantásticas da nossa cultura esperando para virar quadrinho. A gente só precisa ouvir, prestar atenção e botar no papel.

 

 

 

Relacionadas