sábado, 18 de novembro de 2017
Entrevista ao Correio
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Entrevista: a cirurgia plástica e os perigos de técnicas que prometem milagres

Lílian Morais / 13 de março de 2016
Foto: Nalva Figueiredo
Especialista em cirurgia plástica desde 1994, o médico Péricles Serafim garante: "beleza é aquilo que agrada ao espírito". E, com mais de vinte anos atuando na área, uma das maiores preocupações dele são as intervenções estéticas que prometem resultados milagrosos em um curto espaço de tempo. O que ajuda a agravar ainda mais essa inquietação é a atuação de maus profissionais que fazem da medicina um produto para ser vendido a qualquer preço.

Como  cirurgião plástico e sobretudo como uma pessoa que lida com a estética, qual o seu conceito de beleza?

Penso que beleza é aquilo que agrada ao espírito. Seja a beleza física ou a beleza das coisas que existem e acontecem a nossa volta. A beleza física por si não garante felicidade. Um corpo bonito numa mente bonita, sim.

Quais os avanços da cirurgia plástica nos últimos anos?

Temos tido a oportunidade, de acompanhar a evolução da Cirurgia Plástica tanto por meio da literatura especializada quanto pela presença a inúmeros congressos médicos no Brasil e no exterior desde o início de minha formação. O que temos observado, é que o que mais tem mudado são os conceitos. Novos equipamentos e materiais em cirurgia plástica, são quase todos carentes de validação acadêmica, e na melhor das hipóteses, extremamente polêmicos. Observamos que técnicas milagrosas que oferecem resultados instantâneos e volta ao trabalho no mesmo dia, são quase sempre apresentadas por médicos que não fazem "jus"ao juramento hipocrático. Acreditamos que o melhor médico é aquele que inspira confiança em seu paciente, e ao mesmo tempo não teme em expor suas condutas aos seus pares de profissão. Aquele que não faz de sua ciência uma mercadoria, cobrando preços vis ou parcelados a perder de vista, para ganhar o paciente. O melhor médico é aquele que sabe que recebeu uma oportunidade de ajudar, e que ganhar dinheiro é uma consequência, e sabe que ter dinheiro não é o mais importante,e sim o que se faz com ele.

Qual a idade ideal para que uma pessoa se submeta a uma plástica de rejuvenescimento ?

A cirurgia estética está contra-indicada nos dois extremos da vida. O paciente muito jovem que ainda não concluiu seu ciclo de  desenvolvimento físico hormonal, e o paciente idoso, em quem já se faz sentir os rigores do envelhecimento físico. Isso não quer dizer no entanto, que um paciente na terceira idade não possa submeter-se por exemplo, a uma cirurgia de rejuvenescimento facial, tudo depende do contexto clínico laboratorial de cada um.

Como o senhor avalia casos como da modelo Andressa Urach que quase morreu em busca do corpo perfeito e outras que acabaram perdendo a vida por um ideal de beleza?

Apesar de não estar a par dos detalhes que envolveram o tratamento a que foi submetida a Srta. Andressa Urach, nos parece em primeira análise,tratar-se de uma combinação de imprudência médica com distúrbio dismórfico corporal por parte da paciente. Esta última situação é bastante comum e consiste em uma auto percepção equivocada, fazendo com que a pessoa se ache mais feia ou mais bonita do que realmente é.

O que mais lhe fascina no seu trabalho?

Sem dúvida, o que mais me fascina em meu trabalho, é a oportunidade que diariamente recebo de poder ajudar as pessoas. Nesse sentido, me sinto abençoado por Deus. Sendo assim, aprendo a cada dia que todo médico quando se forma, não recebe uma licença apenas para exercer uma profissão remunerada, mas uma missão concreta de ajudar a fazer a diferença na vida das pessoas.

Com os avanços da medicina a gente pode dizer que hoje só é feio quem quer?

Eu diria que hoje em dia, e desde que existe a humanidade, só é feio quem se acha feio! O julgamento alheio, além de anti cristão é eivado das próprias imperfeições que permeiam cada um de nós.

Como médico, como é que o senhor avalia a saúde pública no Brasil?

A saúde pública em nosso país é realmente um tema apaixonante, e também preocupante ao mesmo tempo! O SUS é conceitualmente um sistema quase perfeito. O que ocorre é que as pessoas em nosso país ainda não estão preparadas para ele. Muitas coisas só existem no papel. Os recursos até existem, mas são frequentemente utilizados como ferramenta de contingenciamento econômico, ou pior ainda, como meio de obtenção de votos. As pessoas mais humildes é quem pagam a conta. Não existe infraestrutura para quase nada, aí o Governo Federal vem com médicos cubanos como a solução para os problemas. As santas casas de misericórdia e hospitais filantrópicos que muito ajudam a sociedade nivelando por cima a qualidade da medicina, estão em situação de pré-falência devido a defasagem financeira e demora nos repasses que recebem do Ministério da Saúde. Situação realmente constrangedora. E pior de tudo é ver o Governo Federal, com suas ações, querer transmitir à população, a percepção de que a culpa é da classe médica que não quer trabalhar!

O senhor foi diretor do Hospital Laureano, fale sobre essa experiência.

O Hospital Laureano é uma grande casa de intersecção e ajuda, é o que deveria ser chamado de Hospital da Vida. Um hospital onde o tratamento das pessoas mais abastadas ajuda a financiar o tratamento das mais humildes. Há quase vinte anos tenho  o privilégio de conviver com aquela realidade, inclusive tendo ocupado o cargo de  Diretor Geral por pouco mais de dois anos. Hoje continuo a me dedicar ao atendimento dos pacientes daquele nosocômio como cirurgião plástico e sempre tenho oportunidade de aprender com o sofrimento e a felicidade das pessoas que lá frequentam.

O senhor tem alguma filosofia de vida?

Parto do princípio de que todos somos dotados de livre arbítrio. Todos os homens são iguais e possuem exatamente aquilo que precisam nessa vida tão passageira. Se fizermos o bem levaremos conosco o bem, nada material nos pertence, estamos apenas tomando conta. A humanidade passa por momentos difíceis em que os valores morais são as primeiras vítimas. Não precisamos nem podemos ser santos, mas necessitamos estar atentos a missão de cada um. Todas as nossas ações e pensamentos nos serão cobrados. É importante plantar para poder colher, e nunca é tarde para começar!

Quais os seus planos para o futuro?

Quanto aos meus planos para o futuro,eu diria que pretendo continuar minha caminhada sem me apegar a situações, pois sei que podem mudar em questão de segundos; sem exigir das pessoas mais do que podem dar, pois sei que isso seria nada menos que o reflexo de minhas limitações. Sou médico há vinte e cinco anos, e sinto que chegou a hora de fazer algo diferente, como um doutorado por exemplo, ou me envolver mais com missões médicas humanitárias. Sinto que chegou o momento de dividir experiência antes que o corpo fique cansado.

Hoje você é um dos cirurgiões mais respeitados no Estado. Como foi a sua trajetória profissional?

Iniciei cirurgia plástica entusiasmado pelo trabalho com os pacientes carentes atendidos nas antigas enfermarias do Hospital Samaritano, que na época, atendia aos pacientes do INAMPS e FUNRURAL. Fiz Residência em Cirurgia Geral no Hospital Universitário da UFPB e Residência em Cirurgia Plástica no Hospital Brigadeiro, antigo hospital de referência em Cirurgia Plástica para o INAMPS do Estado de São Paulo. Recebi meu Título de Especialista em Cirurgia Plástica no ano de 1994. Desde 1996 tenho minha clínica privada localizada aqui em João Pessoa na Avenida Epitácio Pessoa. Nos últimos anos participei de várias comissões especializadas no seio da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e pelo terceiro ano consecutivo, presido a Comissão Nacional de Lipoaspiração da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Fiz Mestrado em Biomateriais com dissertação na área de prótese mamária. Sou Médico do Hospital Laureano desde 1996, fui Diretor Geral daquele Hospital de 2013 a 2015. Também ocupo o cargo de Presidente da Câmara Técnica da Especialidade de Cirurgia Plástica no Conselho Regional de Medicina do Estado da Paraíba.

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