quarta, 22 de novembro de 2017
Entrevista ao Correio
Compartilhar:

Antropólogo diz que violência é irracional e tentar justificá-la é uma perda de tempo

Luiz Carlos Sousa / 27 de março de 2016
Foto: Herbert Clemente
Radicado na França há 20 anos, o professor José Maria Tavares de Andrade alerta que poderá haver restrições a garantias fundamentais se a escalada do terror na Europa não for contida. Ele acredita que isto já está presente na questão dos refugiados que estão invadindo a Comunidade Europeia. Ex professor da UFPB, ele não crê em uma única explicação para a violência – como a pobreza - mas alerta para a desesperança que atinge os jovens imigrantes, que têm o que comer, mas morrem de frio, na droga ou na solidão. Durante visita recente a Paraíba, onde lançou um livro sobre a magia brasileira, em homenagem a um pescador de Cabedelo, Zé de Regina, José Maria conversou com Correio sobre a falta de solidariedade, a crise econômica e sobre o consumo desenfreado que está acabando com os recursos naturais do Planeta.

- O senhor acredita em ligação entre os  atentados na Bélgica estão ligados aos de Paris?

- Nem os terroristas afirmaram nada a este respeito, nem as autoridades puderam até agora afirmar isto; mas ninguém duvida desta manifestação de força por novos atentados, trinta mortos, duzentos feridos. É para dizer: estamos fortes, mesmo depois da prisão da Salah Abdelslam aqui em Molenbeek (bairro de Bruxelas atingido).

- A Europa vai endurecer a ponto de restringir garantias fundamentais por causa da violência?

- Esta é uma grande questão. Existem debates são frequentes a este respeito na França. O certo é que a Europa e a Democracia foram atingidas. Com a União Europeia, a autodeterminação do Estado/Nação está sendo revista. Na França a questão é um tema tabu e o velho nacionalismo geme. Restringir garantias para melhor se defender: investigar, julgar, expulsar e punir é inevitável. O que é fundamental em estado de guerra? Esta é uma questão nova além da divisão clássica direita e esquerda. Como dispor de um Estado forte numa União Europeia forte? As leis em sua maioria já não são mais nacionais, porém europeias. As novas exigências de ações antiterroristas, em âmbito europeu, como a invasão de imigrantes exigem se restringir certas garantias fundamentais.

- Como avaliar o mundo hoje com a escalada da violência fora de limites?

- Há razões históricas que poderiam ser evocadas como sendo uma volta da manivela dessa constância na História da humanidade que é a violência. A violência chegou a um estágio em que se retroalimenta a tal ponto que tornou-se terror.

- Que razões histórias o senhor identifica?

- A igreja Católica, com as Cruzadas inaugurou a colonização. Por conta disso existiu certa revanche do mundo árabe em invadir a Europa – o famoso império Otomano. Expulsos os otomanos da Europa, agora vem alguma forma de vingança com relação a essa posição já alcançada dos dois lados do Mediterrâneo.

- Mas esse terror de hoje não é um extremo mais radical ainda?

- O terrorismo tal a gente está vendo nos últimos atentados em vários lugares do mundo, inclusive em capitais européias, como Paris e Bruxelas, não tem uma explicação razoável. É muito difícil encontrar uma razão de ser. É algo irracional. Então tentar explicar o que não tem racionalidade é, de certo modo, perda de tempo.

- É irracional, mas consegue seguidores, faz negócios e se expande?

- Essa questão dos adeptos é fundamental. Os adeptos do terrorismo reproduzem uma ideologia, uma loucura de discurso. Por exemplo, os terroristas que cometeram os atentados a Paris – eles têm até inveja do modo de vida francês – mas não admitem os jovens estarem livres. Fazendo o que quer? Saindo, namorando? Nada disso eles podem. Tomar cerveja? Não.

- É racionalmente quase impossível entendê-los...

- Há uma dificuldade enorme e esses adeptos sofrem tal lavagem cerebral que eles não sabem o que estão fazendo. Quando eles repetem os versículos do Al Corão eles vão repetindo e repetindo. Não sabem o que estão dizendo.

- Eles não sabem, mas espalham o terror e forçam os estados a reagirem racionalmente. Só que essa razão racional tolhe liberdades sufocando o cidadão. Não estamos diante de um impasse?

- O Estado quer manter, para continuar a manter ele mesmo o monopólio do uso da violência. A violência do Estado é a violência legítima, autorizada, regularizada. Você não pode fazer justiça com as próprias mãos, então o Estado não pode admitir que alguém utilize o nome de Estado Islâmico, que é um absurdo. É Estado ou não é Estado? Isso foi a imprensa que inventou, porque não tinha outra maneira de chamar.

- Fome, pobreza, capitalismo, exploração. Não estaria na economia a explicação para esse radicalismo?

- Não podemos depender de uma explicação única, como, a pobreza, como causa da violência, porque na índia, por exemplo, eu testemunhei centenas e centenas de pessoas que nascem e crescem e morrem nas calçadas – nunca tiveram uma poltrona, uma cadeira para se sentar durante toda a vida e nem por isso se revoltam.

- Não é nessa pobreza que movimentos radicais encontram terreno fértil para suas ideias?

- Veja bem: os jovens nascidos na França, filhos de imigrantes são, em sua grande maioria que compõem esses terroristas. Eles vão fazer um estágio na Líbia e voltam. Esses jovens estão sem socialização, sem futuro. Estão na miséria total, mais do que a econômica.

- Como essa miséria é possível?

- O Estado dá uma ajudazinha, ninguém morre de fome. Morre de frio, de isolamento, de solidão. Morre de droga, mas não por falta de comida. A grande miséria na França é a falta de esperança, que é uma questão da própria civilização como um todo.

- O senhor se refere ao Ocidente?

- à civilização ocidental e a França, como um todo, perdeu a esperança. Daí a canalização da extrema direita, que vem ganhando posições. Essa questão da utilização da miséria é comum à direita e à esquerda. Até a Igreja se utiliza dela para pedir dinheiro para a caridade.  O governo Lula imitou o governo francês para acabar com a miséria dando ajuda aos pobres. E tem muita gente no Brasil nas mesmas condições dos cidadãos franceses: tem uma ajuda de custo, uma ajuda social e por conta disso, não vale mais a pena trabalhar.

- É a desesperança?

- Vamos a um fato concreto: o jovem está estudando, não tem motivação para assistir aula, vê os outros usando óculos e roupas de grife, vê “os boys” conquistando as moças mais bonitas do bairro, etc., comprando carro, moto e ele nada. Com nome árabe, com as características de seu povo, bate numa porta para conseguir trabalho e, nada.As portas vão se fechando.De repente aparece um “gaiato oferecendo que ele vai ser herói na outra vida e que vai fazer um treinamento para ser alguém na vida.

-Uma lavagem cerebral?

- Exatamente. Não há outro termo. Ele faz o estágio e chega matando gente. Apagou toda a consciência crítica, toda a consciência moral. Ele não tem mais nada dentro de si. E como é que se vai deseducar, desconstruir uma lavagem dessas? Ninguém sabe. Não há remédio para isso na farmácia. A desesperança é essa: o jovem bate na porta, bate, bate, bate e não encontra. De repente é preso por pequenos delitos ou por um crime mesmo e lá na cadeia vai encontrar um cara que vai ser o guru dele.

-Há saída para esse impasse da racionalização do Ocidente contra a radicalização do terror que ameaça a própria existência da humanidade?

- Sua pergunta não tem resposta. Estamos diante de várias catástrofes, de vários impasses, de várias contradições. E quando Edgar Morin diz que não devemos considerar o homem racional como o homo sapiens, mas que somos sapiens e demens. A qualquer momento a humanidade pode desaparecer com os meios atômicos que nós temos.

-Sem falar que do ponto de vista do meio ambiente a humanidade também está destruindo seu próprio habitat...

- A crise ecológica é outra em degradação constante e nós cidadãos não queremos vê-la porque não queremos perder o conforto, mesmo sabendo que os outros não têm o conforto que nos temos. Andamos de carros, trabalhamos em ambientes com ar condicionado. Como é que a massa está se deslocando? O acréscimo de miséria é algo explosivo. Há ingleses que já calculam os riscos de quando se deixa cada vez mais gente fora do mercado. A qualquer momento aquilo explode.

- Mas há condições de empregabilidade para todos?

- Eu estive em Cuba há bastante tempo e uma das coisas que me impressionou foi como um Estado pobre pode empregar todo mundo. Ora, no restaurante do hotel onde eu estava havia oito pessoas trabalhando. Se fosse aqui no Brasil seriam duas e na Europa uma pessoa para fazer o trabalho de oito.

- Há uma corrente de economistas que defende a redução da jornada de trabalho para que mais pessoas tenham emprego...

- Mas isso teria que ser planetário. A França entrou nas 35 horas e se deu mal, porque o capital vai embora.

-Há como conciliar a necessidade de oferecer mais emprego, aumentar o consumo e gerar riqueza com o capitalismo em busca unicamente do lucro?

- Não, agora veja bem, essa questão da governança mundial: é ingenuidade se imaginar que os grandes capitais internacionais vão querer se submeter a um conselho democrático, ao voto popular. Mas teoricamente existe a possibilidade de se fazer uma governança mundial e com isso os recursos da terra vão ser pensados coletivamente, porque nós já estamos consumindo mais do que a Terra pode produzir.

-Os recursos são limitados e as necessidades ilimitadas...

- O projeto de civilização é suicida. Vai bater com a cabeça no muro. Então, a possibilidade de destruição do Planeta é uma situação que leva a humanidade a repensar esse modelo suicida. Acho que é o próprio risco de desaparecimento da vida na Terra que faz com que a gente tenha esperança de que cedo ou tarde vai se tomar a providência imediata, porque não se tem muito mais tempo.

- O senhor também lançou novo livro, uma investida na pesquisa da cultura brasileira estudando a magia?

- A palavra magia é muito ambígua e, às vezes, se pensa no sentido circense que faz aparecer o coelho de dentro da cartola. A magia no sentido figurado é algo extraordinário, magnífico, brilhante. Mas a magia para mim, antropólogo, é um tema obrigatório e é um tema que hoje ninguém quer saber. Os próprios colegas antropólogos não querem saber.

- Mas o que é a magia?

- É um fenômeno universal, mas não temos ainda recursos conceituais para chegar-se a uma generalização. Por isso coloque magia brasileira, porque se existe uma mitologia – uma ciência do mito - não podemos falar de mitologia brasileira. Porque se é mitologia, é mitologia na regra geral se chegou a uma ciência do mito, mas não se chegou a uma ciência da magia.

- Quem é Zé de Regina?

- Zé de Regina é meu informante privilegiado, descendente dos índios. Viveu de 1957 até 2003 em Cabedelo num lugar onde hoje existe um restaurante, onde conseguimos instalar um grande painel em homenagem a ele.

- Qual a magia dele?

-É uma magia brasileira, por exemplo, a “espinhela caída” – já fiz conferência na França sobre “espinhela caída”, que é o externo afundado. Zé de Regina dizia: esse negócio de espinhela caída está errado. A espinhela num cai. Isso é o nome que os portugueses deram. E nós dispomos de vários termos no Tupi, no Guarani nas línguas indígenas para falar de espinhela caída.

- Mas e a magia?

- Zé de Regina fazia o exame e diagnosticava a gravidade. Se fosse grande não adiantava rezar. Às vezes, o camarada quer rezar como último recurso para acabar de morrer porque já está sofrendo demais.

- E a Medicina onde entra?

- O diagnóstico é algo racional que a ciência médica usa plenamente para reconhecer e legitimar, que é um verdadeiro critério racional de estudo científico laboratorial de você comprovar o que é espinhela caída. Mas na hora de curar só reza mesmo.

- Por quê?

- Primeiro porque o médico não sabe nem o que é isso. Você pode colecionar uma série de exames, digamos como se fossem umas transparências, faz radiografia, exame de sangue, exame de urina, isso e aquilo, o que quiser e não dá nada. Por quê? Porque o externo é uma cartilagem, muda de forma de um para outro e não aparece na radiografia. O médico também tem que ter um mínimo de consciência crítica de que não sabe tudo.

- Também falha?

- Isso. E é provisório: pode ser hoje, amanhã vai ser ridículo você começar a se referir ao tratamento que era dado no tempo de nossos avós.

- Essa magia é restrita a uma região específica, por exemplo, ao Nordeste?

- Essa magia brasileira é uma mistura da magia medieval , porque as fórmulas – os textos que as pessoas cantam – os índios não usavam. Isso é medieval. A Igreja católica nunca reprimiu as mulheres que rezam espinhela caída, mal olhado etc. Nem na época da Inquisição aqui no Nordeste.

- A Igreja aceita?

- A Igreja católica sempre utilizou a magia. A teologia católica diz que Cristo é Rei, sacerdote e profeta. Rei vamos deixar por fora, porque o rei é uma categoria que não é do sagrado, não é do céu. Do ponto de vista da Antropologia, que estou praticando, podemos dizer que o Cristo é sacerdote, mágico e profeta.

- Essa magia ainda está presente nos dias atuais?

- Está presente hoje. Vou dar um exemplo: um rapaz estava contando que houve uma festa no interior e ele levou uma facada aqui assim no ombro. Lá nele. Por que diz lá nele? Porque se disse que foi aqui assim no meu ombro e não disse lá nele, ofende. E eu testei que isso é a força mágica da palavra. Em todos os estados brasileiros existe a mesma coisa.

- O receio em pronunciar o nome de doenças...

- Por que é que os populares têm medo disso? Um dia eu conversando com a mãe de um colega eu perguntei: por que e que os doutores estão trocando os nomes das doenças? Antigamente não era lepra, desde a Bíblia? Por que hoje é hanseníase? Lá nele. Ela disse, ah meu filho isso é para o povo não ter medo.

- A religião também explora essa magia?

- Em torno de toda grande cidade a um centro de peregrinação. O que tem isso a ver com a magia? A sala dos milagres, os ex-votos. A Igreja católica não consegue repreender. Meu amigo Antônio Marques de Carvalho Júnior, maior colecionador de arte popular da América Latina, que mora em Natal, ex-professor da Universidade, foi em São Severino do Ramo comprou alguns ex-votos. O encarregado, o sacristão disse: olhe o senhor pode depositar ali. Ele retrucou: eu comprei é meu, ao que o sacristão disse: não senhor, são do santo. Em Aparecida há uma indústria da Igreja para fabricar ex-votos. Tudo isso é magia. As Igrejas, mesmo as mais modernas buscam os milagres, as curas.

 

Relacionadas