quarta, 18 de outubro de 2017
Geral
Compartilhar:

Ansiedade e a ‘doença da modernidade’ que provoca muitas dores

Luiz Carlos Sousa / 18 de junho de 2017
Foto: Rafael Passos
Um tipo de problema de saúde tem se tornado comum por causa da ansiedade do dia a dia. É a Disfunção Temporomandibular, que provoca dores e precisa de tratamento especializado. O cirurgião dentista Antonio Carlos Carvalho Santos explica que a doença afeta mais as mulheres entre 25 e 40 anos de idade e a reabilitação vem a partir de uma abordagem que envolve reeducação de posturas e, às vezes, precisa de atuação interdisciplinar com a intervenção de fisioterapeuta e fonoaudiólogo. Nessa conversa com o Correio, Antonio Carlos fala dos sintomas, dos riscos da automedicação e dos problemas que o uso exagerado de engenhocas eletrônicas pode causar.

- É comum hoje se recorrer ao dentista por conta de dores na articulação da mandíbula?

- Está se tornando muito comum por causa da vida estressante que a população tem. Chamamos tecnicamente de Disfunção Temporomandibular. A ansiedade acaba influenciando muito nos problemas que o paciente pode apresentar, como dores na face, nas articulações, travamento.

- Por que o estresse tem essa ligação?

- O indivíduo quando está sob estresse muda toda a química do corpo dele. E, muitas vezes, ele leva para os músculos da mastigação essa ansiedade. Começa a ter, por exemplo, apertamento, bruxismo à noite, ou mesmo durante o dia no trabalho. É um problema comum no mundo ocidental, à vida nas cidades.

- O vício nessas engenhocas tecnológicas influencia?

- Na vida moderna, o uso de smartphone – o paciente passa horas com a cabeça voltada para baixo contraindo e apertando os dentes. No ambiente de trabalho, nem sempre o indivíduo percebe que está ansioso e acaba apertando os dentes ou rangendo um no outro. No final da jornada, ele pode ter dores na articulação.

-A perda de dentes, por exemplo, num acidente, também pode provocar essas dores?

- Em pacientes que têm perda dentária, ou que usam próteses, pode haver esse problema, mas isso numa porcentagem muito baixa.

- A alimentação?

- O indivíduo quando tem a disfunção é orientado a ingerir uma alimentação mais pastosa para que não haja sobrecarga na articulação. Em alguns casos há espasmo muscular – nos músculos que envolvem a mastigação – e se ele ingerir um alimento mais fibroso pode desencadear mais ainda as dores.

- A disfunção provoca que tipo de problema no indivíduo?

- Isso varia de indivíduo para indivíduo, mas o problema maior é a dor que o paciente sente na articulação próxima ao ouvido. Alguns pacientes podem desenvolver labirintite, outros sofrem dores cervicais, dores na região da nuca ou na região do trapézio – a parte alta do dorso. O indivíduo pode ter algum tipo de travamento – o popular cair o queixo.

- A mandíbula cai?

- Exatamente. Há vários formas de o paciente sofrer o travamento, como o fechado, quando ele mal consegue abrir a boca. Nesses casos, geralmente, há envolvimento muscular. Há tanto espasmo muscular que ele não consegue abrir a boca. Em outros indivíduos, muitas vezes, por problemas mais articulares, pode haver o que chamamos de luxação – ele cai o queixo, o travamento aberto. O queixo pode cair e não voltar ao normal e vai precisar de ajuda de um profissional.

- Por que se encaixa na Odontologia, se há envolvimento muscular ou do osso da mandíbula?

- Essa articulação é estudada na Odontologia, pela relação que tem com os músculos da mastigação. Envolve dores que podem ter reflexos em outros músculos.

- Há um período da vida em que o problema pode ser mais comum?

- Há uma relação com a idade. Geralmente é uma disfunção que acomete mais as mulheres, porque o tecido muscular da mulher é diferente do homem. E ocorre mais na fase produtiva entre os 20 e 45 anos de idade. Ocorre também em homens, mas numa porcentagem muito menor e nas crianças muito raramente.

- Quando ocorre em crianças?

- Naquelas que são muito ansiosas, que têm algum distúrbio no sono, que passam a noite jogando algum game, as hiperativas que vão dormir às 3h e às 7h têm que ir para a escola podem desenvolver algum tipo de disfunção no sono nos exemplos do apertamento e do bruxismo e começar a desenvolver dores musculares.

- Que abordagens o profissional pode adotar para dar conforto ao paciente?

- Nos casos cirúrgicos há a vantagem do tratamento ser rápido. São casos em o paciente tem algum tipo de artrose muito grande – ocorre mais em pacientes idosos. É necessária a atuação do cirurgião buco-maxilar. Mas na maioria dos casos, o tratamento é feito no consultório com a reabilitação do paciente. No tratamento o paciente é orientado a mudar hábitos, desde a postura do sono, uso do travesseiro, ambiente de trabalho. Muitas vezes, o paciente nem sabe que faz o apertamento.

- Parece ser uma doença dos tempos modernos?

- E é. Até a especialidade começou a se organizar como tal em 2002. Até então não se trabalhava muito com isso.

- Chama a atenção o fato de o estresse poder provocar um problema tão extremo numa articulação...

- A ansiedade leva ao espasmo muscular. Quem sofre de ansiedade está com toda a parte muscular tensa. E os músculos que levam a maioria dos indivíduos a esse problema são os músculos da mastigação. Varia de indivíduo para indivíduo.



- Algumas pessoas têm a mandíbula crescida. Isso afeta a articulação a ponto de provocar disfunção?

- Os pacientes quem têm esse problema esquelético podem não ter nenhum tipo de problema na articulação. Às vezes a correção é apenas com fins estéticos – o paciente fica com  face mais bela. Quando é funcional, ele vai mastigar melhor. Há pacientes que dizem após a cirurgia: agora eu sei o que é mastigar. Também há indivíduos que têm a mandíbula muito curta e não têm problema na mastigação.

- Mas muita gente imagina que uma mandíbula com alguma alteração é sinônimo de disfunção?

- É comum a população pensar assim que o indivíduo por ter uma deformidade vai ter dor na articulação temporomandibular. Eu trato pacientes que têm todos os dentes, tudo equilibrado e têm disfunção. Não são apenas os fatores relacionados aos dentes e aos ossos, por isso comecei a entrevista falando muito da ansiedade, da vida moderna, postura do sono. É um conjunto.

- O tratamento é demorado.

- De três a quatro meses e o paciente tem que seguir as recomendações, inclusive, tem, também, e é superimportante em alguns casos, a atuação do fisioterapeuta, em outros casos do fonoaudiólogo e do psicólogo. Não há um medicamento específico como alguns pacientes querem. Há analgésicos para tratar o sintoma. Na verdade o paciente tem que ser reabilitado. E cada caso vai mostrar o que precisa ser feito.

-A disfunção pode trazer problemas para a articulação?

- Sim. Se o indivíduo tem um grande espasmo muscular que não consegue nem abrir a boca, ele vai ter problemas na dicção. Fica um indivíduo de semblante triste. Ele lembra que abria a boca e não está conseguindo mais abrir. Quando o indivíduo sofre uma luxação, trava o queixo aberto, não vai conseguir mastigar. Vai ter dor. E a dicção vai sofrer influência. Em alguns casos, o fonoaudiólogo vai atuar, junto com o dentista para reabilitar a fala.



- Tem gente que demora a procurar o profissional e quando chega o problema está agudo?

- Há paciente que tem o problema há anos, dez doze anos. E quando chega não é só com o dentista que vai resolver.

- Chama a atenção o paciente com um problema que causa tamanho desconforto levar tanto tempo para procurar ajudar profissional...

- É a questão da informação. A própria especialidade tem 15 anos. E muitos pacientes fazem uso da automedicação, que e um problema terrível no Brasil. Vão tomar bons analgésicos, mas que são paliativos, que não vão atuar na causa.

- Os sintomas não podem confundir também, levando-os a outros profissionais?

- Sim, sim. E muitas vezes vão prescrever para o paciente um relaxante muscular, terá uma melhora momentânea, vai passar a comprar o relaxante e inicia aquele ciclo que já conhecemos. Quando o paciente vai ao otorrino primeiro, o que é comum, ele encaminha para o dentista especializado. E isso ocorre por causa da dor no ouvido, que é comum. Muitas vezes, há tanta pressão na articulação que desencadeia labirintite. O otorrino examina, vê que não há infecção e encaminha.

- Com o profissional fecha o diagnóstico? Que exames são necessários?

- O paciente faz a consulta, geralmente é demorada, há todo um levantamento da vida dele que puder ser relatada para se tentar detectar se há uma fase de muita ansiedade, o tempo dos sintomas e, após os exames clínicos, serão solicitados exames de imagens – radiografia e nos casos de deslocamento de disco, a ressonância magnética.

- Há casos provocados por traumas externos, um acidente, por exemplo?

- Às vezes, até na prática de esportes. Primeiro, deve ser diagnosticado o que ocorreu, por exemplo, se houve fratura de mandíbula, não vai fazer um procedimento clínico, vai procurar um hospital e lá o cirurgião buco-maxilo-facial vai fazer o procedimento necessário. Nesse caso não tem disfunção. Agora existe o indivíduo que cai no futebol e sofre uma torção – se automedica, toma analgésicos – e nota que a articulação não está boa, dói com esforço e pode ser a disfunção temporomandibular.

- Há outros problemas de saúde que levem a essa disfunção, como apneia do sono e o ronco?

- O que ocorre é que os pacientes que sofrem de apneia obstrutiva do sono são pacientes que não dormem bem, vão trabalhar cansados. Quem vai trabalhar cansado tem ansiedade. Essa ansiedade pode levar o indivíduo a produzir menos, ele vai ser cobrado e aí desenvolve o apertamento, mas a apneia em si não leva ao problema.

- E quanto ao ronco?

- O ronco está muito associado à apneia obstrutiva do sono. Geralmente afeta pacientes acima dos trinta anos, um pouco obesos – alguns ingerem bebida alcoólica à noite - têm a mandíbula um pouco curta, outros tomam medicamentos neurológicos, que causam relaxamento. É muito complexo saber porque o indivíduo ronca.

Relacionadas