quarta, 22 de novembro de 2017
Turismo
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Campinenses transformam turismo rural e cultural e dão novas formas e cores à cidade

Fábio Cardoso / 04 de abril de 2016
Foto: Beth Ribeiro
Quando nos propormos a arrumar as malas para conhecer um destino turístico novo, é encher uma mala com roupas, mas uma outra imaginária, vazia. Os roteiros formatados partem do princípio de que a Avenida Paulista está em São Paulo; o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro; o elevador Lacerda, em Salvador; que a Ponta dos Seixas é o ponto mais oriental das Américas e está em João Pessoa.

O grande barato de uma viagem, no entanto, não é visitar o óbvio. Claro que uma foto para imortalizar aqueles momentos especiais é importante, mas tem crescido no mundo a busca pelo turismo de experiência, aquele que, além de conhecer os locais, a gente sente o calor humano, a criatividade, as histórias de vida de cada personagem que a gente vê pela frente, a luta pela sobrevivência, os desafios, os ensinamentos e a mudança de vida social, a mínima que seja.

A Paraíba, conforme a gestora de Turismo do Sebrae, Regina Amorim, tem sido pioneira no garimpo de lugares inusitados, e com raízes no turismo de comunidade criativa, que vem contribuindo de forma positiva para a melhoria da renda de dezenas de famílias. Essa peneira tem sido feita pela consultora do Sebrae-PB, Mirian Rocha, que tem descoberto pedras preciosas pelo interior paraibano e que estão sendo esculpidas para poderem se transformar na teoria e prática em verdadeiros tesouros.

No sábado (02), o Sebrae levou um grupo de jornalistas para conhecer mais uma página desse garimpo e, mais do que lugares bucólicos, paisagens encantadoras, vistas magníficas, os turistas puderam conhecer personagens, se emocionar com as suas histórias, entender como se sai de desalento para o entusiasmo, perceber como coisas tão simples para a maioria das pessoas representam um caminho novo e desafiador para elas e as suas futuras gerações.

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O roteiro teve início em uma área rural de Campina Grande, uma descoberta onde os turistas podem conhecer a cidade do alto, acampar, curtir a natureza com muito verde e ainda degustar de comidas típicas feitas com produtos tirados do próprio local. Nessa área, as pessoas se encantam com as histórias de vida de alguns personagens, como a mãe e filha (Maria de Lourdes e Cristina Barros), que criaram uma área de charme, onde oferecem pacotes para os turistas curtirem um dia bem diferente.

Nessa área, à sombra de uma jaqueira, os turistas podem degustar bolos de macaxeira, banana, mandioca, entre outros. O detalhe do bolo de mandioca, conforme explicou Dona Maria de Lourdes, é o ritual para a sua produção. A mandioca passa pelo processo de molho em um tanque formado pela natureza. São três dias de molho, mas o segredo da receita não foi revelado. O cardápio tem preços bastante atrativos. Um café da manhã custa em média R$ 15, enquanto o almoço é cobrado de acordo com o número de pessoas. Charme é um passeio de charrete na companhia de Zé de Deinha, um senhor que é uma grande figura, falador e contador de histórias.

O local onde Dona Maria de Lourdes está desenvolvendo um projeto turístico de acolhimento não tem espaço para pernoite. Mas é aí que entra em cena a segunda desbravadora do turismo de experiência em plena zona rural de Campina Grande. Renata Arnaud está em vias de concluir um projeto para oferecer hospedagem para os visitantes. Os turistas poderão acampar em uma área onde são armadas até 20 barracas - ela tem quatro para quem não tem ou não quiser levar -, um trailer com capacidade para cinco pessoas. Os preços sugeridos são de R$ 50, e o café da manhã, que custa R$ 12. Existe a opção de almoço também.

Na mesma área, os turistas podem conhecer os bordados das mulheres de Arusi, que são vendidos com preços entre R$ 5 e R$ 20. Os grupos são recebidos no ritmo do forró pé de serra, mas, de acordo com Palmira Araújo, que coordena as oficinas de artesanato, com foco nos bordados, o objetivo desse trabalho não é apenas financeiro, mas eminentemente social. Muitas dessas mulheres - por enquanto num total de 18 - já sofreram preconceito dentro de casa pelos próprios maridos. Muitas delas têm reagido e fugindo, além desse preconceito, do alcoolismo e depressão.

Essa independência tem provocado mudança social muito importante, segundo Palmira, que é psicóloga e está estudando para ser mestre em Psicanálise. Ela conta com o trabalho dos presidentes das Associações da Arusi, de Campina Grande, e da Catarina, de Puxinanã, Rubem Alves e José Apolinário, respectivamente. Rubem conta que os homens já estão se habituando a entender esse momento de suas mulheres. Eles estão sendo alfabetizados pelas associações e recebendo consultoria na área da Agricultura. Muitos já apoiam e participam das atividades, inclusive, com as crianças, que são peça fundamental nesse processo de transformação.

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Descendo da zona rural para a urbana, o nosso roteiro por Campina Grande chegou no Museu da Arte Popular da Paraíba, administrado pela Universidade Estadual da Paraíba, no Açude Velho. No local, nesse sábado, estava acontecendo o projeto Volante Cultural, com a apresentação de embolada, danças folclóricas e o tradicional xaxado, além de oficinas de bordado e bonecos de marionetes.

Entre os personagens presentes, um deles chamou a atenção de todos. Corrinha dos Bonecos estava com a sua inseparável boneca, a Candelina, que, segundo ela, é uma “menina” muito sapeca e antenada e que gosta de conversar muito com as pessoas. A sua avó, Dona Naná, também é uma figura e encanta a todos. Corrinha, na realidade, é uma senhora que se apresenta com os seus bonecos em eventos, feiras e até festas de aniversários, e que tem um atelier onde cria os bonecos, ensina como criá-los e ainda os vendem por preços que custam entre R$ 20 e R$ 200. Todo esse movimento é coordenado pelo Instituto Rede Repente.

O encerramento desse roteiro inédito acontece no Quadrilhando, uma arena no bairro do Catolé, pertencente à Federação das Indústrias da Paraíba, onde ocorrem apresentações de quadrilha junina tradicional e teatro com casamento matuto, sempre no primeiro sábado de cada mês. A proposta do Quadrinhando, além de buscar mais recursos para manter as quadrilhas juninas - são 12 no total -, é mostrar a tradição das quadrilhas de raiz, sem o glamour das mais badaladas da cidade, que chegam a se apresentar em outros estados e participar de competições regionais.

No Quadrilhando uma das personagens do processo de surgimento e crescimento das quadrilhas juninas de Campina Grande é a Dona Lenira, uma senhora de 84 anos de idade que criou a primeira quadrilha junina ensaiada de rua a pedido do filho Evandro Gomes. Antes já havia criado quadrilhas nas escolas Santo Antônio e Assis Châteaubriant. A Dona Lenira disse que tem muita saudade daqueles tempos, mas, sobretudo, daquelas quadrilhas sem a sofisticação e glamour de hoje.

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Na área onde ocorre o Quadrilhando só se respira o São João, os turistas são levados a uma experiência de estarem em um verdadeiro arraial, que tem até dinheiro próprio, Matuto. Ao chegar, as pessoas “compram” o matuto de acordo com o valor das cédulas, de R$ 1, R$ 2, R$ 5 e R$ 10. Os preços praticados no local são justos e o turista pode tirar fotos vestidos com roupa de matuto e de quadrilheiro. Além da apresentação da quadrilha de raiz, acontecem shows de forró, sempre com trios de forrozeiros.

Serviço:

Café na Sombra de Jaqueira - Maria Barros - 99103-3489

Passeio de Charrete - Maria de Lourdes - 99103-3489

Acampamento - Renata Albuquerque - 99111-3052

Mulheres de Arusi - Palmira Araújo - 99979-8122

Volante Cultural - Luana Ramalho - 98634-1102

Bonecas de Marionetes - Maria do Socorro - 98660-6582

Quadrilhando - Lima Filho - 98756-2685

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