segunda, 19 de fevereiro de 2018
Economia
Compartilhar:

Turismo de cultura e costumes transforma Tribo Indígena

Fábio Cardoso e Beth Ribeiro / 18 de Abril de 2016
Foto: Beth Ribeiro
Todo dia é dia de índio. Trecho de uma música cantada por Baby Consuelo é um protesto contra a condição sub-humana a qual os primeiros moradores dessa terra chamada Brasil vivem em muitos cantos até hoje. O processo de colonização protagonizada pelos invasores europeus trouxe escravidão, doenças e extinção de várias etnias indígenas ao longo da nossa mais recente história.

Mas, em muitas tribos indígenas, os índios também mudaram as suas rotinas e não quer apenas só apito. Os índicos tiveram que se adaptar aos costumes do homem branco, ficaram escolarizados, se envolveram com a política e mais recentemente entenderam que somente compartilhando sua cultura, sua diversidade, seus costumes com a sociedade poderiam continuar a escrever a sua história, agora também com forte transformação social-econômica.

No Mato Grosso, no pequeno município de Campo Novo do Parecis, a 480 km de Cuiabá, a tribo indígena Wazare, localizada a 70 km da cidade, vive uma verdadeira revolução com a nova ordem social, com a implementação do projeto turístico intitulado a Rota das Tribos, um processo ousado da prefeitura de Campo Novo, o Governo do Estado e a tribo Wazare.

Na chegada à aldeia, um grupo de jornalistas brasileiros e estrangeiros é recepcionado pelos índios que, logo de cara, fazem a dança de boas-vidas. O cacique Paresi Rony Azoinaice, que vive na área urbana, tendo curso acadêmico, faz o papel de mestre de cerimônia e de guia de turismo ao mesmo tempo. Ele inicialmente aponta que o projeto para atrair turistas não tem a intenção de apenas ter lucro, mas, sobretudo, apresentar uma nova realidade do cotidiano dos índios daquela região.

“Queremos a presença dos turistas para que possam conhecer a nossa cultura de forma que tenham um maior convívio, participando de nossas atividades esportivas e religiosas, conhecendo também nossos costumes, nossa religiosidade e nossa cultura”, antecipa o cacique. As visitas acontecem apenas durante seis dias durante o mês, segundo o cacique, para não alterar de forma mais intensa a intimidade dos moradores da tribo, que são pessoas simpáticas, mas muitos tímidos e desconfiados.

Na visita realizada durante todo o dia de sábado (16), o grupo pode vivenciar toda a cultura e costumes dos índios de etnia parecis. O cacique Rony destacou alguns elementos que podem ser apresentados aos turistas durante a visitação: conhecer a diversidade sociocultural; entender o conceito espiritual religioso ao qual todos compartilham independente de povos e culturas; e as atividades turísticas que passaram a ser o carro-chefe da economia da tribo.

indio5

No ano passado, conforme o cacique Rony, cerca de 200 pessoas estiveram na tribo compartilhando o cotidiano dos indígenas. Na área, praticamente tudo é pago, mas há roteiros especiais para alunos da rede municipal de ensino, que são bem-vindos para poderem ser interlocutores para a preservação da cultura indígena da região. Cerca de 40% de tudo que é arrecadado com o turismo é investido na atividade. “Hoje o turismo é o projeto de vida da tribo”, enfatiza o cacique Rony.

Ele não titubeia ao ser questionado sobre os costumes indígenas e afirma que toda cultura se transforma e que todos, atualmente, vivem os dois mundos - do índio e do branco. “O que é o índio hoje? Ainda é do tempo da pedra? Da chegada de Cabral? Não. Hoje o índio é contemporâneo, vive uma nova realidade sem perder seus costumes, sua cultura, sua religiosidade”, desabafa o cacique.

No passeio vendido por uma agência de viagem de Campo Novo, ou negociado pela própria tribo - o visitante tem que ir com seu próprio transporte -, os grupos fazem uma visita panorâmica por toda área indígena, conhecem as simbologias das danças e das pinturas; participam de algumas atividades esportiva - a que chama mais atenção é o futebol jogado com a cabeça -; conhecem a produção artesanal, que é vendida a preços de até R$ 1 mil, como cocares, pulseiras e brincos; tem acesso aos remédios naturais; e entram em duas casas preparadas exclusivamente para aquele momento.

O cacique Rony disse que a tribo, assim como em qualquer administração pública, tem seus representantes. Os caciques atuam na política, chamados de prefeitos também; os pajés são os orientadores espirituais; enquanto que os curadores são uma espécie de médicos. Ainda há os assessores do cacique.

Toda aquela bela região dos longínquos quilômetros que separam Cuiabá da tribo indígena em uma viagem de quase seis horas de duração, é perfeitamente gratificante quando nos deparamos com a natureza. Além de seus moradores, o local reserva uma série de atividades lado a lado com a natureza, como banho nas águas transparentes do Rio Verde, em uma área onde a prática do rapel, rafting, canoagem, flutuação e mergulho livre são imperdíveis.

indio6

O prefeito de Campo Verde, Mauro Belfort, revela que o grande desafio de se criar esse roteiro foi a barreira do idioma, mas, sobretudo, a desconfiança da maioria dos índios. O turismo era algo muito distante da maioria, que não compreendia o significado bem a importância das atividades inerentes a ele. “Tivemos que fazer um processo de aproximação com os índios e fazê-los perceber que o turismo etnológico seria um grande negócio para todos”, enfatiza Belfort.

Com a criação da aldeia Wazare, há cinco anos, esse processo teve uma rápida compreensão, em especial, porque muitos dos índios de tribo estudam fora de seu habitat, muitos já são acadêmicos e tiveram a percepção de que a atividade turística passaria a ser a maior fonte de renda deles. Na Wazare vivem atualmente 37 índios pertencentes a 12 famílias. A reportagem conheceu uma das moradoras do local, uma paulista que não quis dizer o nome e muito menos contato mais próximo. Segundo a reportagem apurou, ela não conta com o apoio da família para estar ali.

Além da recepção dos índicos, representados pelo cacique Rony, estiveram presentes durante a visita dos jornalistas a vice-prefeita de Campo Novo, Edlame Marques e o secretário de Cultura e Turismo, Vanderlei Huelh.

Curiosidades:

O hatí ou casa feita com a entrada para o leste e a saída para o oeste, o leste é onde o sol nasce e o oeste onde ele se põe, a porta é baixa para que nos curvemos ao entrar na casa, como se estivesse pedindo licença para entrar e, do mesmo modo, ao sair baixamos a cabeça agradecendo o privilégio de temos sido recebidos pelos donos da casa;

Quando algum índio morre, é enterrado dentro e no centro da casa em que vivi para que a essência da pessoa proteja a sua família;

Existem 4 festas comemoradas pelos índios: batismo, quando a menina se torna mulher, quando alguém adoece se faz uma festa para pedir força e proteção e assim recuperar as forças e, na colheita, comemora-se a boa colheita;

Wazare é a primeira aldeia de Etnoturismo do Mato Grosso, e tem 35 pessoas vivendo na em sua área.

Todos vivem do etnoturismo e do artesanato;

Os produtos de artesanato têm preços variados, como os brincos de R$ 5 a R$ 35; arco e flecha R$ 150 a R$ 350; colares R$ 10 a R$ 50; tiara R$ 80 a R$ 150; bracelete R$ 70 a R$ 100; cocar R$ 100 a R$ 500.

Todos os produtos artesanais são em geral são feitos de sementes e penas de aves e traz uma renda média de R$ 700 por mês para a artesã.

Relacionadas