segunda, 20 de novembro de 2017
Economia
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Reflexos da inflação: famílias começam a comprar menos e carrinhos ficam mais vazios

Ellyka Akemy / 20 de março de 2016
Foto: Nalva Figueiredo
As autoridades econômicas tentam, mas não conseguem barrar a inflação. Os números mostram que nem mesmo a recessão conseguiu dominá-la. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado no início do mês pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ficou em 10,36% no acumulado dos últimos 12 meses. Os economistas afirmam que esta inflação é a pior dos últimos dez anos tanto pela intensidade na alta dos preços quanto por sua persistência.

Embora a inflação afete de algum modo vários segmentos familiares (despesas pessoais, habitação, educação etc.), é na mesa onde ela pesa mais. As famílias estão vendo o carrinho do supermercado ficar dia após dia mais enxuto.

Conforme pesquisa do Instituto de Desenvolvimento Municipal e Estadual (Ideme), o último Índice de Preços ao Consumidor de João Pessoa, que calcula o custo de vida da população, apontou que os alimentos aumentaram 5,76% em fevereiro, em relação a janeiro.

A conta é simples: uma família que pagou R$ 350 na feira de janeiro teve que desembolsar mais R$ 20 em fevereiro para levar a mesma quantidade de produtos.

O economista Fernando Dias explicou o motivo desse cenário. “A elevação nos preços tende a ser mais forte nos produtos que são mais necessários ao consumo, é o que os especialistas chamam de bens de demanda inelástica. E os alimentos, a moradia e a educação estão nesta cesta”, revelou.

O cientista da computação Adalberto Teixeira tem 24 anos, é solteiro, mora sozinho e uma renda de aproximadamente quatro salários mínimos. O professor Jucinaldo Pereira, de 41 anos, é casado, tem dois filhos e ganha cerca de três salários mínimos. Os dois têm estilos de vidas diferentes, mas foram unânimes ao serem questionados sobre o que mais pesa no orçamento doméstico: a alimentação.

Mudanças no padrão de vida

O advogado Ricardo Fernandes e a servidora pública Lucilene Agostino são casados e têm três filhos: Ricardo (8), Rebecca (4) e Rachel (2). A família precisou fazer mudanças no padrão de vida para adequar o orçamento aos constantes aumentos de preço. O lazer foi o primeiro a ser cortado. “Já faz meses que não saímos aos finais de semana e também não jantamos mais fora”, contou Lucilene.

Além disso, a família tenta utilizar apenas um carro durante a semana para economizar com a gasolina. Os cartões de créditos estão temporariamente “confiscados”, compras agora somente à vista. Eles trocaram de plano saúde mensal com alíquota cheia, para o plano em cotas de participação. Ricardo passou a almoçar em casa para evitar gastos com refeições externas. E, no supermercado, ele trocou vários produtos de marcas tradicionais por outros mais em conta. “Mensalmente faço pesquisa de preço em três estabelecimentos diferentes. E observamos que os de bairro oferecem preços melhores e fazem mais promoções. Não passamos mais as compras no cartão de crédito, porque alguns locais dão desconto no pagamento à vista”, revelou o advogado.

A servidora pública comentou que o mais cruel da inflação é porque, quando uma família começa a cortar itens da cesta básica, normalmente ela já tem diminuído gastos com outras despesas.

Recessão em alta

Por que a recessão não conseguiu frear a inflação? “Por quatro questões principais: indexação, inércia, câmbio [desvalorização do real frente ao dólar] e déficit público”, revelou o economista e pesquisador Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, André Braz.

Segundo o especialista, a indexação joga para o presente a inflação acumulada no passado. Isso influência o aumento, por exemplo, nos contratos de aluguel, nas mensalidades escolares e em algumas tarifas públicas.

A inércia está relacionada às expectativas dos agentes econômicos: bancos, empresas e famílias. “Se acreditamos que a inflação vai subir, a tendência é ajustarmos os preços nessa expectativa. Os empresários aumentam os preços e os trabalhadores reivindicam maiores reajustes salariais”, explicou.

As desvalorizações cambiais tornam itens que utilizam componentes importados mais caros. Além disso, várias commodities agrícolas têm seus preços cotados em dólar (soja, milho e trigo). Se, por exemplo, o trigo fica mais caro, teremos vários itens derivados, como o pão francês, os biscoitos e o macarrão, subindo de preços.

“Se o governo gasta mais do que arrecada, ele terá que imprimir moeda para honrar seus compromissos. Quanto mais moeda em circulação, menor o seu valor (Lei da oferta e da procura). E, como a moeda perdeu valor, precisaremos de mais para comprar os mesmos produtos. Isso é o que chamamos de imposto inflacionário”, explicou o economista.

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