terça, 21 de novembro de 2017
Economia
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Mais arrocho na economia e os gastos com contas fixas apertam o bolso

Celina Modesto / 20 de março de 2017
Muitos aguardaram ansiosamente pelo ano de 2017 porque acreditavam que o que estava ruim, não poderia piorar. Entretanto, pesquisa inédita da Boa Vista SCPC mostrou que a expectativa foi frustrada para muita gente. Pelo menos 45% dos consumidores que responderam à pesquisa afirmaram que a economia hoje está pior em relação ao ano passado. Somente 17% acreditam que a situação melhorou, enquanto 38% não conseguiram ainda ver diferença alguma. Enquanto isso, 79% continuam crendo que a economia vai melhorar no próximo ano.

Por outro lado, a renda familiar também se mostrou uma preocupação constante. Quando questionados se o dinheiro de todos os membros da família é suficiente para pagar os gastos fixos no final do mês, a resposta não foi nada animadora. Mesmo alegando suficiência de renda para pagar as contas, a dificuldade em pagá-las no final do mês abrange mais de 50% dos consumidores, independente da classe social.

De acordo com a pesquisa da Boa Vista SCPC, 51% dos entrevistados consideram difícil pagar as contas do mês com a renda mensal atual da família, enquanto 32% disseram ser muito difícil. Como despesas fixas, o órgão considerou contas de água, luz, telefone, TV paga, celular, cartões e financiamentos, além de ter acrescido também despesas extras. A auxiliar administrativa Edilma Martins considera difícil pagar as contas mensais com a renda familiar.

“É muito complicado. Dá para fazer a feira e olhe lá. Mesmo assim, ainda consigo poupar para emergências, porque senão desanda. Para mim, esse ano ainda está do mesmo jeito que o ano passado, mas espero que melhore, com certeza”, afirmou. O autônomo Jorge Gomes, por sua vez, voltou ao país faz dois meses, mas só ouve comentários acerca da crise onde quer que vá. “Estou tentando me restabelecer aqui e procurar um emprego, mas está difícil. Espero que a economia melhore e que mais oportunidades apareçam, não só para mim, mas para todos que estão precisando”, disse.

Ainda, a Boa Vista SCPC questionou acerca do poder de compra dos consumidores. Para 65% dos entrevistados, o poder de compra diminuiu em relação ao ano passado. Ou seja, tem comprado menos atualmente. Já 24% afirmam que o poder de compra em relação a 2016 está igual, mantendo assim as mesmas compras que já estavam acostumados a fazer.

O levantamento produzido em função do Dia Internacional do Consumidor, que foi comemorado no último dia 15, também buscou saber dos entrevistados o quanto se sentem informados sobre as questões políticas e econômicas do país. Do total, 57% alegam estar informados parcialmente, 28% totalmente bem informados e 15% dizem não se sentir informados sobre os assuntos que pautam a política e a economia do país.

Poupar ou não poupar?

A Boa Vista SCPC também quis saber como estão os hábitos dos consumidores com relação as suas economias. A pesquisa constatou que 77% não estão conseguindo poupar, contra 23% que têm conseguido guardar algum dinheiro. Daqueles que conseguem poupar no fim do mês, 56% optam pela poupança, enquanto 31%, no entanto, afirmam aplicar em fundos, ações, CDB e outras modalidades de investimentos. Apenas 13% afirmaram aplicar em previdência privada.

E se o cenário econômico atual não está fácil para a maioria das pessoas, a Boa Vista também perguntou como está o comprometimento com o pagamento das contas. No geral, oito em cada dez consumidores afirmam que já tiveram crédito negado em virtude da restrição no SCPC e, 49% deles dizem estar negativados atualmente.

 Divisão por classe social

A maioria da classe DE se coloca como menos informada com relação às questões políticas e econômicas do país, com 21% dos respondentes. Dos entrevistados da classe AB, 56% afirmam estar totalmente informados sobre as questões políticas e econômicas do país. A maioria da classe C (59%) alega estar parcialmente bem informado sobre o cenário político e econômico atual. A maioria da classe DE (52%) também acredita que a economia hoje está pior do que em 2016. A expectativa de um cenário melhor em 2018 é consenso em todas as classes AB (77%) e C e DE (79%), respectivamente.

A sondagem da Boa Vista SCPC perguntou ainda aos consumidores o que levam em consideração, em primeiro lugar, ao decidir pela compra dos seguintes produtos ou serviços. Os entrevistados das classes AB e C buscam por qualidade em quase todos os itens. Promoções prevalecem na classe DE.

Quatro em cada dez consumidores classificam sua vida financeira como ruim

A queda da atividade econômica e o alto índice de desemprego influenciam diretamente na vida e confiança dos brasileiros, de acordo com o Indicador de Confiança do Consumidor (ICC) medido pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL). O cálculo mensal é baseado em avaliações do consumidor acerca da economia e da própria vida financeira, quanto ao momento atual e expectativas para os próximos seis meses.

Numa escala de zero a 100, foram registrados 41,4 pontos em fevereiro de 2017, índice abaixo do nível neutro de 50 pontos, refletindo a má avaliação da economia. O resultado é pouco diferente dos 41,9 pontos registrados em janeiro. O subindicador de Percepção do Cenário Atual, que compõe o Indicador de Confiança, registrou 29,7 pontos em fevereiro de 2017, sendo que a avaliação da vida financeira ficou em 39,8 pontos. Já a avaliação da situação econômica atual registrou 19,5 pontos.

Em termos percentuais, quatro em cada dez consumidores (42%) classificam a própria vida financeira como ruim ou muito ruim. Os que a consideram regular somaram 41%, enquanto 15% a consideram boa ou muito boa. Os principais motivos para a avaliação negativa são orçamento apertado e dificuldades para pagar as contas (33%), desemprego (31%) e atraso no pagamento de dívidas (15%).

Com relação à economia, 82% dos entrevistados acreditam que a situação está ruim ou muito ruim, contra somente 3% que consideram a situação boa ou muito boa. Para 14%, o quadro econômico atual é regular. Entre os que fazem uma avaliação negativa, a maioria relativa (49%) atribui este resultado à corrupção e ao mau uso dos recursos públicos. Outros 27% creditam ao alto desemprego e 15% disseram que os preços dos produtos aumentaram.

“A percepção quase unânime de que a economia vai mal é reflexo de dois anos seguidos de recessão econômica”, afirmou a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti. “Mesmo quem não foi atingido diretamente pela crise tem conhecimento das más notícias do cenário econômico e é por isso que a percepção de deterioração da economia é mais acentuada do que a da vida financeira”, explicou.



Expectativa acima do neutro

Apesar de o momento atual estar sendo visto com desconfiança, o subindicador de expectativas registrou 53,1 pontos em fevereiro, pouco menor dos 54,2 pontos registrados em janeiro. O que contribuiu com o dado levemente acima do nível neutro foram as perspectivas sobre a própria vida financeira, que marcaram 61,9 pontos. Quando se trata da economia em geral, o indicador marcou 44,3 pontos, mostrando que os consumidores estão um pouco pessimistas.

A maioria relativa (39%) diz não estar nem otimista nem pessimista com o futuro da economia. Os pessimistas são 37% e os otimistas 21%. Entre os que estão pessimistas, o principal motivo apontado é a corrupção, incompetência dos governantes e impunidade dos políticos (49%), seguido daqueles que acreditam que o desemprego segue aumentando (25%) e os que imaginam que a inflação não será controlada e continuará subindo (8%).

Entre os otimistas, a maior parte (40%) não sabe o porquê confiar que a economia vai melhorar, 21% acreditam que a pior parte já passou e 11% concordam com as medidas econômicas que estão sendo adotadas.

Com relação às expectativas para a própria vida financeira, a maioria absoluta (56%) está otimista. Outros 26% não estão nem pessimistas nem otimistas e 14% estão pessimistas quando se trata do futuro. Entre os otimistas, o principal motivo é acreditar em arrumar novo emprego ou receber uma promoção (31%), seguido daqueles que não sabem explicar a razão do otimismo (29%), 12% que apostam em uma melhora da economia e 10% que garantem estar fazendo boa gestão das finanças pessoais.

Já entre os pessimistas, os principais motivos apontados são: descrença na melhora da economia (27%), situação financeira atual estar muito ruim (20%), preço das coisas continua aumentando (19%) e medo do desemprego (11%). “O desemprego é um dos efeitos sociais mais sensíveis da crise econômica. Impacta diretamente na confiança dos consumidores e, portanto, no consumo”, avaliou Marcela Kawauti.

Ainda de acordo com o indicador, 47% dos entrevistados afirmam ter pelo menos um desempregado em casa, sendo que 21% moram com pelo menos duas pessoas nessa condição. Na opinião dos entrevistados, o que contribui para o alto custo de vida é principalmente o aumento nos preços do supermercado (64%), aumento na conta de luz (58%) e na telefonia 38%.

 

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