terça, 17 de julho de 2018
Economia
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Forró gira economia e emprega 7,5 mil paraibanos

Celina Modesto e Fábio Cardoso / 06 de maio de 2018
Foto: Rafael Passos
Os festejos juninos, tradicionais em várias cidades paraibanas - contando, inclusive, com o São João de Campina Grande, considerado o maior do mundo - deverão gerar durante os dias de festividade pelo menos 7,3 mil empregos, entre diretos e indiretos. A estimativa contempla alguns municípios ouvidos pela reportagem, já que muitos ainda estão consolidando os dados relacionados à geração de emprego no período. Além disso, a expectativa com os investimentos das festas deve ultrapassar os R$ 25,05 milhões no Estado.

Em Campina Grande, por exemplo, o investimento no Maior São João do Mundo 2018 deverá ser próximo ao do ano passado, ou seja, por volta dos R$ 13 milhões, considerando tanto os gastos da prefeitura municipal quanto o da Aliança, empresa vencedora da licitação da parceria público-privada. Em relação aos empregos temporários, a estimativa é que sejam contratadas 5 mil pessoas no total.

Somente os setores de hotelaria e alimentação empregarão 600 pessoas em média - contando apenas com as instalações do Parque do Povo.

“Nos demais restaurantes de Campina Grande, além dos hotéis e pousadas, as contratações temporárias aumentam em torno de 20%. Atualmente, temos 1,9 mil trabalhadores nos dois setores, então, a expectativa é que 360 pessoas sejam empregadas temporariamente durante os 30 dias de festa nos hotéis, pousadas e restaurantes fora do Parque do Povo”, explicou o presidente do SindCampina, Divaldo Júnior.

O total de 5 mil empregos esperado pela prefeitura de Campina Grande se refere aos trabalhadores da montagem da estrutura do Parque do Povo, segurança, trabalhadores dos camarotes e ambulantes cadastrados, entre outras categorias. “O São João em Campina Grande é considerado o segundo Natal para o Comércio da cidade, em termos de movimentação financeira”, comentou o secretário de comunicação do município, Marcos Alfredo.

A programação do São João de Campina Grande já foi consolidada e divulgada desde o começo de abril. Neste ano, entre as atrações principais estão Elba Ramalho, Wesley Safadão, Léo Santana, Bell Marques, Luan Santana, Amazan e Flávio José. De acordo com informações oficiais, a estrutura da festa no Parque do Povo deverá ser a mesma do ano passado, ou seja, vai contar com oito restaurantes, 25 barracas de alimentação, 16 barracas da Vila Nova da Rainha, 112 bares, dez barracas na Pirâmide e duas palhoças: Zé Lagoa e Seu Vavá.

Unidade nos municípios

Enquanto algumas cidades, a exemplo de Campina Grande e Patos, já têm altos investimentos e festas bastante procuradas, outros municípios com festas tradicionais, porém menores, tiveram os festejos coordenados para, além de evitar competição entre si, garantir que todos aproveitassem ao máximo o período junino.

Foi o caso de dois roteiros criados aqui no Estado: o Circuito Junino do Brejo e o Arraiá do Interior. O Circuito Junino do Brejo já está na sua segunda edição e agregou mais cidades este ano. Já o Arraiá do Interior é realizado pela primeira vez este ano, confirmando a tendência da união entre as cidades próximas.

De acordo com o presidente do Fórum Turístico do Brejo da Paraíba, Sérgerson Silvestre, a tendência é importante porque se antes as festas eram separadas e competiam entre si, agora podem compartilhar não somente o público, mas também os custos com infraestrutura e divulgação, por exemplo.

De acordo com Silvestre, mesmo que a programação seja nos mesmos dias, as atrações são diferentes, o que garante a participação do público. “Esperamos que, nas seis cidades, sejam gerados em torno de 1,5 mil empregos diretos e indiretos. Todas são cidades que já têm festejos consolidados. O aquecimento na economia fica por conta da hospedagem e alimentação. O investimento total, contando as seis cidades, deve girar em torno de R$ 1,8 milhão”, comentou.

Já na última quinta-feira foi lançada a programação do ‘Arraiá do Interior - Aqui o forró começa mais cedo’, fruto da união dos municípios de Duas Estradas, Serra da Raiz, Lagoa de Dentro, Pedro Régis e Jacaraú, com o objetivo de fortalecer o turismo e os festejos juninos da região.

A programação terá início no dia 1 de junho em Duas Estradas com a abertura das ‘Estradas do Forró’ e no dia 7 com shows de Márcia Felipe e de Eduarda Brasil no dia 24. Em Lagoa de Dentro quem comanda as festas, do dia 15 a 17, é Amazan e Brasas do Forró; Em Serra da Raiz, nos dias 21, 22 e 23, as festas ficam por conta de Walkyria Santos e João Neto Pegadão. Já em julho, o ‘Arraiá do Interior’ chega ao município de Pedro Régis com show de Geninho Batalha e muito forró pé de serra. O encerramento, no dia 6 de julho, acontece em Jacaraú.

"No ano passado, juntaram três cidades: Solânea, que tem festa tradicional com forró mais atual; Bananeiras, com forró pé de serra; e Borborema, com a programação de forró vespertina. A ideia deu certo e, este ano, decidiram agregar mais três cidades: Serraria, Belém e Caiçara, que vão trabalhar os festejos de São Pedro", disse Sergerson Silvestre, presidente do Fórum Turístico do Brejo.

Ocupação hoteleira em alta

O presidente da Fecomércio, Marconi Medeiros, afirmou que a estimativa deste ano é de crescimento de 7% na ocupação da rede hoteleira do Estado. “Considerando João Pessoa, Campina Grande e Patos e o movimento nos restaurantes dessas três cidades”. No ano passado, segundo ele, “a ocupação ficou entre 79% e 85% em todo o Estado. A expectativa de crescimento vem da taxa de juros, que está muito baixa, da inflação, que está em equilíbrio, e da oferta de créditos. Muitos que se hospedam em João Pessoa acabam fazendo bate-volta para festas em outros lugares e Patos está com muitos hotéis e com boas infraestruturas. Fico feliz por isso”, afirmou.

Já o presidente do Corecon-PB, Celso Pinto, afirmou que embora os festejos juninos de fato movimentem a economia das cidades, principalmente por conta da venda de alimentos e bebidas, é importante que haja uma transparência em termos de gastos nestas festas. “Determinados municípios promovem grandes festas mesmo alegando estar em situação complicada. Então, mesmo com patrocínios de empresas públicas e privadas, é importante haver uma comunicação maior do que efetivamente se faz e quem paga”, afirmou.

R$ 10 mi injetados na economia

Considerado o “Melhor São João do Brasil”, a festa realizada em Patos, este ano, traz para os forrozeiros e turistas um novo layout. A expectativa é receber mais de 550 mil pessoas durante o evento. De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, o comércio local está apostando no potencial da festa e no bolso do consumidor que vem curtir o São João. Cerca de R$ 10 milhões serão injetados a mais na economia da cidade neste período, movimentando os setores de hotelaria, alimentação, comércio e serviços.

Além disso, a organização da festa espera receber nos seis dias de festa cerca de 550 mil pessoas, entre turistas, forrozeiros locais e de cidades circunvizinhas, em uma média de 80 mil a 110 mil pessoas, dependendo do dia em que determinadas atrações vão se apresentar.

O São João deste ano será mais decentralizado e os forrozeiros e turistas ficarão distribuídos no Terreiro do Forró, na Vila São João e no Polo Gastronômico Cultural, que juntos contarão com aproximadamente 100 horas de muito forró.

“Este ano também demos prioridade aos artistas locais, conseguindo encaixar na grade de atrações. Nossa expectativa é grande este ano. Também focamos na infraestrutura e segurança, com o aumento do número de câmaras de segurança e logística da festa.

Na Vila São João, as prefeituras de cidades circunvizinhas poderão divulgar seus roteiros turísticos e ainda teremos o São João alternativo, que tem atrações de outros estilos. Esperamos receber muitos turistas”, afirmou a presidente da Fundação Cultural de Patos, Isis Medeiros.

Parceria na festa de Cajazeiras

O prefeito de Cajazeiras, José Aldemir Almeida, afirmou que a cidade tem um São João tradicional, embora o investimento mais substancial seja direcionado ao Carnaval. “Temos parceria com empresa privada no São João, mas, mesmo assim, é uma festa mais modesta porque não podemos comprometer nossas obrigações administrativas, como pagamento de servidores, cumprimento de compromisso com fornecedores e obrigações sociais. Então, neste ano faremos quatro dias de festa e a estimativa de investimento é em torno de R$ 250 mil”, explicou.

Em relação a geração de empregos, José Aldemir comentou que não há dados precisos, mas estima-se que, de forma direta e indireta, cerca de 300 empregos sejam criados no período na cidade. “Recebemos muitos turistas e, sem dúvida, circula dinheiro na cidade. A econômica é fortalecida e também os próprios cajazeirenses visitam a cidade, já que muitos moram em outras localidades”, afirmou.

Ainda de acordo com o prefeito de Cajazeiras, as atrações locais foram privilegiadas este ano. “Teremos algumas bandas de fora, mas a maioria será local. Vamos prestigiar a prata da casa em pelo menos 70% da programação e também gerar receita para quem é daqui e das cidades próximas, como São João do Rio do Peixe, Sousa e Uiraúna”, afirmou.

Evento enxuto em Monteiro

Outro São João bastante tradicional na Paraíba é o de Monteiro. De acordo com o secretário de comunicação do município, Fred Menezes, serão dez dias de apresentações culturais e de quadrilhas - de 12 a 22 de junho - e cinco dias de atrações artísticas - de 22 a 27 de junho. Além disso, a programação da festividade na cidade conta com o Sítio São João, com muito forró durante o período da tarde.

“Vamos divulgar a programação oficial no próximo dia 11. Não temos ainda o investimento totalmente fechado, mas sei que houve uma redução em relação ao ano passado por causa de dificuldades financeiras. Por outro lado, nossas expectativas são boas porque antes mesmo da divulgação da programação, várias pousadas da cidade estão com lotação esgotada”, afirmou Menezes.

Ainda, estima-se que no período junino a cidade consiga gerar cerca de 500 empregos, entre diretos e indiretos. “O número engloba vendedores ambulantes, equipe de segurança e empresas de comércio. Somente as pousadas contratam entre três e quatro pessoas nesse período. Como temos 14 pousadas na cidade, só o setor hoteleiro gera até 56 vagas de trabalho. Também temos grandes supermercados que contratam bastante nessa época”, estimou.

Quadrilha investe R$ 750 mil

O São João da Capital pode até não ter o mesmo brilho do da Rainha da Borborema, mas mantém forte tradição em relação às apresentações de quadrilhas juninas. Neste ano, de acordo com o presidente da Liga das Quadrilhas Juninas de João Pessoa, Edson Pessoa, o investimento total no festival de quadrilhas, que será realizado de 13 a 15 de junho, será de pelo menos R$ 750 mil. O valor inclui montagem da estrutura, segurança, equipes de som e incentivos aos grupos que vão participar do evento, que formam um total de 26 quadrilhas.

“Uma quadrilha do grupo A, que é o principal, gasta entre R$ 80 mil e R$ 90 mil para participar do festival. Além do gasto com as roupas, tem o transporte, sonorização, banda, lanches, entre outros. Muitas ensaiam por mais de cinco meses e contratam até oito costureiras. Um vestido simples pode custar na faixa de R$ 800, mas o de um destaque, a exemplo da noiva, pode ficar na faixa de R$ 2 mil a R$ 3 mil. A expectativa é sempre boa porque as quadrilhas se superam a cada ano”, afirmou Pessoa.

A Quadrilha Lageiro Seco é tida como a mais antiga do país, contabilizando 71 anos de história. Com 120 componentes, dos mais diversos bairros e cidades da Grande João Pessoa, os ensaios começam entre setembro e outubro do ano anterior. “Ensaiamos aos sábados e, depois do Carnaval, só respiramos a quadrilha. São ensaios aos sábados, domingos e feriados. Também temos a ‘xaropada’, que é quando o ensaio começa às 10h e vai até as 22h”, afirmou Luciano Dantas, presidente da quadrilha.

Neste ano, a estimativa da Lageiro Seco é de um gasto na faixa dos R$ 88 mil. O incentivo da prefeitura de João Pessoa, que será de R$ 17 mil, é acrescido de diversas táticas de arrecadação financeira. “A gente faz rifas, apresentações com outras quadrilhas, apresentações em restaurantes e hotéis e cada componente tem um ‘card’, no qual ele paga R$ 100 por mês somente para os assessórios. O tecido cada um compra o seu, mas fazemos parcerias com duas lojas do centro da cidade”, afirmou.

Segundo Dantas, um componente gasta em média R$ 1.050 só para se apresentar no dia do festival. “Resumindo, é um gasto muito grande. Então, as rifas também são para ajudar as pessoas que não têm muitas condições. Em apresentações no bairro do Róger, contamos com o bar para arrecadar um bom dinheiro”, explicou o quadrilheiro.

Pelo menos quatro costureiros trabalham nas peças da quadrilha. Dentre eles, está Renan Wesley, que, além de costurar, também desenvolveu o modelo que vai ser usado por todos os integrantes da Lageiro Seco. “Oficialmente, costuro para duas quadrilhas completas e ainda faço roupas para destaque. Antes do carnaval já fiz o protótipo das roupas e agora é pôr em prática e reproduzir”, disse.

Em média, segundo ele, “vou costurar 250 roupas até o São João, com a ajuda de duas pessoas, e fico até de madrugada para dar conta”.

Quadrilhas gastam R$ 7 mi

As apresentações das quadrilhas juninas de Campina Grande se transformaram em espetáculos cenográficos. As juninas deixaram de lado o tradicional para investir em grandes shows e, claro, o custo subiu, e muito. Hoje, segundo Lima Filho, presidente da Associação das Quadrilhas Juninas de Campina Grande, o investimento das quadrilhas supera os R$ 7 milhões. As maiores gastam cerca de R$ 1,3 milhão, só na cidade.

São cerca de 150 quadrilhas espalhadas pela Paraíba e a média de investimento gira em torno de R$ 40 mil, cada. Lima Filho disse que as juninas gastam basicamente nos figurinos dos dançantes, que são produzidos por costureiras e sapateiros da cidade mesmo.

“São gastos na confecção de figurinos, tecidos, aviamento, pedraria, calçados masculinos e femininos - cerca de 60 pares no mínimo por quadrilha com 30 casais), adereços de cabeça para mulheres, chapéus para homens. As mulheres ainda investem em aplicação de cabelos, maquiagens quase que diariamente, meias calças. Eles ainda investem em transportes tanto para se deslocarem nos meses de ensaios quanto para viagens para a concursos”, apontou Lima.

Ainda de acordo com o quadrilheiro, são inclusos gastos na cenografia, na contratação dos cenógrafos, e mão de obra de músicos, cabelereiros, pintores, costureiras, sapateiros, coreógrafos, atores estilistas, roteiristas, produtores culturais. “Eles também gastam com locação de estúdio para gravação da parte teatral da quadrilha, que tem banda de música que contrata cerca de nove músicos, serralheiros, marceneiros para cenografia. É uma média de vinte prestadores de serviços por quadrilha”.

A costureira Edileuza de Almeida amplia o faturamento da empresa durante o período junino. Apesar de reclamar de que muitas quadrilhas juninas estão inadimplentes, só aceitou produzir os figurinos de apenas uma quadrilha estilizada, a Arraial da Felicidade. “Quase todas me devem e preferi não costurar mais para nenhuma delas”, afirmou.

Mas ela não parou a produção. “Tô fazendo vestidos juninos para vender e três costureiras me ajudam. São vestidos, camisas e outros artigos juninos. Também estou revendendo as roupas da época”, pontuou Edleusa. Os produtos custam a partir de R$ 60, mas as roupas dos dançantes custam R$ 500, o par. Ela estava costurando para 20 casais.

 

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