segunda, 16 de julho de 2018
Dia das Mães
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Famílias adotam mais de uma criança e garantem que a alegria é redobrada em casa

Lucilene Meireles e Renata Fabrício / 13 de maio de 2018
Foto: Antônio Ronaldo
As famílias atuais estão cada vez menores. Algumas optam por apenas uma criança e justificam a escolha pela dificuldade de arcar com os altos custos, como escola e saúde, e na falta de tempo, já que os pais trabalham fora o dia inteiro. Esses argumentos, porém, estão fora do dicionário de outras que, além de filhos biológicos, escolheram adotar outras crianças e encher a casa de cores, sons, sorrisos e muita vontade de cuidar. São lares onde nada é problema e o amor materno supera qualquer obstáculo. Para algumas, ter filhos adotivos sempre foi o plano A.

“Não tenho filhos biológicos, mas posso ter. Sempre tive o desejo de adotar, desde pequena, e esse desejo perdurou. Pensávamos em ter um biológico e um por adoção, e eles são nossos primeiros filhos”, relatou a professora Christiane Vieira da Silva Patrício. Ela está em fase de conclusão do processo de adoção de duas crianças: a filha de 8 anos, e o filho que tem 6. Os nomes não foram divulgados porque a nova certidão dos dois, com os sobrenomes da nova família, ainda não foi emitida.

A professora lembra que se apaixonou por ambos e jamais poderia afastar um do outro, já que são irmãos. Assim, o casal, que esperava ganhar um filho, acabou ganhando dois. Os irmãos foram adotados no mesmo dia. “Em 30 de maio fará um ano que estão conosco em casa”, comemorou.

Para Christiane e o marido, este sempre foi o plano A. “Independente de saber se poderia ter biológicos ou não, sempre quis a adoção”, afirmou. Daí, inclusive, surgiu o nome da página que ela tem numa rede social chamada Plano A. “Adoção, no nosso caso, não foi uma segunda opção, uma carta na manga, um plano B. Para nós também coube mais um e pulamos de uma família com apenas duas pessoas para quatro. Ainda não pensamos sobre gerar ou entrar na fila novamente, mas me sinto completa sendo mãe”, ressaltou.

Coração que sempre cabe mais um filho

Não é um exagero chamá-la de “a maior mãe do mundo”. Na casa e no coração de Maria Elisabete Santos, 82 anos, sempre cabe mais um. E foi assim, de um em um, que dona Beta criou os cinco filhos biológicos; três filhos adotivos; os filhos dos filhos e outros filhos de uma pátria mãe “gentil” que a vida fez chegar à sua casa. Na mesa desta mãe, em uma casinha no bairro do Catolé, em Campina Grande, quase 40 filhos já provaram de seu tempero. Mesmo sem qualquer luxo, todos os filhos se criaram.

Entre tantos seres humanos criados pela viúva, algumas histórias se destacam. Jucélia foi deixada na porta da casa de dona Beta há 30 anos. Eram 6h30 da manhã. As crianças estavam indo para a escola, quando encontraram um pacotinho de pano perto da torneira do jardim. E assim nasceu Jucélia na vida de Elisabete.

Já o menino Júnior, como ela chama, “nasceu” depois. Chegou na família já adolescente, aos 12 anos, numa véspera de São João. Órfão de mãe, deixado com um pai doente, Júnior foi o último entre seus irmãos de sangue a receber um novo lar. E que lar! Quando chegou à casa de dona Beta, recebeu o sapato de um dos novos irmãos, a roupa de outro e assim se criou.

Dona Beta criou os filhos para o mundo. Alguns mudaram de cidade, outros moram no céu – como ela mesma diz, mas os que estão por perto têm sempre o abraço da mãe para onde voltar. Os tradicionais almoços de domingo não deixaram de acontecer. As únicas duas mesas da casa são as mesmas de sempre. Nunca coube todo mundo sentado, mas sempre coube todo mundo.

E no almoço deste domingo, uma boa galinha será feita pra celebrar o dia especial de dona Beta junto com os filhos que estiverem por perto.

“Vou fazer uma boa galinha. Aqui é a casa da festa. E tendo um amor assim é que eu faço com gosto mesmo. Meu sentimento é tudo. Mesmo os que estão longe, eu amo todos os dias. O amor que eu tenho nunca morre. Eu acho que é o meu dom. Acho que cumpri minha missão e se hoje aparecer de novo, estou de braços abertos para receber. A vida é um milagre”, diz cheia de amor.

“É um desprendimento muito grande”

A disposição de ter espaço para mais um em casa vem, inicialmente, do desejo de ser mãe, da vontade de ter um filho, construir uma família. Em muitos casos, a mãe não consegue gerar uma criança. Em outros, a família tem filhos biológicos, mas tem esse entusiasmo. “É um desprendimento muito grande. É preciso ter amor, dedicação, mas é bom esclarecer que adoção não é caridade. Tem que incorporar a criança à família, educar. Caridade não tem compromisso. Adoção, sim, e é para toda a vida”, alertou o juiz da Infância e Juventude, e coordenador estadual da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça, Adhailton Lacet.

Ele lembrou de uma família que adotou três irmãos de 4, 6 e 8 anos recentemente e destacou que, nas famílias onde sempre cabe mais um, a adoção de irmãos é importante. “O Estatuto da Criança e do Adolescente dá preferência a grupos de irmãos. O juiz só separa quando não há condições. Não se pode sacrificar uma em detrimento dos demais, mas a orientação é que seja o grupo”, observou.

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