segunda, 16 de julho de 2018
Teatro
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Violência contra mulher é tema do monólogo ‘O açogueiro’

André Luiz Maia / 03 de maio de 2018
Foto: Divulgação
O ator Alexandre Guimarães se define como um provocador. Ao se juntar a Samuel Santos para criar o espetáculo O Açougueiro, que será apresentado nesta sexta-feira (4) em João Pessoa, sua ideia era fazer com que seu público discutisse questões como preconceito e opressão ao sair do teatro. Agora, é a vez dos pessoenses passarem pela experiência, em apresentação única no Teatro Paulo Pontes.

A história gira em torno do desejo de Antônio em ser dono de um açougue. A vontade surge por conta de sua vida pregressa, já que o rapaz vinha de uma realidade de pobreza e fome no interior do Nordeste. Na sua cabeça, se conseguisse ser proprietário de uma loja de carnes, aquele alimento nunca mais faltaria em seu prato.

Ele consegue realizar seu sonho e as coisas vão se acertando. Até que se apaixona. O alvo é Nicinha, uma jovem prostituta da cidade. Ela abdica de sua profissão e se casa com Antônio. Apesar da felicidade, eles começam a ser hostilizados pelos até então pacatos e cordiais moradores da vizinhança, revelando assim uma faceta cruel da sociedade.

Ao todo, a história apresenta nove personagens distintos, todos eles interpretados por Alexandre. Assim como os sonhos são a principal motivação de seu protagonista, a peça surge a partir de um desejo de Alexandre. Após morar três anos no Rio de Janeiro, ele retornou à sua terra natal, Pernambuco, com a vontade de exercer um teatro mais autoral.

“Estava sem perspectiva alguma de trabalho. Lancei a ideia para o Samuel (Santos, responsável pela dramaturgia e o plano de luz), ele topou e fizemos, sem nenhum tipo de apoio ou suporte”, relembra o ator. E, de fato, a peça circula há três anos sem grandes financiamentos públicos ou patrocínios de empresas privadas.

Paralelamente, ele oferece palestras sobre gerenciamento de carreira. “Eu bato muito na tecla que hoje, para você trabalhar com teatro, é necessário ser seu próprio produtor, entender as estratégias de administração e comunicação para gerir uma carreira. Não dá para ser apenas um artista”, frisa Alexandre Guimarães.

Paisagem social

O Açougueiro é uma história de amor no sertão nordestino, mas que não se furta de mostrar as matizes sombrias do comportamento humano diante da diferença. “É um espetáculo sobre a intolerância, sobre o preconceito em uma região com os maiores índices de violência contra a mulher no país”, ressalta o ator. Através de elementos típicos da região, como cantos, toadas e aboios, ele apresenta ao público uma colcha de retalhos desse sertão que está começando a lidar com questões como o combate à intolerância.

Na sua visão, Nicinha é uma alegoria para a figura do oprimido. “No caso da história, é uma mulher que se prostituía, mas podia ser um morador de rua, uma pessoa de religião diferente da maioria ou uma pessoa do mesmo sexo que Antônio. A ideia da peça é fazer com que o público abra os olhos e saiam do espetáculo pensando sobre isso”, comenta Alexandre.

O ator não é sertanejo, é um rapaz urbano de Boa Viagem, bairro de classe média alta de Recife. No entanto, toda a sua família é do interior do estado, o que faz com que tenha experiência. “Essa peça é a primeira de uma trilogia que pretendo fazer, chamada Trilogia do Eu. Quero falar de vários aspectos da minha vida através do teatro”, revela. Daqui, ele parte para um temporada no Rio de Janeiro, onde voltou a morar.

 

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