sábado, 23 de fevereiro de 2019
Cultura
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‘O Diário de Anne Frank’ ganha versão em quadrinhos

Renato Félix / 06 de janeiro de 2018
Foto: Reprodução/Blog Amiga da Leitora
As palavras de uma garota judia de 13 anos estão entre as que mais ressoam sobre uma das mais dramáticas tragédias da humanidade: o Holocausto. E continuam ressoando há mais de 70 anos, combinando observações sobre a violência nazista e os anseios e questionamentos de uma adolescente. O Diário de Anne Frank ganhou, agora, também uma versão em quadrinhos oficialmente produzida pela Anne Frank Fonds.

O roteiro é do israelense Ari Folman, diretor do documentário em animação Valsa com Bashir. Ele foi convidado pela fundação suíça (criada em 1963 pelo pai de Anne, Otto Frank, para preservar a memória da filha) para desenvolver um longa-metragem animado e uma graphic novel que adaptassem o diário.

A animação ainda está em produção, mas a HQ já ganhou as livrarias em cerca de 40 línguas. O desenhista David Polonsky é também israelense e também está em Valsa com Bashir, assinando a direção de arte e os desenhos da versão em HQ.

No posfácio da HQ, Folman explica como o convite foi feito e as opções criativas da dupla. O desafio inicial foi o de condensar o texto, mantendo o máximo de fidelidade possível.

Outro foi o de lidar com uma história que, afinal, basicamente se passa em um mesmo ambiente: o anexo da fábrica de Otto, onde ele se esconde com sua família e mais outra para escaparem da perseguição nazista aos judeus, de 1942 a 1944, durante a II Guerra Mundial.

Obra retrata humor de Anne

Ari Folman e David Polonsky optam por dar asas à imaginação de Anne Frank. Não apenas seu cotidiano no anexo, mas seus pensamentos, fantasias, sonhos e aspirações. Confinada àqueles cômodos, forçada a manter-se em silêncio boa parte do dia, Anne só pode imaginar o que se passa.

Mas ao fazer isso, as imagens do terror nazista ganham as páginas da HQ. Os desenhos não carregam na violência, no entanto, porque o foco são os leitores mais jovens. Mas não deixa de ser impactante, por exemplo, a cena de Anne Frank dormindo, cercada pelo pesadelo da guerra.

Anne também imagina a morte da mãe, com quem tem constantes conflitos, e imagina a vida depois da guerra. Às vezes é um pensamento triste e amedrontado, em que pensa em sua família reduzida a pedintes. Em outros momentos, vislumbra um futuro em que se vê apaixonada e uma profissional realizada. A HQ concede a Anne Frank uma vida que ela não chegou a ter de verdade.

Suas comparações também são ilustradas: a sensação de estar em algum lugar suspenso da realidade, ou de estar se afogando, Anne é retratada em um jardim cheio de belas estátuas quando pensa na beleza feminina e como quadros de Edvard Munch e Gustav Klimt para retratar seu estado de espírito oscilante.

A narrativa também se esmera em traduzir passagens do diário – a quem Anne se dirige como Kitty – puramente em imagens. Como resumir em uma página de comparações mudas a maneira como Anne vê as diferenças entre ela, problemática, e Margot, sua irmã "perfeita".

Assim, o livro consegue ser imaginativo, sem deixar de ser a voz de Anne Frank. "Acho que seu grande poder foi conseguir observar o mundo dos adultos à sua volta, porque ela não teve um processo natural de amadurecimento enquanto se escondia", explicou Folman em entrevista ao site da editora. "As únicas pessoas a quem ela poderia se referir eram as que estavam no esconderijo com ela, e a forma com que ela as observava era incrivelmente inteligente e, de certa forma, engraçada. Eu quis honrar as partes engraçadas de sua escrita, suas observações".

Curiosamente, a garota foi tema de mais dois lançamentos em HQ no Brasil em 2017: Anne Frank – A Biografia Ilustrada, dos americanos Sid Jacobson e Ernie Colón (pela Cia. das Letras), e O Diário de Anne Frank em Quadrinhos, da mineira Mirella Spinelli (pela Nemo).

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