domingo, 27 de maio de 2018
Música
Compartilhar:

O violão do Avesso: dez ano da morte de Canhoto da Paraíba

André Luiz Maia / 24 de Abril de 2018
Foto: Reprodução
Uma das pérolas de nossa música nos deixou há exatamente dez anos. Em 24 de abril de 2008, Canhoto da Paraíba, vítima de infarto, morreu aos 82 anos. Sua vida foi marcada pelo reconhecimento de seu trabalho excepcional no violão por nomes como Jacob do Bandolim e Paulinho da Viola. Como principal contribuição para nossa música, um rosário de composições.

Apesar de ter nascido em uma família de músicos, o pequeno Francisco Soares de Araújo começou a aprender a tocar violão na cidade de Princesa Isabel de forma autodidata, já que era o único canhoto de uma família de destros.

A principal contribuição veio do maestro Joaquim Leandro, regente da banda da cidade de Princesa Isabel. Foi com ele que Canhoto deu os primeiros passos musicais.

O aprendizado sistemático da música veio aos 16 anos, quando começou a aprender a tocar com a mão esquerda, mas sem precisar inverter as cordas.

“Pelo fato de ser canhoto e tocar com as cordas invertidas, a maneira como ele resolvia o assunto, ele foi uma das coisas mais originais da música brasileira”, contou o violonista gaúcho Yamandu Costa ao jornalista Renato Félix.

Ainda tocando em festas na pequena cidade sertaneja, Canhoto já tinha um repertório calcado no choro e na valsa, tocando composições de Pixinguinha, Jacob do Bandolim e Ernesto Nazareth.

Na época, chegou a se mudar e tentar uma chance na Rádio Clube de Recife. Na capital pernambucana, ficou conhecido como Chico Soares. Aqui em João Pessoa, já na década de 1950, passou alguns anos na Rádio Tabajara. Mas seu nome começaria a se tornar grande no Rio de Janeiro.

Viajou num velho jipe durante cinco dias. Apresentou-se em um sarau na casa de Jacob do Bandolim. Um registro em que Jacob fala sobre Canhoto está na gravação de um sarau disponível no YouTuibe (https://www.youtube.com/watch?v=4gD3M7Pvwbo).

Na plateia do primeiro sarau, Pixinguinha, Radamés Gnattali, Tia Amélia, Dilermano Reis e o ainda adolescente Paulinho da Viola. Essa parceria com Paulinho se estendeu, rendendo até mesmo a homenagem do carioca ao paraibano no choro “Abraçando Chico Soares”.

Em 1968, lançou o seu primeiro disco, Único Amor. Quase dez anos depois, foi a vez de O Violão Brasileiro Tocado pelo Avesso, com composições de sua autoria, como “Visitando o Recife”, “Tua imagem” e “Corrinha”.

“Canhoto introduziu às suas interpretações e composições uma forma característica e diferenciada na articulação e condução do fraseado musical, o que lhe consagrou um espaço privilegiado entre os grandes nomes do choro como Pixinguinha, Radamés Gnattali, Jacob do Bandolim, Paulinho da Viola, entre outros músicos que passaram a admirá-lo por sua competência e virtuosismo”, ressalta Carla Santos, regente da Orquestra de Violões da Paraíba.

Legado. Para o violinista Vinicius de Lucena, a principal contribuição de Canhoto está na expansão de um repertório para violão tipicamente brasileiro, algo que ainda era muito limitado. “Já havia nomes como Baden Powell, mas enquanto ele trabalhava a questão rítmica africana, Canhoto mergulhava no choro, um gênero muito específico do Brasil. São 83 composições”, explica, ressaltando que boa parte desse acervo ainda é de difícil acesso, já que Canhoto não escrevia partituras nem teve alguém que fizesse esse trabalho de catalogação.

O fato de ter aprendido a tocar violão com a mão esquerda sem precisar inverter a ordem das cordas o tornou famoso, mas Vinicius faz questão de mostrar como essa técnica afetava suas composições e a forma de tocá-las. “Os destros utilizam o dedo polegar para os acompanhamentos, as notas mais graves, e os três seguintes, indicador, médio e anelar, para as melodias. No caso de Canhoto, era o inverso, já que quem fazia boa parte das melodias era o polegar. Isso trouxe um colorido diferente para suas músicas”, explica.

Relacionadas