quinta, 19 de julho de 2018
Música
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Improvisos nada amadores na apresentação da banda Jaguaribe Carne

André Luiz Maia / 24 de maio de 2016
Foto: Rafael Passos
Quem conhece um pouco da história da música paraibana com certeza já deve ter se deparado com o nome Jaguaribe Carne. O grupo, criado ainda na década de 1970, foi pedra fundamental para toda a expressão artística da cena independente que viria a seguir no estado.

Embora eu já venha escrevendo sobre jornalismo cultural há alguns poucos anos, não tinha tido a oportunidade de vê-los nos encontros ocasionais que Pedro Osmar e Paulo Ró fizeram. A performance do projeto Cambada, realizada na sexta foi o primeiro momento em que eu pude entrar em contato de maneira mais direto com o trabalho deles. Mas acredito que nada teria me preparado para o que iria encontrar.

Com espírito de jam session, as sessões de improvisações típicas do jazz americano, os irmãos Pedro e Paulo demonstram no palco uma inteligência musical fora de série. Não conheço profundamente música para me atrever a dissecar aqui os detalhes, mas é notória a simbiose entre os dois, a harmonização (e a dissonância proposital) no primeiro número de um repertório, como depois fora revelado pelos dois, improvisado. O improviso era explícito durante todo o show, mas jamais isso se revertia em amadorismo, muito pelo contrário.

Se é possível fazer uma analogia, ir ao show de Jaguaribe Carne é como chegar em um restaurante e pedir a sugestão do chef, na qual você pode saber alguns dos elementos que irá encontrar, mas a apresentação do prato, a disposição dos elementos e sua preparação são puro mistério. Um sabor inusitado.

O grupo sempre atuou com fusão de linguagens artes visuais, artes-gráficas, teatro, literatura e jornalismo com a pesquisa e laboratório de sons da dita world music – essa expressão guarda-chuva usada para encaixotar em um único local toda a diversidade da música que não cabe no mainstream – às expressões do folclore brasileiro, especialmente o nordestino.

Quando Pedro Osmar abre a boca, é inevitável não lembrar dos emboladores de coco, da ciranda, enfim, de toda essa expressividade do Brasil que insiste em ser tratada como uma peça de museu, mas que renasce toda vez que é incorporada em performances como as do Jaguaribe Carne. As alfaias do maracatu, empunhadas por Paulo, ganham outras camadas de leitura com a subversão ainda juvenil do grupo.

Juventude que também se vê no palco. Como em uma espécie de sarau, eles vão convidando os músicos da plateia para mostrarem um pouco de suas habilidades. E assim vemos o pianista Uaná Barreto, em uma peça instrumental própria, Cinthya Nascimento, com uma embolada no pandeiro, além das participações de Uirá Garcia, CH Malves e Marcos Deparis, três músicos extremamente habilidosos e que proporcionaram alguns dos momentos mais enérgicos da noite – enquanto isso, Pedro e Paulo acompanhavam com “olhos de contemplação”, com o perdão da citação a Chico César.

Por falar nele, Chico foi um dos músicos que já passaram pelo movimento, assim como Escurinho, Totonho (que também participou desse show) e Adeildo Vieira, uma demonstração de que esse diálogo com outros músicos não é inédito, é algo que “vem desde o início do Jaguaribe Carne”, como lembrou Pedro Osmar depois do show. Não há como sair impune ao entrar em contato com Jaguaribe Carne, seja no palco ou na plateia.

Estranhamento

Para um marinheiro de primeira viagem, houve um estranhamento inicial para acompanhar o ritmo de Paulo Ró (acima). Ele e Pedro fogem a todo instante da convencionalidade, brincando e “brigando” com a rigidez do metrônomo, instrumento usado para marcação de tempo na música.

‘Atirar para matar'

Há espaço para posicionamento político. Ao som de uma vinheta que misturava discursos de políticos, Pedro declamou um manifesto. “Se o voto é uma arma, por que não atirar para matar? Mesmo na paz, a democracia é esta guerra em que a miséria lhe abocanha (...). O voto cadáver existe e insiste e se insinua a cada trégua”.

Reverência

Totonho, um dos parceiros históricos do Jaguaribe Carne, subiu para cantar “Fax para cartomante” e declara sobre os parceiros: “Estão aqui a referência musical de tudo o que tem sido feito nos últimos 30 anos aqui na Paraíba. Esses meninos já fizeram tudo, só não fizeram calçamento”, brinca, arrancando risos da plateia.

Sangue novo

Ponto alto da noite foi a participação dos músicos Uirá Garcia (acima), CH Malves e Marcos Deparis. Com violão, percussão, teclado, sintetizadores e até um xilofone de brinquedo, os três passeiam perigosamente pelos limites do som, com energia admirável. Ponto para o Jaguaribe Carne por ceder o espaço para eles.

 

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