quinta, 22 de fevereiro de 2018
Música
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Atenção ao pé-de-serra: Carlinhos Brown sente falta do forró tradicional

José Carlos dos Anjos Wallach / 22 de Maio de 2016
Foto: Imas Pereira/Divulgação
Carlinhos Brown não entrou de sola, mas deixou claro o que sente em relação ao menu de ritmos que os grandes eventos têm escolhido. Para o multinstrumentista baiano, nome importante do axé music e divulgador da cultura nordestina no exterior, produtores e organizadores precisam prestar mais atenção no forró pé de serra, ou ao menos colocá-lo em igualdade com o forró estilizado.

Numa entrevista no hall do Garden Hotel, em Campina Grande, onde ocorreu na última terça-feira a festa de premiação do 8º Trofeú Gonzagão, ele disse que não se pode abrir mão de coisas que realmente identificam a cultura nordestina, embora reconheça que o “novo forró” tenha bebido dessas raízes.

“O forró que está acontecendo agora é muito bonito, alegre, mas parece muito com a soca caribenha e com o raggamuffin”, compara.

Brown diz que em suas viagens pelo exterior percebe a importância que os europeus, principalmente, dão à música brasileira, e que dizem o quanto se encantam pelos ritmos nordestinos.

“Às vezes acho que o Nordeste é tão próximo da Europa que a gente deveria virar o rosto pra lá. Porque eles nos querem muito, sobretudo algumas coisas que o Nordeste está jogando fora, como o forró pé-de-serra. Os europeus são loucos por isso”, relata.

Brown comemora o fato de ainda termos forrozeiros de raiz, que primam pela estrutura musical e pela execução no palco beaseados na sanfona, zabumba, triângulo e na poesia nordestina bem escrita e fundamentada. E lembra alguns nomes do forró que considera bastiões: “Ainda ouvimos coisas como Os Três do Nordeste, Trio Nordestino, um poeta como Flávio José, Elba Ramalho. Temos tudo isso que nos suporta bastante”.

'É possível a convivência’

Brown acredita que, pelo fato do chamado forró pé-de-serra ser a base, ele permite a convivência com o ritmo estilizado, mas os dois precisam ocupar os espaços com o mesmo peso de importância, tempo de exibição e valorização.

Nessa convivência os dois precisam se mostrar, diz: “Olha o filho como é novo e bonito, e olha aqui a base como é bonita. Nós não podemos desistir disso, principalmente porque o novo é muito frágil, é o ovo, quebra fácil. A galinha não, tá ali, forte”.

O baiano entende que o ‘novo forró’ é algo bom, mas enfatiza que o pé de serra é mais difícil de tocar, há mais harmonização e o compositor precisa ser poeta, “e não apenas alguém que capta um gesto ou brincadeira na rua e vai trazendo para esse convívio”.

Para lidar com a musicalidade do que nós chamamos de forró pé de serra, segundo Carlinhos Brown, “o cabra precisa ser muito estudado, basta ver o como e o que tocavam “Seu Domingos” (Dominguinhos), Sivuca e Luiz Gonzaga”.

Forró ‘de plástico’ é termo pejorativo

Habilidoso para o domínio e para distinguir ritmos, Carlinhos Brown acha pejorativo classificar o forró estilizado de “forró de plástico”. Segundo ele, essa atitude tem uma carga de ciúme e indica que o melhor caminho é estimular a mistura dos dois ambientes musicais.

“A ideia do ‘forró de plástico’ virou uma gíria nesse ambiente, porque é um forró que está sendo muito mais construído sobre as bases musicais caribenhas do que sobre as bases nordestinas. Quando você ouve o som da bateria percebe que está muito mais ligado à soca... (Carlinhos reproduz na boca ritmos como calipso, baião, xote, galope).

Quando a gente fala do forró pé-de-serra como uma síntese, assim como se fala do axé ou da salsa, não podemos negar que existem várias nuances, e conhecê-las está ligado à educação musical, uma educação popular. Isso não é regionalismo, não, é a verdadeira força cultural do Brasil”, afirma. O fenômeno do forró estilizado, diz o músico, mostra que o Brasil está se apropriando de um ritmo que não é seu, mas que o está “inteligentemnete adaptando bem”, usando a base já presente na cultura percussiva baiana: “Nós vemos fusões acontecendo, como por exemplo o pagode novo baiano, que está no Aviões do Forró e em outros grupos. Mas temos que ter cuidado para não cometermos gafes lá fora. Se você chegar no exterior e disser que o ritmo do novo forró é do Brasil, nego vai rir de nossa cara”.

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