segunda, 16 de julho de 2018
Literatura
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Tese de doutorado analisa poesia de Sérgio Castro de Pinto

André Luiz Maia / 08 de junho de 2018
Foto: Nalva Figueiredo
Lançada em 1995, a tese de doutorado do então professor do curso de Letras da UFPB, João Batista de Brito, se debruçava sobre a riqueza poética de um dos maiores poetas ainda vivos nascidos na Paraíba, Sérgio de Castro Pinto. Mais de 20 anos depois, Signo e Imagem em Castro Pinto ganha uma nova edição, lançada pela Editora Ideia.

Ao longo das quase 300 páginas, João Batista de Brito analisa poemas dos livros Gestos Lúcidos (1967) e A Ilha na Ostra (1970). A proposta é fazer uma análise não apenas semiótica, mas também do universo que orbita ao redor da produção poética de Sérgio de Castro Pinto. “É o casamento meio absurdo da semiótica com a fenomenologia do imaginário de (Gaston) Bachelard. As duas acabavam se complementando e ajudando a aproximar a poesia de Sérgio a novos leitores, já que é uma poesia nada fácil”, argumenta João Batista de Brito.

Atualmente aposentado da sua função de professor, João Batista se dedica à crítica cinematográfica, papel pelo qual ganhou destaque ao longo dos anos por conta do seu olhar atento e minucioso para a riqueza da sétima arte. Aqui, ele utiliza desse apuro para destrinchar a teia de significados contida na escrita de Sérgio. “A rigor, não há diferença. Você se debruça sobre uma textualidade, que nada mais é que uma estrutura de significação. Tanto faz você ler um poema como ‘ler’ um filme”, ressalta. No entanto, apesar de ter sido professor de literatura por muitos anos, a escolha específica pelo trabalho do autor foi um caso à parte.

Ao trabalhar com a palavra por muito tempo, passou a se tornar cada vez mais difícil ser atraído pela escrita de alguém. “Eu costumo dizer entre amigos que não gosto de poesia, já cheguei a dizer que detesto, pois o que eu vejo por aí é um monte de gente dizendo que é poeta e acho difícil me encantar por elas. A poesia de Sérgio é diferente", confessa. Ele utiliza de um episódio curioso, uma recordação, para ilustrar esse fascínio e magnetismo que a obra de Sérgio provoca nele.

“Lembro quando Sérgio escreveu o poema chamado ‘As Cigarras’. Estava na UFPB e (o poeta) André Ricardo Aguiar, que na época editava uma revista sobre literatura, me mostrou o poema, que tinha acabado de ser escrito. Quando o li, tive a vontade imediata de escrever sobre ele. André disse que eu só poderia fazer isso quando ele fosse publicado na revista, mas eu não quis saber. Meti a mão, peguei o poema e saí correndo para xerocar o poema. É difícil resistir a uma poesia que lhe encanta, lhe intriga”, relembra João Batista de Brito.

Sérgio de Castro Pinto enxerga o papel do pesquisador e do crítico com naturalidade. “João é um crítico perspicaz, que descobriu determinadas nuances da minha poesia que passaram despercebido até mesmo para mim, pelo menos na zona do consciente. Quem sabe eu tenha feito tais associações nas zonas nebulosas do insconsciente”, pontua.

Para exemplificar essa perspicácia de João Batista, o poeta lembra de algumas análises. “No poema ‘Geração 60', falo de barris de carvalho em um dos versos e talvez eu não tenha me atentado na época, mas o carvalho é uma madeira de lei, dura, rígida, que acabava fazendo menção ao regime militar. Outro foi no poema ‘O gato e o poeta’, que na sétima estrofe começa a mostrar o gato morrendo, aludindo às sete vidas que o gato tem na crendice popular. Achei que isso ficaria só para mim, mas João fez o favor de entregar para o mundo esse meu ‘pulo do gato’”, brinca Sérgio.

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