segunda, 16 de julho de 2018
Literatura
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Personagem de Mauricio de Sousa vira protagonista em história sobre racismo

Renato Félix / 02 de junho de 2018
Antes mesmo de existir a Mônica, criada em 1963, o Jeremias já estava lá. Um dos personagens mais antigos de Mauricio de Sousa, já aparecia na capa de Bidu 1, primeiro gibi do autor, de 1960. Um dos amigos originais do Franjinha, ele, no entanto, nunca chegou a se tornar protagonistas nos quadrinhos. Mas estrela a nova edição do selo Graphic MSP, Jeremias – Pele, com roteiro de Rafael Calça e desenhos de Jefferson Costa.

Mais do que isso, o personagem se torna um porta-voz de um problema que sempre existiu e vem crescendo no país: o racismo. Os autores, negros, foram convidados pela Mauricio de Sousa Produções para dar o protagonismo que o personagem já merecia há muito tempo e com uma mensagem importante.

“A gente tentou fugir um pouco dos clichês que a mpidia e a publicidade colocam. Os negros sempre aparecem com famílias desestruturadas, pobres, envolvidos com criminalidade”, conta Rafael Calça. “Somos múltiplos, somos mais”.

Nesses mais de 50 anos, Jeremias pouco foi além de um figurante nas HQs tradicionais da Turma da Mônica. No começo dos anos 1980, ele ganhou um período de maior importância, chegando a dividir histórias com a Mônica e ser protagonista de algumas. Mas ficou nisso.

Calça e Costa, então, criaram o mundo que Jeremias precisava. “Nossa preocupação maior é mostrar o Jeremias que não estava nos quadrinhos”, explica. “Com pai, mãe e avô, e que eles tenham nomes e profissões”.

A trama localiza Jeremias antes de conhecer Franjinha e a Turma da Mônica. “Era necessário mostrar o Jeremias como ele, e não como parte de um todo. Pensamos: ‘Vamos inverter isso: tirar o Jeremias do fundo e colocar na frente, e colocar a turma da Mônica no fundo’. vamos entender esse personagem”, conta. Mônica e seus amigos acabam realmente aparecendo, mas como figurantes, e Franjinha entra em cena no final da história.

Até lá, o álbum mostra Jeremias tomando contato pela primeira vez com o racismo, através de um colega valentão e da professora que, em um trabalho da escola, o designa como pedreiro. Na trama, a reação dos pais é importante. Um passeio pela cidade, e por monumentos que celebram a história negra, ajuda o garoto a entender quem ele é.

Mas Calça afirma que não houve uma preocupação em ser panfletário. “O foco foi contar uma boa história falando sobre racismo. Não fazer uma apostila sobre o assunto”, esclarece. “E fazer algo que as crianças também pudessem ler”.

A expectativa, agora, é que ela ajude a mudar o status do Jeremias dentro da Turma da Mônica original. “Dentro da MSP sabemos que há conversas nesse sentido, de mais representatividade”, conta Calça. E o Jeremias espera por isso há um bom tempo.

“Jeremias – Pelé”

De Rafael Calça (roteiro) e Jefferson Costa (desenho)

Editora: Panini. Páginas: 96. Formato: 19 x 26 cm

Preço: R$ 41,90

(capa dura) e R$ 31,90 (capa cartonada)

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