segunda, 10 de dezembro de 2018
Literatura
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Jornalista Cristina Tardáguila lança o livro ‘A Arte do Descaso’ em JP

Kubitschek Pinheiro / 16 de maio de 2018
Foto: Reprodução
País do Carnaval e da roubalheira. Isso mesmo: em pleno carnaval naquele fevereiro de 2006 indivíduos, aproveitando a folia, invadiram o Museu da Chácara do Céu, no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, e roubaram cinco obras de arte: um Dalí, um Matisse, um Monet e dois Picassos. O valor estimado, na época, ultrapassava os 10 milhões de dólares. Até hoje não se tem noticia das obras.

Na época, a jornalista Cristina Tardáguila fez reportagem investigativa sobre o roubo, que agora resultou num livro: A Arte do Descaso, pela editora Intrinseca. E sera este o tema de sua palestra em João Pessoa, amanhã, às 16h, na I Conferência Brasileira de Direito e Arte, que está acontecendo no Tribunal de Constas do Estado. Na ocasião, haverá o lançamento do livro e sessão de autógrafos.

“Na verdade, a minha ida aí é para falar e divulgar cada vez mais esse crime, tipo sair pelo país afora cobrando a eficiência das instituições envolvidas. Vamos ver se a partir desse seminário aí na Paraíba a gente consegue uma investigação definitiva sobre esse caso”, diz a autora.

Ela cobria a área de política cultural e sempre gostou muito de casos intrigantes e investigativos. “Quando o roubo fez cinco anos, eu fiquei com muita vontade de fazer um levantamento: que fim teria levado o roubo da Chácara do Céu. E casou com um convite da editora Intrínseca. Pediram algo que não fosse ficção e fui logo citando a história da Chácara do Céu...”

Daí em diante a escritora caiu em campo para uma vasta pesquisa que durou mais de quatro anos, passando por em vários lugares, coletando dados e, claro, procurando o autor do furto milionário.

“Estive muitas vezes em Santa Teresa e nas comunidades que ficam no entorno. Fui à Policia Federal diversas vezes. Falei com o Ministério da Cultura, além das viagens internacionais. Nós não temos literatura nenhuma sobre roubos de arte”.

Cristina Tardáguila foi até Londres conhecer o esquadrão da Scotland Yard que cuida de roubos de obras de arte. E também foi à Itália. “Visitei duas cidades: em Amelia, existe um curso de pós graduação de crimes contra obras de arte. E fui a Roma para conhecer o trabalho dos carabinieres, a policia italiana, que tem o melhor esquadrão do mundo de crimes contra a arte”, resume.

Roubos de obras de arte remetem às milhares de obras saqueadas por Hitler e Napoleão, mas o livro de Cristina Tardáguila bota o Brasil nessa rota. “Juro que continuo frustrada de saber que continuamos sem ver quatro belas pinturas e um livro de gravura fundamentais da Chácara do Céu”.

A escritora confessa que não teve medo algum ao se meter numa história que envolve milhões. “Localizei o criminoso do primeiro roubo na Chácara do Céu – este de que estamos falando não foi o único. O momento de maior tensão foi quando estive cara a cara com o ladrão de 1989, que já estava solto em 2006 e conhecia muito bem o museu”.

Uma outra parte bem interessante do livro foi a experiência que a autora teve ao conduzir essa pesquisa minuciosa. “A primiera coisa que eu aprendi junto aos cabinieres na Itália foi que, para qualquer tipo de investigação de roubo de arte dar certo, é preciso que as instruções venham de cima para baixo. Ou seja, que o poder esteja do nosso lado. Aprendi também que na Itália existe não só um enorme aparato técnico. Lá eles usam até submarino para localizar as obras de arte. E aqui, nada”.

Vamos trazer à tona Paulo Jessé, motorista de van, e saber como ele entra na história da Chácara do Céu. “Ele foi envolvido através do disque-denúncia. Alguém ligou dizendo que uma van placa tal, estava estacionada próximo ao museu no momento do roubo em meio ao tumulto do Carnaval. Ele acaba detido para investigação e tem seu telefone grampeado, conversas são registradas. Mas, como não foram armazenadas, ficou a palavra da delegada contra a palavra do Jessé”.

No fim, o livro não mostra um crime solucionado, mas uma inoperância já conhecida. “Me dei conta que o livro não é apenas sobre o roubo, mas sobre o descaso que envolveu em todas as instancias esse crime. Enfim, as instituições tiveram um descaso impressionante”, diz.

Ou seja, A Arte do Descaso é a cara do Brasil? “Quando escolhemos o titulo, algumas pessoas perguntavam se o livro era sobre a previdência social, sobre a saúde, pois o titulo se aplicaria a varias outras situações do cotidiano e da política social brasileira”.

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