quinta, 20 de setembro de 2018
Literatura
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Biógrafo de Clarice Lispector, o americano Benjamin Moser fala ao CORREIO sobre ‘Autoimperialismo’

André Luiz Maia - De Paraty, RJ / 10 de julho de 2016
Foto: Divulgação
Diante da crise política que se instaura no país, dividindo a população em times que mais parecem torcidas organizadas de futebol, o escritor e historiador norte-americano Benjamin Moser, com seu novo livro, Autoimperialismo: Três Ensaios sobre o Brasil, quer refletir sobre a própria história brasileira e levantar algumas discussões que podem ajudar a entender a conjuntura atual dos fatos.

Conhecido por seu extenso trabalho de dedicação quase sacerdotal à obra de Clarice Lispector, sobre a qual escreveu a biografia Clarice, (pela extinta Cosac Naify, em 2009) e organizou a compilação Todos os Contos, foi por causa da escritora que ele se dedicou ao estudo da língua (na qual é fluente) e passou a procurar entender a realidade de um país tão plural e que, apesar de ter sido colonizado, tem aspirações imperialistas, diferente de seus vizinhos latino-americanos.

Nos últimos anos, ele vem causando certo burburinho por verbalizar opiniões que até mesmo alguns intelectuais do país hesitam em declarar. Para ele, por exemplo, a obra de Oscar Niemeyer tem excesso de concreto e escassez de verde, o que teria prejudicado a linha de pensamento da arquitetura do século XX no país. Também declarou incômodo à forma como os estudiosos tratam da homossexualidade de autores importantes da literatura nacional, como Lúcio Cardoso e Mário de Andrade.

Durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em meio a uma agenda atribulada, Moser conversou rapidamente com o CORREIO sobre esses ensaios. Antes de tudo, ele refuta a ideia de que sua visão é “estrangeira”, por estar imerso na cultura brasileira por quase duas décadas.

“Meu compromisso com o Brasil é uma coisa séria. Se eu critico coisas do Brasil, é porque eu queria que elas fossem diferentes, melhores, não é a crítica apenas para ser desagradável. Eu vejo tanta gente sofrendo por escolhas políticas ou estéticas, que no fim das contas acaba sendo a mesma coisa”, explica.

O que Moser defende é refletir sobre os caminhos que estamos seguindo enquanto nação. “É pensar como será essa sociedade, além desse projeto de sociedade de consumo e de colonização, algo que ainda acontece na Amazônia, por exemplo”, cita.

Ao caminhar pelas ruas do Centro Histórico de Paraty, ele evidencia o sufocamento que as políticas nacionais fazem com a própria história do país. “Aqui em Paraty, vemos essa herança linda, que foi esmagada pelo espectro do concreto, da especulação imobiliária. Algo que existe em todos os países, mas que, no Brasil, há uma tentativa de eliminar essa história por ser algo mais fácil ou lucrativo”, analisa.

Logo nas primeiras páginas do livro, ele faz uma dedicatória ao movimento Ocupe Estelita, de Recife, que luta pela preservação de um local histórico alvo de um empreendimento que busca justamente realizar esse processo de apagamento histórico.

Em contrapartida, nos ensaios do livro, ele também questiona o legado histórico que os brasileiros querem preservar para as futuras gerações. “Quando a gente pega como exemplo aquele monumento dedicado aos bandeirantes, em São Paulo, e olha com atenção, a gente percebe que é mais um monumento que homenageia figuras horríveis, escravizadores, assassinos, que matavam índios”.

“Não é exatamente o Brasil que a gente quer comemorar, mas ninguém presta atenção dessas coisas”, continua ele. “Não é que eu queira derrubar todos os monumentos históricos de São Paulo (risos), mas eu queria que as pessoas refletissem sobre isso, pois olhar para como lidamos com o passado é uma forma de entendermos como estão pensando o futuro”, argumenta o historiador.

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